China aproveita combate ao terrorismo para reprimir muçulmanos do país

Julie Chao

Hotan, China -- Este oásis no deserto poeirento abriga campos de algodão, antigas ruínas budistas, tapetes exóticos feitos à mão e vilas repletas de fazendeiros que ainda trazem os seus bens à cidade em carroças puxadas por burros.

Mas,segundo Pequim, o local pode ser também um abrigo de terroristas.

Hotan, próxima à fronteira da China com a Caxemira, está entre as mais conservadoras áreas islâmicas no irrequieto oeste chinês. A região provoca calafrios nas autoridades comunistas, que temem que a religião e o separatismo estejam convergindo para criar um violento movimento de independência, com apoio internacional.

A repressão governamental é uma constante na província de Xinjiang, no oeste chinês, que é predominantemente muçulmana. Mas, com a atual luta internacional contra o terrorismo, a China está solicitando ao mundo o apoio para combater os violentos defensores de um "Turquestão Oriental" independente.

"Acreditamos que a nossa luta contra os terroristas do Turquestão Oriental seja também uma parte do esforço internacional para combater o terrorismo", disse na semana passada Sun Yuxi, porta-voz do Ministério do Exterior. "Esperamos que os nossos esforços para combater as forças terroristas do Turquestão Oriental se tornem parte da mobilização internacional e consigam apoio e compreensão".

No entanto, os Uighurs muçulmanos, que respondem por mais de 85% da população de Hotan e que estão mais próximos étnica e linguisticamente dos habitantes da Ásia Central do que dos chineses, afirmam que o seu principal objetivo é a liberdade religiosa, e não a independência política.

"Se eles respeitarem os nossos hábitos religiosos, não haverá qualquer problema", diz um motorista de táxi Uighur.

A questão dos muçulmanos chineses representa um desafio diplomático para o governo dos Estados Unidos, que procura montar uma coalizão internacional na sua guerra contra o terrorismo. Onde terminam as ambições legítimas por liberdade de religião e por identidade nacional, e onde começa o terrorismo?

Washington vinha pressionando a China devido aos maus tratos do governo para com as minorias étnicas, especialmente no Tibet e em Xinjiang. Os governos ocidentais não se mostraram exatamente alarmados com as alegações da China de que há evidências que ligam os militantes Uighurs aos grupos terroristas internacionais.

A Anistia Internacional disse estar preocupada com a possibilidade de que Pequim possa estar utilizando os ataques de 11 de setembro "para justificar a dura repressão contra os grupos étnicos muçulmanos em Xianjiang, que os chineses acusam de "separatistas", "terroristas", ou "extremistas religiosos".

"As autoridades chinesas não fazem distinção entre 'terrorismo' e 'separatismo'", afirma a Anistia Internacional. "Na verdade, o separatismo abrange uma faixa mais ampla de atividades, a maioria das quais significa apenas oposição ou discordância pacífica"

Desde 11 de setembro, Pequim fechou as suas fronteiras com o Afeganistão e o Paquistão, e restringiu as viagens à China de indivíduos do Oriente Médio. Embora tenha apoiado a campanha de Washington contra o terrorismo, Sun afirma que não deve haver "duplo critério".

Em Hotan, os moradores têm estado ainda mais nervosos. Comboios de caminhões militares carregados com peças de artilharia passam periodicamente pelo centro da cidade. As fábricas, repartições públicas e outros locais de trabalho têm sediado reuniões onde se afirma que pessoas suspeitas devem ser denunciadas.

Os Uighurs entrevistados em Hotan se recusaram a dar os seus nomes.

"Por favor, não me façam mais nenhuma pergunta", diz um homem Uighur. "Tenho medo. Não quero ficar preso por dez anos. Já há centenas de pessoas na cadeia".

Um amplo movimento repressivo já está ocorrendo em Xinjiang, que tem uma população de mais de 15 milhões de habitantes. O Serviço de Notícias da China, controlado pelo Estado, anunciou na semana passada que a polícia de Urumqi, capital de Xinjiang, prendeu só este ano 210 pessoas acusadas de terrorismo, separatismo e extremismo religioso. Uma campanha contra o crime de âmbito nacional, realizada no início deste ano, será redirecionada em Xinjiang contra os "terroristas".

Xinjiang foi palco de incidentes violentos esporádicos nos últimos anos, incluindo atentados à bomba e assassinatos. Mesmo assim, o local está longe de ser perigoso, e o comércio de fronteira, os investimentos econômicos e o turismo na Estrada da Seda prosperam.

Hotan (também conhecida pelo seu nome chinês, Hetian), está localizada ao sul da Estrada da Seda, na extremidade do grande Deserto Taklamakan, e faz fronteira com o Tibet e com a disputada região de Caxemira. Mas, ao contrário de Kashgar e Urumqi, a cidade não se beneficiou com o comércio de fronteira com o Paquistão e com as repúblicas da Ásia Central, que faziam parte da União Soviética. A maior parte do interior ainda não possui energia elétrica.

Na China, a religião é controlada pelo governo. Os ímãs e clérigos muçulmanos necessitam de aprovação do Estado, assim como os lamas budistas e os padres católicos.

Xinjiang passou por um processo de revitalização islâmica nos últimos anos, estimulado em parte pelas reformas econômicas da China, segundo Jay Dautcher, especialista nos Uighurs e professor de antropologia da Universidade da Pensilvânia.

"Enquanto o restante da China falava em enriquecer, os Uighurs reclamavam de sua pobreza", afirma Dautcher. "Havia um consenso quanto ao fato que, como povo, eles não iriam alcançar o sucesso a menos que se guiassem mais pela ética. Houve um movimento amplo contra a ingestão de bebidas alcoólicas, que enaltecia o aperfeiçoamento moral. Essas idéias estavam realmente mobilizando os indivíduos".

Cerca de 70% dos Uighurs de Hotan rezam cinco vezes por dia, segundo os moradores. Alguns afirmam que só passaram a proceder dessa forma há uns poucos anos, na época em que o Wahabismo, uma escola ortodoxa muçulmana que favorece o estabelecimento da lei islâmica, começou a ganhar popularidade na região. Os Wahabis, fundadores do fundamentalismo islâmico sunita, são originários da Arábia Saudita.

Os Uighurs afirmam que certas manifestações de crença religiosa, tais como o uso de barbas pelos homens e a utilização dos véus pelas mulheres, são extremamente desencorajadas pelo governo. As mulheres são proibidas de usarem véus que cubram completamente o rosto.

"Não é oficialmente proibido. Vamos dizer que o Partido Comunista se sente melhor se não usarmos barba", explica um Uighur.

Tradução: Danilo Fonseca

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