Tiro fatal repercute em brasileiros nos EUA

Brian R. Ballou
Em Hyannis

As presença brasileira está em todos os lugares, desde as joalherias localizadas entre campos de mini-golfe e sorveterias, aos inúmeros caminhões de pintura e paisagismo passeando pelos bairros e parados ao longo das ruas largas dos bairros mais nobres. Em alguns pátios ensolarados em frente a restaurantes na Main Street, onde a bandeira verde e amarela brasileira está hasteada, o português é falado com mais freqüência do que o inglês.

A maioria dos 14 mil brasileiros de Cape Cod mora no vilarejo de Barnstable, ou no vizinho Falmouth, onde eles se reuniram para encontrar trabalho como cozinheiros, empresários, paisagistas ou pintores de casas --como André L. Martins, de 25 anos, que foi morto a tiros pela polícia depois de uma perseguição de carros no domingo.

A maioria veio para cá procurando uma vida melhor. Alguns encontraram.
Mas muitos outros acumulam vários empregos, numa rotina de trabalho que é interrompida apenas para o sono e dá espaço para poucas atividades sociais além da igreja.

"Aqui, a maioria dos brasileiros trabalha duro em serviços que não exigem muito estudo como a construção, os telhados e a pintura", diz Cleiber Silver, 38, que veio de Belo Horizonte, no Brasil, em 2000 com um visto de trabalho e hoje tem seu próprio negócio. "O problema é que eles estão trabalhando duro e não estão investindo. Eles enviam dinheiro para suas famílias. Estou numa posição muito confortável e sei que há outros que estão indo bem, mas a maioria dos brasileiros está vendendo sua alma para conseguir sobreviver."

Marcos Flavio, 33, tem dois empregos: é cozinheiro no popular Brazilian Grill, na Main Street, e paisagista. Flavio diz que seus empregos deixam-no com muito pouco tempo livre e que na maior parte do tempo ele vai direto do trabalho para a cama. Ele conta que muitos de seus amigos também têm dois empregos e que, como ele, foram atraídos para os Estados Unidos pela promessa de trabalhos bem pagos.

Na tarde de quinta-feira, Flavio aplainou uma faixa de terra próxima ao restaurante, preparando um canteiro para plantar. Com as mãos cheias de terra e com o suor pingando da testa, ele falou sobre o assunto que dominou boa parte das conversas entre os brasileiros durante os últimos dois dias, a morte a tiros de Martins por um policial na manhã de domingo.

"Nós viemos para cá, trabalhamos duro, mas a polícia parece que não nos respeita", disse Flavio, que mora em Hyannis há quatro anos. "Eles não precisavam ter atirado nele. Podiam apenas tê-lo agarrado."

Flavio diz que ele está no país legalmente, mas para muitos brasileiros que vivem aqui sem documentação a possibilidade de deportação é um motivo de grande estresse.

Enquanto as autoridades, incluindo o promotor do distrito de Cape e Islands Michael D. O'Keefe, continuavam investigando o episódio de trânsito que terminou com a morte de Martins, muitos brasileiros daqui disseram que o principal assunto discutido nas mesas de jantar, bares e no trabalho é a permissão para imigrantes ilegais terem carteiras de motoristas.

Fausto da Rocha, diretor executivo do Centro do Imigrante Brasileiro em Allston, diz que "esse é o principal assunto entre a população de imigrantes, não apenas em Cape, mas em todo o Estado".

"Muitos brasileiros se integraram à sociedade americana em Cape Cod.
Eles de fato gostam da região. Quando você vive aqui por pelo menos quatro ou cinco anos, tem uma maior integração com a comunidade. Mas o problema da carteira de motorista é um empecilho para muitos."

Martins, pai de dois filhos, cujo visto de trabalho havia aparentemente expirado, foi morto por um único tiro no coração e em pulmões depois de fugir de um oficial de polícia de Yarmouth numa velocidade que as testemunhas disseram estar entre os 130 e 140 quilômetros por hora.

Connie Souza, advogada da organização beneficente Catholic Charities em Hyannis, disse que as pessoas da comunidade brasileira acreditam que Martins tentou fugir da polícia porque estava com medo de ser deportado. "Acho que a comunidade está apenas esperando para saber mais sobre o que aconteceu", disse ela, sentada em seu escritório. "Não acho que o policial o matou porque ele era um imigrante. Acho simplesmente que houve um erro."

Na terça-feira, o cônsul-geral do Brasil em Boston, Mario Saade, falou aos ouvintes da WSRO (650-AM), uma rádio brasileira em Framingham, que eles precisam ficar calmos e obedecer às leis básicas de trânsito.

"Ele disse para a comunidade ficar calma, que não há motivo para ter medo", diz Fernando Igreja, cônsul-geral. "Eles precisam parar quando a polícia pede."

O pai de Martins, Luiz Carlos de Castro Martins, também falou na estação de rádio, condenando o assassinato do filho. Numa entrevista por telefone desde o Brasil, Martins disse que planeja viajar para Boston essa semana para levar o corpo do filho para o Brasil para o enterro. "É muito difícil para mim nesse momento", disse. Eloise De Vylder

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