Israelenses se preparam para retaliações do mundo árabe

Dan Chapman

Tel Aviv, Israel --­ Jacques Elkaim ouviu as sirenes de alerta e ficou sabendo pelo rádio que Israel estava sob ataque. Era janeiro de 1991 e os mísseis Scud iraquianos rasgaram o céu de inverno rumo a alvos desconhecidos.

Elkaim não ficou com medo. Seu bairro de classe média não tinha nenhuma importância militar. Muitos judeus iraquianos moravam nas redondezas. Certamente, pensou Elkaim, Saddam Hussein não bombardearia seus compatriotas.

Ele se serviu uma dose de uísque, um hábito noturno que contraiu após anos como marinheiro mercante. Ele estava calmo, até mesmo depois de um míssil atingir uma série de casas a cerca 200 metros rua acima. Mas então as janelas explodiram. Os cacos de vidro cortaram vários cômodos da pequena casa. A explosão arremessou um martelo pela janela da cozinha, que foi parar no armário.

"Foi muito perigoso", disse Elkaim. "Todas as casas da sua rua foram destruídas, exceto uma. Foi um milagre ninguém ter se ferido".

Uma década depois, com uma guerra pairando sobre o Oriente Médio, os israelenses estão tensos, furiosos e com medo. O Yom Kippur, o dia mais sagrado do ano para os judeus, começa ao pôr-do-sol de quarta-feira. Ele fornece uma oportunidade para os israelenses avaliarem o próximo, e certamente tumultuado, ano.

Durante o Yom Kippur, "Dia da Expiação" em hebreu, Israel pára. Transmissões de rádio e televisão são suspensas. O uso de jóias, couro e cosméticos é proibido, assim como tomar banho e fazer sexo.

Os judeus utilizam o tempo para uma introspecção, com as celebrações nas sinagogas se concentrando em orações de penitência. Também é um dia em que os destinos do novo ano são selados.

Os israelenses têm motivos para se preocuparem.

Eles esperam uma retaliação americana pelo massacre do World Trade Center. A maioria concorda com uma forte ação militar contra os terroristas que perpetraram o ataque, assim como contra outros que espalham o terror pelo mundo.

Mas a apreensão deles é ampliada pela incerteza, o fato de não saber quem mais será transformado em alvo além de Osama Bin Laden.

Iraque, Líbano e outros países árabes, inimigos de Israel, foram citados nas reportagens publicadas como possíveis alvos. Qualquer um deles pode considerar Israel como uma opção convidativa para retaliação.

E há os palestinos. A ocupação de Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza tem gerado ataques quase que diários.

Desde a Intifada contra Israel há um ano, morreram mais de 570 palestinos que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, e cerca de 175 israelenses.

Um estado de guerra já existe em Israel que, em um desdobramento sentimental e irônico, não mede esforços para preparar os israelenses, tanto mentalmente quanto na prática, para a possibilidade de uma guerra contra um inimigo desconhecido.

"Nós não estamos com medo, mas estamos muito perto do Irã e do Iraque", disse Joseph Weltman, que aguardava na fila para recarregar sua máscara contra gás em um shopping center. "Se houver operações americanas contra o Iraque, então é possível que Saddam Hussein dispare mísseis contra nós ­armas bioquímicas e biológicas".

Mas as Nações Unidas não sabem ao certo se o Iraque dispõe de tal capacidade.

Os israelenses dão continuidade a suas vidas com uma determinação silenciosa. Mas praticamente todos estão mais cautelosos atualmente.

Uma mãe em Mevasseret disse não deixar seus filhos irem a pé desacompanhados no trajeto de algumas quadras entre a casa deles e a escola. Os compradores em Jerusalém não ficam mais parados diante das vitrines das lojas após terminarem o que vieram fazer no mercado.

No Rimon Cafe & Restaurant, no popular distrito comercial Ben Yehuda em Jerusalém, os clientes encontraram um acréscimo de 25 centavos em suas contas. Ele serve para pagar pelos recém-contratados guardas de segurança que ficam na porta e checam todas as sacolas e bolsas.

Em todas as ocasiões, os israelenses estão respondendo à série de ataques palestinos deste último ano, particularmente os de homens-bomba suicidas, nos quais jovens palestinos detonam explosivos amarrados ao redor do abdômen.

A polícia de Jerusalém recebeu ordem de não usar sirenes a menos que seja absolutamente necessário, para não alarmar inutilmente uma população já tensa. As autoridades municipais de Ramat Gan, a comunidade de Tel Aviv de Jacques Elkaim, se recusam a comentar sobre preparativos para uma possível guerra mais ampla visando não causar pânico entre os moradores.

Apesar de o governo israelense ter pregado calma e insistido na semana passada de que há máscaras contra gás suficientes para todos, foi noticiado em jornais israelenses que há uma escassez de meio milhão de máscaras. Na segunda-feira, um número recorde de 36 mil israelenses lotaram os centros de distribuição de máscaras contra gás. O Ministério da Saúde também admitiu não ter antibióticos suficientes para tratar as vítimas de eventuais armas biológicas.

"É assustador", disse Tina Cansino, que sobreviveu aos ataques de mísseis Scud contra Tel Aviv de uma década atrás. "Nós não temos escolha a não ser estarmos preparados. Eles derrubaram prédios e mataram milhares de pessoas, não foi o que aqueles loucos fizeram?"

Cansino, que imigrou do Reino Unido há 15 anos, agora vive em Jerusalém. Ela esperou duas horas nesta semana para conseguir que sua máscara contra gás fosse "recarregada" no shopping Jerusalem Mall.

A multidão lotou o piso inferior e mais dois lances de escada até o interior do shopping, com suas lojas Toys R Us, Burger King, Office Depot e outras típicas americanas.

Mães com bebês em carrinhos esperavam pacientemente ao lado de judeus septuagenários carregando caixas de papelão repletas de máscaras contra gás. Avisos em hebreu, árabe, russo e inglês informam os visitantes que as máscaras que eram de propriedade de pessoas falecidas devem ser devolvidas nas agências do correio.

Muitas das máscaras foram distribuídas antes da Guerra do Golfo de 1991, quando Saddam Hussein disparou 39 mísseis Scud contra Israel. Agora elas precisam ser checadas e ajustadas freqüentemente, especialmente para as crianças, que crescem e as máscaras contra gás ficam pequenas, assim como os calçados.

As máscaras são gratuitas para os cidadãos israelenses. (Estrangeiros pagam US$ 25, ou R$ 68) Elas vêm em vários tamanhos, incluindo um dispositivo parecido com uma tenda para bebês e outro para pessoas com problemas respiratórios. Cada kit também contém um filtro selado, um tubo para beber e uma seringa ­"os meios básicos de tratamento em caso de exposição a gás dos nervos", segundo as instruções.

"Haverá uma guerra, mas eu não sei de que tipo", disse Sigal Kalderon, que aguardava na fila com seu filho de nove meses, Roy. "Eu não acho que acontecerá algo a Jerusalém, mas eu prefiro me garantir".

No andar de cima, no Home Center, rolos de plástico utilizados para selar ambientes de gases venenosos vendiam rapidamente.

"Eu acabei de trazer mais do estoque", disse Whebe Aies, um funcionário da loja. "As pessoas estão com medo e em pânico. Elas dizem que querem estar preparadas para qualquer eventualidade".

Aies vendeu milhares de metros de plástico na manhã de domingo, dez vezes mais do que o habitual. Ele costuma vender 50 rolos de plástico vedante; ele já tinha vendido mais de 300 rolos naquela manhã.

O feriado de hoje não está ajudando. O estresse do feriado se deve ao ataque surpresa do Egito e da Síria contra Israel durante o Yom Kippur de 1973. Somando a Intifada e a guerra iminente dos Estados Unidos contra o terrorismo, isto é o suficiente para lançar alguns israelenses em colapso mental. Judith Yovel Recanati sabe como é.

Recanati dirige o Israel Trauma Center for Victims of Terror and War (centro de tratamento de traumas para vítimas do terror e de guerra), um grupo de aconselhamento e apoio sem fins lucrativos de Tel Aviv. Suas linhas telefônicas vivem congestionadas com chamadas frenéticas de israelenses paralisados pela indecisão e pelo medo.

"As pessoas ficam totalmente desassociadas e isto não é bom", disse Recanati. E com a idéia de que talvez haja outra guerra, aqui e em outras partes do mundo, isto faz as pessoas viverem em um estado de incerteza, um estado de perda de qualquer confiança".

Com o advento do Yom Kippur, Jacques Elkaim medita sobre o ano mortal que passou, e o ano certamente perigoso que virá.

"Eu rezo por paz e tranqüilidade", disse ele, um pouco triste. "Eu acredito que Deus está conosco agora".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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