Crise econômica faz imigrantes adiarem o sonho americano

Maria Sacchetti

Em um apartamento em Cambridge, no Estado de Massachusetts, Amar Sharma está prestes a receber um título de mestrado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma façanha que ele esperava que lhe garantisse um bom emprego nos Estados Unidos. Mas, se não encontrar um emprego logo, ele poderá acabar tendo que voltar à Índia.

A alguns quilômetros de distância, Bedardo Sola está devastado pela perda do seu emprego de faxineiro em um prédio da Universidade Harvard. A demissão ameaça dois lares: o da sua família aqui, e o da filha, em El Salvador, que ele sustenta.

O aumento do desemprego está castigando famílias em todos os Estados Unidos, e tem um impacto especial sobre os imigrantes e os seus parentes que moram a milhares de quilômetros de distância. Além dos seus meios de subsistência, os trabalhadores nascidos no estrangeiro poderão perder os seus vistos de trabalho, e a esperança de ter um futuro nos Estados Unidos. Até mesmo cidadãos norte-americanos naturalizados estão sendo afetados porque perdem a fonte do dinheiro que enviam para os seus parentes nos países de origem.

Mas, à medida que o desemprego cresce, os atritos quanto à questão da imigração também aumentam. Por um lado, parlamentares e outros indivíduos pedem maiores restrições aos trabalhadores estrangeiros a fim de preservar os empregos dos norte-americanos. Por outro lado, os defensores dos imigrantes dizem que estes são cruciais para qualquer recuperação econômica. Em Massachusetts, os imigrantes representam 17% da força de trabalho, ou quase o dobro da proporção registrada em 1980.

Não existe nenhuma avaliação única para determinar como os imigrantes estão se saindo durante a recessão. A maioria deles encontra-se em um nicho demográfico vulnerável, concentrados nos patamares mais altos e mais baixos da economia, nas abaladas indústrias de construção civil e de hospitalidade, bem como nas de finanças e de alta tecnologia. Os que correm mais riscos são frequentemente os pobres, os com menor nível educacional e os que não são fluentes em inglês.

Os analistas dizem que vários sinais indicam um drástico desaquecimento em todo o país: a imigração ilegal não aumenta significativamente desde 2006; as transferências monetárias para a América Latina diminuíram no ano passado pela primeira vez em quase uma década; e o desemprego entre os imigrantes latinos aumentou no ano passado de 5% para 8%, segundo o Instituto de Políticas de Migração, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Centro Hispânico Pew, todos com sede em Washington, D.C.

"Os imigrantes estão enfrentando os mesmos problemas que nós, e em muitos casos estão se saindo pior, especialmente aqueles que trabalham na economia clandestina", afirma George Noel, diretor do Departamento de Trabalho de Massachusetts, que está realizando uma pesquisa junto à força de trabalho de baixa remuneração no Estado.

Já na outra extremidade do espectro econômico, o Congresso acaba de proibir as companhias que recebem dinheiro dos pacotes federais de ajuda financeira de substituir funcionários norte-americanos despedidos por trabalhadores estrangeiros qualificados, os chamados H-1B, devido ao nome do programa dos seus vistos de imigração. O programa emite 85 mil vistos por ano, a partir de 1º de abril, mas recentemente passou a ser criticado, quando algumas companhias que cortaram empregos inscreveram-se para contratar trabalhadores estrangeiros.

Alguns indivíduos estão pedindo mais restrições federais à imigração de forma a preservar empregos no patamar mais baixo da economia. Segundo um estudo realizado no final do ano passado, os imigrantes que não possuem diploma de segundo grau apresentam índices de desemprego menores do que os indivíduos com qualificação equivalente nascidos nos Estados Unidos, especialmente os negros e os latinos. Desses imigrantes, 11% encontravam-se desempregados, comparados a 25% dos negros e 16% dos latinos nascidos nos Estados Unidos.

"Não devemos cogitar qualquer aumento do nível de imigração", diz Steven Camarota, diretor de pesquisas do Centro de Estudos de Imigração, em Washington, que realizou o estudo. "Não faz sentido continuar acrescentando gente a uma população que está sendo massacrada pela crise".

Mesmo assim, os analistas dizem que, até o momento, o debate público parece se concentrar nos escândalos corporativos e no uso de dinheiro federal para pacotes de socorro a empresas, e não nos imigrantes.

"O grande alvo é aquilo que está acontecendo em Wall Street e no setor bancário", diz Demetrios G. Papademetriou, presidente do Instituto de Políticas de Migração. "Até o momento, o foco se concentra na ganância desse pessoal".

Em Massachusetts, sindicatos, advogados de imigração e ativistas estão se mobilizando para defender os direitos dos trabalhadores, realizando manifestações, e até mesmo orientando os trabalhadores a procurar aconselhamento profissional para que lidem com a depressão e o estresse. Alguns trabalhadores, como os de visto H-1B, correm o risco de ter que deixar o país caso percam o emprego. Outros têm permissão para ficar, mas ainda assim podem estar sob pressão intensa para enviar dinheiro para casa. Os imigrantes ilegais - cerca de um em cada cinco imigrantes em Massachusetts - estão enfrentando críticas por ocuparem empregos no país.

Na semana passada, em um escritório local do Sindicato Internacional de Serviços aos Funcionários (SEIU), Sola segurava a cabeça com as mãos após ter sido demitido do seu emprego como faxineiro em um dormitório da Universidade Harvard. Sola, que está aqui legalmente, diz que envia centenas de dólares por mês para a filha de dez anos que sofre de uma desordem de imunidade.

"Não vim para este país para ser dependente", afirmou Sola, 42. "Quero trabalhar".

Os trabalhadores sindicalizados estão lutando contra as demissões, afirmando que elas têm ocorrido sem que haja respeito ao tempo de empresa dos funcionários. E eles estão criticando a Universidade Harvard por ter implementado medidas de redução de custos que provocaram a demissão de trabalhadores que fazem alguns dos serviços mais duros.

Kevin Galvin, um porta-voz da universidade, diz que a instituição está enfrentando "desafios fiscais sem precedentes" e que está promovendo cortes em diversas áreas, incluindo a imposição de um congelamento salarial aos professores e funcionários não sindicalizados. Galvin explica que quem está fazendo as demissões é uma empresa terceirizada, e não a Universidade Harvard. A empresa não respondeu às solicitações para que tecesse comentários sobre o assunto.

Enquanto isso, profissionais como Sharma vasculham centros de empregos, procuram fazer contatos em reuniões e coquetéis, e apelam para os diretórios estudantis em busca de ajuda.

Sharma está prestes a obter o seu mestrado em engenharia e gerenciamento pelo MIT, após ter trabalhado vários anos para a IBM no Estado de Kansas e na sua nativa Índia. Aos 30 anos de idade, ele ajuda a mãe, que é funcionária pública na Índia, e um irmão mais novo.

Mas desde janeiro ele não consegue fazer uma entrevista de contratação. Ele deseja ser estrategista de tecnologia da informação, mas se não obtiver trabalho nos próximos meses, provavelmente terá que encarar um emprego de remuneração mais baixa na Índia para poder pagar as dívidas que contraiu para estudar, no valor de US$ 80 mil.

"Nunca pensei que as coisas fossem ficar tão ruins assim", disse ele. "Achei que, assim que terminasse o curso, tudo ficaria bem".

Laila Shabir, uma estudante de graduação do MIT de 22 anos de idade, que veio dos Emirados Árabes Unidos, diz que a recessão está tão intensa que ela decidiu adiar a graduação para continuar procurando emprego.

"Vim para o MIT, estudei economia e tenho um ótimo currículo", diz Shabir, que é filha de um encanador e de uma dona de casa. "Por que é que estou tendo tanta dificuldade para encontrar um emprego?".

Outros estão preocupados com a possibilidade de a onda de hostilidade contra os trabalhadores estrangeiros atrapalhar a recuperação econômica dos Estados Unidos. Um ano atrás, a província canadense de Alberta lançou um programa para atrair trabalhadores que estão nos Estados Unidos com vistos H-1B.

Desde abril do ano passado, mais de 2.000 candidatos se inscreveram, incluindo 65 de Massachusetts, atraídos pelo sistema de imigração mais fácil e os "espaços abertos" e o "céu azul" dos quais Alberta se gaba (a propaganda não menciona as temperaturas bem abaixo de zero). Até o momento, mais de 300 foram escolhidos para trabalhar no Canadá.

"Se os trabalhadores H-1B foram qualificados, nós gostaremos de tê-los aqui", diz Rhonda From, diretora do programa em Alberta. "A nossa intenção não é roubá-los dos Estados Unidos".

George Bruno, advogado de imigração no Estado de New Hampshire, acusa: "Esse programa está drenando o nosso poder cerebral".

"Em algum momento a nossa economia vai voltar a crescer", diz ele. "E, quando isso ocorrer, quem estará em uma posição melhor, o Canadá ou os Estados Unidos?"

Tradução: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos