EUA temem que Bin Laden desapareça e se torne um mártir

Moni Basu

Atlanta, EUA -- Segundo advertem os especialistas, Osama bin Laden pode optar pelo final mais dramático possível. Ele pode simplesmente desaparecer da face da Terra, sem deixar nenhum vestígio.

Caçado pelos Estados Unidos e pelos seus aliados da Aliança do Norte no seu reduto no Afeganistão, que diminui de tamanho a cada dia, Bin Laden parece estar com os dias contados. Mas, segundo os especialistas, mesmo depois de morto o terrorista mais procurado do mundo poderia encontrar uma forma de renascer como símbolo, fortalecendo a sua mística, de forma a preservar o movimento militante que lidera.

Igor Khripunov, um professor de ciência política da Universidade da Geórgia, diz que, caso a morte se torne inevitável, Bin Laden pode decidir desaparecer misteriosamente, como uma nuvem no ar. Isso o manteria vivo como o poderoso símbolo no qual ele se transformou no mundo do fanatismo islâmico.

"Caso ele morra, não creio que ninguém vá ver o seu corpo", diz Khripnov. "Um líder morto é um símbolo menos forte do que aquele que desaparece. Qualquer traço de morte física reduz o seu valor".

"A ausência de um corpo poderia até mesmo estimular o surgimento de mitos messiânicos sobre Bin Laden, um homem que se considera um mensageiro de Deus", diz Khripunov.

Por mais pervertida que a idéia possa soar no Ocidente, Bin Laden pode muito bem estar antevendo um futuro no qual os seus seguidores aguardarão a sua ressurreição, no estilo de um Jesus Cristo ou de um Mohammed-al-Mahdi.

Os xiitas afirmam que al-Mahdi, o 12º ímã, ou líder espiritual, se escondeu em uma caverna sob uma mesquita, e que a caverna está bloqueada por um portão. Xiitas fervorosos se reúnem em frente ao portão para orar pelo retorno do "ímã oculto". A sua ressurreição é um dos pontos centrais da crença da seita.

Segundo Khripunov, qualquer esperança similar com relação a um retorno de Bin Laden provavelmente aumentaria não só a sua estatura como um mito, mas também ajudaria a fortalecer a sua causa. Caso o seu corpo seja destruído, ou se nunca for encontrado, os seguidores de Bin Laden poderão nutrir uma esperança maior de que o seu mestre ainda esteja com eles.

Uma morte teatral não seria uma surpresa no mundo do terrorismo, no qual cada ato é cuidadosamente planejado e ensaiado, incluindo os ataques de 11 de setembro. "Foi um ato muito bem planejado que ninguém assumiu", diz Khripunov. "O episódio permanece sendo um mistério, uma dor de cabeça para os responsáveis pelas investigações".

A adição de um ar de mistério seria algo condizente com Bin Laden, devido à sua "mal contida vaidade masculina, ao seu apetite pelo drama pessoal e à sua paixão pela ribalta", escreveu recentemente o escritor John Le Carre em um artigo de opinião que foi publicado em vários jornais. "E há a possibilidade de que essa característica seja a sua danação, seduzindo-o rumo a um dramático ato final de auto-destruição, produzido, dirigido, escrito e interpretado na morte pelo próprio Bin Laden".

Mas a morte como propaganda não é um fenômeno novo. "A relação entre os líderes martirizados e o poder político é muito estreita", afirma Gary Laderman, que dá aulas que tratam da religião e morte na Emory University.

"A morte de um líder reafirma o senso grupal de perseguição e a necessidade de se comprometer ainda mais com os ideais, valores e políticas do grupo", diz ele. "Os laços que unem essas pessoas são ainda mais reforçados".

Ao morrer, o revolucionário latino-americano Ernesto "Che" Guevara se tornou uma das figuras mais romantizadas do século. Adolf Hitler, que morreu dramaticamente com um tiro, invocou a figura do imperador Frederico I, chamado de Barba Ruiva. Um herói nacional alemão do século 12, ele se afogou em um rio durante a terceira cruzada à Terra Santa, mas, segundo a lenda, ele nunca morreu, tendo ficado adormecido ao lado de uma grande mesa nas montanhas Kyffhauser. Os alemães diziam que, quando a sua barba crescesse o suficiente para dar uma volta em torno da mesa, Barbarossa despertaria para conquistar os inimigos da Alemanha.

Nos Estados Unidos, Laderman cita Joseph Smith, fundador da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que foi assassinado por uma multidão em 1844. Sem um líder, a comunidade mórmon poderia ter entrado em colapso, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário.

"É difícil prever o que vai acontecer nesse caso", afirma Laderman. "Mas quando um líder morre, isso não representa o fim. A morte de Bin Laden não seria o fim do fundamentalismo muçulmano ou do movimento liderado por ele".

Tradução: Danilo Fonseca

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