Arquivo do FBI sobre o senador Kennedy era tanto político quanto pessoal

Farah Stockman

Em Washington

  • Olivia Nisbet/AP - 18.set.2003

    Senador Edward Kennedy fala com jornalistas em foto de 2003

    Senador Edward Kennedy fala com jornalistas em foto de 2003

No papel, eram amigos. Quando o jovem Edward M. Kennedy estava se recuperando de um acidente de avião, em 1964, ele manteve uma correspondência afetuosa com J. Edgar Hoover, diretor do FBI por longo tempo que tinha sido amigo do pai de Kennedy.

Anos depois, porém, quando Kennedy quis chamar Hoover para testemunhar no comitê do Senado, Hoover escreveu um memorando secreto dizendo que não se podia confiar em Kennedy.

O arquivo do FBI sobre Kennedy, divulgado nesta segunda (14), pinta um retrato vívido do relacionamento próximo, mas muitas vezes adversativo que a família Kennedy mantinha com a agência. Acusado de proteger os Kennedy, o FBI também guardava arquivos meticulosos sobre suas atividades políticas e suas vidas pessoais.

"Era um relacionamento complicado", disse Burton Hersh, autor de "Bobby J. Edgar: The Historic Face-Off Between the Kennedys and J. Edgar Hoover That Transformed America" (Bobby J. Edgar: o histórico duelo entre os Kennedy e J. Edgar Hoover que transformou os EUA, em tradução livre). 

Os documentos mostram que Hoover frequentemente interagia com Edward Kennedy como amigo distante de família, enviando notas pessoais e artigos que pudessem ser de interesse. 

E os agentes de Hoover combateram as ameaças de morte a Kennedy em torno do mundo. Especialmente após os assassinatos de John F. e Robert F. Kennedy, Hoover pareceu assumir pessoalmente o papel de proteger o último irmão. 

Ao mesmo tempo, porém, o FBI fez grande esforço para manter informações sobre Edward Kennedy, especialmente quando sua estrela política subiu. A agência coletou milhares de páginas de dados pessoais e políticos que não tinham aparente propósito de segurança nacional. 

"Era isso que Hoover fazia. Apesar de não constituir abuso de poder, ia além da missão do FBI... nem sempre sabemos o que fizeram com as informações", disse Athan Theoharis, professor emérito de história da Universidade Marquette que publicou extensivamente sobre Hoover e o FBI. 

Hoover, que foi diretor do FBI por 48 anos, travou uma amizade com Joseph Kennedy, o patriarca da família, nos anos 30, quando ambos estavam em ascensão no governo Roosevelt. Nos anos 40, Hoover colocou um agente em tempo integral protegendo os Kennedy, disse Hersh. 

Os documentos abertos, porém, sugerem que algumas das proteções que o FBI ofereceu eram políticas. 

Uma das primeiras menções a Edward Kennedy nos registros do FBI envolve um telefonema de 1954 de Joseph Kennedy para um alto funcionário do FBI reclamando que o jornalista Drew Pearson pretendia escrever um artigo afirmando que Edward Kennedy tinha sido barrado da escola militar de Maryland por causa de um "relatório do FBI negativo que o ligava a um grupo de 'vermelhos'". 

As autoridades do FBI garantiram que não havia tal relatório. Os arquivos não indicam se a história foi publicada. 

Em 1961, uma fonte de Portugal disse aos agentes do FBI que Kennedy pretendia entrar para a política e tinha contratado um "extremista" português - cujo nome foi retirado dos arquivos - para conquistar votos portugueses em Massachusetts. O FBI ficou preocupado porque o português não era um agente estrangeiro registrado no governo americano. Autoridades do FBI informaram o fato a Robert Kennedy - então advogado geral da União - e o agente foi registrado. 

Em janeiro de 1961, quando JFK estava assumindo a presidência, um informante confidencial cujo nome foi omitido disse ao FBI que Joseph Kennedy tinha "expressado interesse em colocar Teddy como advogado distrital assistente no condado de Suffolk... (o informante) concluía que o presidente estava usando isso para inserir Teddy na política", afirma o arquivo. 

Um mês depois, Edward Kennedy foi empossado como advogado distrital assistente. 

Em julho do mesmo ano, Kennedy fez uma visita à América Latina, e o FBI escreveu um relatório sobre suas reuniões em viagem. 

"Kennedy reuniu-se com uma série de indivíduos conhecidos por serem simpatizantes do comunismo", afirma um relatório. 

O FBI estava tão interessado nos pensamentos do jovem Kennedy durante a viagem que xerocou seu diário de viagem, que ele deixara no avião, antes de devolvê-lo com uma nota cortês. 

Preocupações sobre as tendências políticas de Edward Kennedy não impediram Hoover de enviar um bilhete de simpatia em 1964, quando Edward Kennedy sobreviveu a um acidente de avião em Massachusetts e estava se recuperando no hospital. 

Edward Kennedy respondeu pedindo a Hoover que escrevesse um ensaio pessoal sobre seu pai, para uma coleção que pretendia publicar. 

Hoover eventualmente escreveu um ensaio chamado "Para sempre, nos atos, se não nas palavras" sobre sua afeição por Joseph Kennedy. No texto, Hoover escreveu que Joseph Kennedy insistiu que ele concorresse à presidência, como democrata ou republicano, garantindo "a maior contribuição de campanha que jamais teria de qualquer um e seus serviços pessoais como o maior trabalhador de campanha da história". Hoover preferiu não concorrer. 

Quando um informante do FBI disse à agência em 1970 que os Estudantes por uma Sociedade Democrática planejavam "embaraçar" o senador Kennedy durante um discurso na Universidade de Boston, o FBI informou a polícia de Boston que impediu a entrada do grupo estudantil. 

Na mesma época, contudo, o FBI estava preocupado com o próprio Kennedy e observou temores de um informante que o político pretendia trazer crianças vietnamitas queimadas para os EUA para mostrar o dano das bombas americanas. 

A carreira de Kennedy no Senado, todavia, era acompanhada tão de perto pelo diretor do FBI que Hoover pediu explicações quando um subalterno foi informado antes dele sobre a vitória de Kennedy em 1969 como líder democrata do Senado. 

Quando Kennedy disse aos repórteres que Hoover seria chamado para prestar depoimento no comitê sobre uma questão delicada, o diretor do FBI ficou furioso, pois tinha sido prometido que nunca seria chamado a testemunhar. 

"Isso mostra como Ted Kennedy é uma pessoa irresponsável", escreveu Hoover em 1967. 

Dois anos depois, contudo, a aparente afeição de Hoover pela família voltou quando Edward Kennedy enviou-lhe um telegrama informando da morte de Joseph Kennedy. 

"Minha mãe e eu queremos agradecer pelos laços calorosos que ele compartilhava com o senhor", escreveu Kennedy. 

Hoover respondeu: "Eu perdi um amigo querido, e meus pensamentos estão com vocês neste momento de luto".

Tradutor: Deborah Weinberg

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