Um novo sotaque está se enraizando nos enclaves chineses

Maria Sacchetti

O menininho respondeu a pergunta da professora em cantonês perfeito, o que até recentemente lhe renderia elogios na Escola Chinesa Kwong Kow, na Chinatown de Boston.

Mas a professora balançou a cabeça.

"Não", disse Catherine Lui, espiando o menino por sobre seus óculos enquanto ele olhava para ela da carteira da frente. "Você tem que usar mandarim."

Diga olá - ou melhor, ni hao - para o mandarim, a língua que se expande mais rapidamente em Chinatown. A língua oficial da China está tomando conta dos enclaves de língua cantonesa por todos os Estados Unidos, em consequência do aumento da imigração da China e do esforço dos pais para ensinar aos filhos a língua de um dos países mais poderosos do mundo.

A crescente força global da China, que já inspira os pais suburbanos de várias origens a matricular seus filhos nos cursos de mandarim, está pairando fortemente sobre a minúscula Chinatown, onde 9 mil pessoas se espremem em um bairro movimentado de lojas, prédios de tijolos e ruas estreitas e sinuosas. O mandarim é ouvido por toda parte, nas estações de metrô, sob os secadores de cabelo nos salões de beleza, e na Escola Kwong Kow de 93 anos.

Mesmo antigos ativistas estão tentando aprender um pouco de mandarim para poderem ajudar os recém-chegados.

"Os chineses estão aprendendo chinês, esta é a diferença", disse Gilbert Ho, presidente da Associação Beneficente Consolidada Chinesa da Nova Inglaterra, que fala cantonês, mas está aprendendo mandarim para atender mais clientes. "É hora de uma atualização."

A mudança gradual para o mandarim está criando uma discreta preocupação em Chinatown, onde o dialeto cantonês ainda predomina. A língua escrita é a mesma, mas as pronúncias são muito diferentes. Algumas pessoas temem o enfraquecimento da capacidade das crianças de se comunicarem com seus avós em casa.

Outros dizem que isto está revivendo velhas tensões de diferenças de classes. Por décadas, os operários de língua cantonesa que seguiram os parentes do sul da China para Boston, para trabalhar nas fábricas, lavanderias e restaurantes, tendiam a ter menor escolaridade e serem mais pobres do que os outros imigrantes chineses que se estabeleceram mais recentemente nos subúrbios, onde o mandarim é comumente falado.

"Há um pouco de ressentimento em relação ao mandarim se tornar mais importante -'Oh, aqueles que falam mandarim têm mais dinheiro, aqueles que falam mandarim têm educação, agora aqueles que falam mandarim também estão tomando conta de nossa escola'", disse Peter Kiang, diretor do Programa de Estudos Ásio-Americanos da Universidade de Massachusetts, em Boston, citando as preocupações que ouviu na comunidade.

Ainda assim, disse Kiang, ele apóia o ensino do mandarim e a maioria dos chineses está adotando a mudança.

"Todo mundo percebe que o mandarim é a língua do século 21", ele disse.

A crescente abertura de Chinatown para o mandarim é a mais recente de uma série de mudanças culturais no bairro, considerado como um centro cultural para os imigrantes chineses de todo Estado. Ele foi fundado nos anos 1870, principalmente por imigrantes que falavam o dialeto taishanês, que predominava nos arredores de Taishan, uma cidade na província costeira de Guangdog. As pessoas de língua cantonesa começaram a dominar o bairro após as reformas da imigração dos anos 60 suspenderem as restrições à imigração.

A influência do mandarim em Chinatown se intensificou nos últimos cinco anos, transformando escolas de língua, empresas e organizações sem fins lucrativos.

Aqueles que falam mandarim agora correspondem a um terço dos alunos de pré-escola e da primeira séria da Josiah Quincy Elementary School, em comparação a quase nenhum há cinco anos. Na Associação Cívica Ásio-Americana, em frente à estátua do Buda na Tyler Street, 23% dos matriculados nas aulas de inglês e outros serviços no ano passado falavam mandarim, em comparação a 17% cinco anos antes.

Na Escola Chinesa Kwong Kow, 53% dos alunos estão aprendendo mandarim desde que o curso teve início há quatro anos.

"Os pais queriam que seus filhos aprendessem mandariam", disse a presidente Helen Chin Schlichte, que aprendeu taishanês na escola nos anos 40, um curso que a escola não mais oferece. "Veja o que estão ensinando nas escolas públicas. É mandarim, não cantonês."

Em uma classe certo dia, a maioria dos estudantes de língua cantonesa disse que o mandarim pode ser difícil. A língua escrita é a mesma, mas a pronúncia é diferente. "Olá" em cantonês soa como lei ho, mas em mandarim é ni hao.

A princípio os estudantes fracassaram quando a professora, Lui, pediu que recitassem palavras como inteligente, jogo e cisterna que estavam no quadro-negro.

Na terceira tentativa, as vozes dos estudantes estavam melhores.

"Bom!" disse Lui em inglês, fazendo um sinal de positivo.

Terry Yang, um aluno de 12 anos que veio para os Estados Unidos em 2003, disse que o mandarim era difícil.

"Eu não consigo pronunciar corretamente", ele disse.

Mas sua mãe insistiu que aprendesse, para seu futuro.

"Quando eu crescer, eu quero abrir uma empresa que terá contatos na China", disse Yang.

Empresários dizem que o mandarim também é importante para o futuro de Chinatown, para atrair os sino-americanos dos subúrbios, onde o mandarim é popular.

Em parte por causa da valorização dos imóveis, a proporção de asiáticos em Chinatown caiu de 71% da população em 1990 para 57% em 2000, segundo um relatório do Instituto para Estudos Ásio-Americanos da Universidade de Massachusetts, em Boston. Mas em todo o Estado, o número de sino-americanos está crescendo, principalmente em Waltham, Quincy, Malden e Newton.

Aproximadamente 111 mil sino-americanos vivem em Massachusetts, mais que o dobro do que em 1990.

Na Oxford Street em Chinatown, Yvonne Zhang, uma proprietária do salão de beleza Fay Young, disse que teve o cuidado de passar do cantonês para o mandarim para atrair novas clientes. Agora, talvez metade de sua clientela, grande parte dos subúrbios, fala mandarim.

Edward Chen, que fala mandarim, disse que Chinatown agora está mais receptiva àqueles que falam a língua. Anos atrás, disse Chen, que é co-proprietário do Gourmet Dumpling House na Beach Street, ele seria esnobado no supermercado em Chinatown caso não falasse cantonês.

"Anos atrás eu me sentia um forasteiro", ele disse. "Agora, eles me aceitam. A China se tornou muito poderosa. Agora eles recebem estas pessoas da China. Elas vêm aqui para gastar dinheiro."

Enquanto falava, o telefone tocou. Um gerente de língua mandarim de um importante banco local estava ligando para saber como vão seus negócios.

"Está vendo?" ele disse, desligando o telefone. "As coisas mudam."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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