Analistas não conseguem explicar psicologia dos terroristas

Bob Dart

Washington, EUA -- Analistas do islamismo fizeram uma avaliação póstuma da mente dos terroristas e se depararam com um enigma.

"Há algo aqui que está completamente além da experiência", diz Kevin Jaques, professor de estudos religiosos na Universidade de Indiana, em Bloomington.

Os jovens árabes que pilotaram os boeings seqüestrados, arremessando-os contra o World Trade Center e o Pentágono, e espatifando-se em uma área rural da Pensilvânia, no dia 11 de setembro, têm sido descritos como fundamentalistas islâmicos fanáticos. Com certeza os rapazes eram suficientemente devotos para executar uma operação horrenda, que eles sabiam que, caso fosse bem sucedida, implicaria em suas próprias mortes.

No entanto, alguns dos seqüestradores foram vistos bebendo vodka em bares, perambulando por uma livraria de produções eróticas e freqüentando um clube de strip-tease dias antes de cumprirem sua missão. Essas atividades dificilmente seriam tidas como apropriadas para muçulmanos ortodoxos, cuja pretensão seria a de alcançar o paraíso através do martírio.

Segundo os especialistas, as mentes dos terroristas são tão insondáveis quanto os caminhos que os levaram a sua missão final. Os seus antecedentes também diferem sensivelmente daqueles característicos de outros homens-bomba do Oriente Médio.

"A maior parte desses suicidas são jovens, pobres e sem escolaridade. Muitos, se não a maioria, são recrutados menos de duas semanas antes do ataque e passam por um condicionamento psicológico que serve para fazer com que eles se concentrem totalmente na missão", explica Jaques. "O que todos eles parecem ter em comum é a crença de que possuem um futuro sombrio pela frente e que têm poucas razões para viver".

Mas esse não era o caso dos 19 terroristas que executaram a mais mortífera operação suicida da história.

"Eles eram educados, tinham vidas prósperas, e vários talvez fossem casados, aparentando ter muitos motivos pelos quais viver. E pareciam também ter convivido com a certeza do suicídio por algum tempo; talvez até mesmo por anos", diz Jaques. "Isso foge completamente do paradigma com o qual trabalhamos quando lidamos com terroristas suicidas".

O entendimento das mentes dos terroristas mortos poderia ser vital para se encontrar os outros agentes que se acredita que estejam vivendo secretamente no país, a fim de impedir que ocorram outros ataques suicidas. Mas os especialistas em política, cultura e religião dos países islâmicos oferecem várias explicações para as contradições apresentadas por esses homens determinados, que se integraram a um país que detestavam.

O comportamento dos terroristas pode ser explicado pelas suas raízes religiosas, segundo Walid Phares, professor de Estudos sobre o Oriente Médio e de Conflitos Étnicos e Religiosos da Florida Atlantic University.

Como crentes no fundamentalismo radical islâmico, eles se alistaram em uma jihad, ou guerra santa,que , segundo o professor, nada mais é do que um choque de civilizações. A sua missão é promover um retorno à "forma pura de Estado islâmico" que existiu entre os séculos sete e 17.

Tais crentes dividem o mundo em duas zonas. Uma é a Dar el-Islam, controlada ou dominada pelos fundamentalistas islâmicos. Nessa zona, a paz deve prevalecer e os crentes "têm que ser puristas", conforme explica Phares. O restante do mundo seria a Dar el-Harb, que significa "zona de guerra".

"O que se aplica a Dar el-Islam, não se aplica à nossa região",diz Phares. O comportamento no Dar el-Harb pode variar segundo as circunstâncias.

"Se um indivíduo tem uma missão, ele tem que fazer tudo o que seja necessário para obter o sucesso", explica Phares. "Os terroristas que estavam em bares e em outros locais condenados pela religião islâmica não estavam necessariamente violando o seu código. Eles poderiam estar tentando se camuflar, de forma que ninguém suspeitasse do seu fanatismo".

Segundo Phares, existe uma palavra islâmica para isso - takya. "Isso é uma guerra", diz ele, e os guerreiros religiosos podem fazer tudo o que for necessário para alcançar a vitória.

Mas outros estudiosos afirmam que as psiques dos terroristas são mais complexas.

"As motivações políticas parecem ser mais dominantes do que as religiosas", diz Hal French, professor de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Sul, e autor do livro "A Study of Religious Fanaticism and Responses to It" (Um Estudo do Fanatismo Religioso e Respostas a Ele).

"Sempre achamos que os fundamentalistas de qualquer tradição religiosa vão levar vidas moralmente puras, e esses indivíduos aparentemente não se encaixam nesse padrão", diz ele. "Talvez neste caso o termo 'fanático' seja mais útil do que 'fundamentalista'. Eu creio que um fanático religioso é alguém para quem um adversário assume proporções obsessivas".

Segundo ele, a psicologia é pelo menos tão importante quanto a teologia para que se tente entender os terroristas.

"Quando o temperamento psicopata é combinado ao fanatismo religioso e ao nacionalismo militante, ou transnacionalismo, o resultado pode ser expressões virulentas, como a que presenciamos recentemente", diz ele.

Mahmood Monshipouri, natural do Irã e que leciona ciência política na Quinnipiac University, em Connecticut, também acredita que a política, mais do que a religião, possa ter influenciado os terroristas de classe média.

"É claro que é difícil definir as motivações de qualquer um que atue de maneira tão irracional", diz ele. "Mas embora tenham crescido relativamente sem dificuldades financeiras, os terroristas ainda nutriam um ressentimento profundo com relação ao envolvimento dos Estados Unidos no mundo", especula o acadêmico.

Segundo ele, nesse caso, a religião essencialmente se fundiu com a ideologia política.

"A motivação terrorista é mais social e política do que religiosa", concorda Akbar Ahmed, chefe da cadeira de Estudos Islâmicos da American University, em Washington, D.C., e autor do livro "Islam Today" (O Islã Hoje). "Matar pessoas inocentes, especialmente mulheres e crianças, mesmo na guerra, é expressamente proibido pelo Islã", afirma Ahmed, um ex-embaixador paquistanês para o Reino Unido. "O suicídio, assim como o consumo de álcool, também é proibido pelo código islâmico".

"São as condições política e sociais em suas terras natais, e não o Islã, que estão levando essa gente a cometer atos desesperados de terror", diz ele. "A fim de impedir a ocorrência de mais terrorismo, temos que identificar o que está causando agitação entre esses indivíduos e remover essas causas".

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos