Posse de arma de fogo é obrigatória em pequena cidade dos EUA

RACHEL SAUER

COX NEWS SERVICE



GRAND JUNCTION, Colorado - Os moradores de Virgin, no Estado de Utah, já ouviram várias brincadeiras relativas ao pequeno tamanho da cidade. Coisas como, "Essa cidade é tão pequena que, se você piscar os olhos ao passar de carro por ela, vai perder a oportunidade de vê-la". Ou então, "Ela é apenas um grande cisco na estrada". Ou ainda, "Dá para jogar uma pedra de uma extremidade a outra da cidade".



Desde que foi fundada, em 1859, a população de Virgin nunca ultrapassou os 500 habitantes. Atualmente esse número anda em torno de 315 almas vivas. É o tipo de localidade geralmente descrita como boa para se criar os filhos. Um local amigável onde todo mundo se conhece. A cidade fica na entrada de um dos mais belos canyons da Terra, um milagre feito em rocha vermelha escavado pelo Virgin River, o rio que serpenteia ao longo da auto-estrada Utah Highway 9, rumo ao Parque Nacional Zion. Mas, provavelmente, não é o canyon que torna a cidade conhecida. Virgin é a cidade que possui a lei de obrigatoriedade do uso de armas. Para sermos mais específicos, em junho de 2000, o Conselho Municipal de Virgin passou a lei Nº 2000-06-15, um Decreto para Emergências Civis e Estabelecimento do Direito de Posse de Armas de Fogo. Um trecho do decreto estabelece o seguinte:



"A fim de prover recursos para o gerenciamento emergencial da cidade, e para garantir a defesa civil da Cidade de Virgin, e, além disso, para fornecer a proteção, a segurança e o bem-estar da cidade e dos seus habitantes, todos os moradores da cidade de Virgin são obrigados a possuir uma arma de fogo, bem como a munição necessária".



O decreto isenta da posse obrigatória de armas de fogo aqueles que possuam desordens físicas ou mentais incapacitantes, os que estejam proibidos pela justiça de possuírem armas de fogo, os que não possuem recursos para compra-las e os que simplesmente não desejem possuir armamentos. Uma lei similar foi baixada em Kennewsaw, na Geórgia, em 1982, e as autoridades municipais daquela localidade afirmam que, desde então, o número de roubos caiu em 89%.



Em setembro, o decreto de Virgin recebeu uma emenda, segundo a qual a expressão "arma de fogo" foi substituída por "arma", depois que o Tribunal Estadual de Utah informou ao Conselho Municipal da cidade que a lei estadual limita a autoridade das municipalidades em criarem a sua própria legislação de armas de fogo.



Virgin passou a ser o paradigma de cidade que possui uma lei dessa natureza. Antes dos atentados de 11 de setembro, vários órgãos da mídia colocavam Virgin na mesma categoria das milícias e dos Montana's Freemen - um grupo considerado como um bando de lunáticos armados. O decreto fez com que a cidade aparecesse em programas de notícias famosos, como o "Dateline NBC". Várias empresas de notícias de grande expressão no país apareceram na cidade, que ganhou atenção nacional depois que a Associação Nacional do Rifle e outros grupos que defendem a posse de armas passaram a elogiar a lei adotada em Virgin.



A cidade foi adotada como modelo pelos grupos que defendem a Segunda Emenda à Constituição Federal (segundo essa emenda controvertida, não pode ser infringido o direito da existência de "uma Milícia bem regulamentada... para a segurança de um Estado livre, nem tampouco o direito dos cidadãos em possuir e utilizar armas"). Por outro lado, Virgin é considerada como uma heresia pelos grupos favoráveis a legislações mais rígidas para restringir a posse de armas de fogo, o que, segundo esses grupos, reduziria o número de crimes.



Em uma entrevista de novembro de 2000, concedida ao jornal "Spectrum", de Saint George, em Utah, o prefeito Jay Lee disse: "Tendo em vista que o governador está tentando impor o controle de armas e fazer a "Passeata de Um Milhão de Mães", além de tentar remover os nossos direitos sacramentados na Segunda Emenda da Constituição Federal, queremos que todos saibam qual é a nossa posição em Virgin".



O xerife Kirk Smith, de Washington County, em Utah, admite que tem um problema com o decreto, e afirma que considera a lei como um papel inapropriado para ser assumido pelo governo.



Para alguns moradores de Virgin, o decreto reflete a maneira como a população se ressente da intromissão do governo em suas vidas. O morador Fred Johnson deu a seguinte declaração à revista "Christian Science Monitor": "O excesso de regulamentações federais faz com que nos sintamos como alguém que foi empurrado até ficar equilibrado apenas com os saltos das botas sobre o precipício do Grand Canyon. E não estamos dispostos a ceder novamente, dando outro passo para trás".



Desde os eventos de 11 de setembro, que geraram um aumento nas vendas de armas de fogo e fizeram com que aumentasse a preocupação da população para com as questões de defesa e segurança nacional e pessoal, as opiniões prevalecentes com relação a Virgin mudaram.



Porém, segundo os moradores, independente das atitudes populares, definir Virgin com base no decreto é uma atitude injusta.



"Fizemos uma porção de coisas boas na cidade", diz Lee. "Mas, toda vez que se toma iniciativa para o controle de armas de fogo, essa ação vira notícia de jornal em um instante".



Segundo os moradores, Virgin é apenas uma cidade comum, suficientemente pequena para que as pessoas saibam tudo sobre a vida dos vizinhos. Lee diz que cresceu na cidade e se lembra de que chamava a maior parte das mulheres de "tia". Segundo ele, caso se portasse mal, os moradores não hesitariam em aplicar-lhe uma surra e mandá-lo para casa.



A área era habitada pelos índios norte-americanos quando os colonos mórmons chegaram, em meados do século 19. Cerca de 75% dos atuais moradores são descendentes daqueles colonos. A cidade foi fundada em 1859. Naquele ano, cerca de 28 hectares foram cultivados e os colonos cortaram árvores nativas para fazer suas moradias.



Era um lugar difícil para se morar. O Virgin River é a única fonte de água e, portanto, as terras que não são banhadas pelo rio eram áridas. Os colonos lutaram para construir canais e reservatórios. Mas essas obras foram destroçadas - bem como as suas casas e as suas lavouras - quando o rio encheu e inundou tudo. A má sorte subseqüente com os reservatórios, incluindo um erro de cálculo que fez com que uma barragem fosse construída em uma área inclinada, deixou a cidade sem água por quase um ano.



No outono de 1863, um grupo de famílias mórmons recebeu a solicitação para se instalar na área de Virgin. O grupo deveria estabelecer uma lavoura de algodão em Virgin. Nas áreas mais próximas ao canyon e ao rio, os colonos puderam plantar e cultivar com sucesso árvores frutíferas e outras lavouras. No entanto, Virgin fica na ribanceira, em um plano elevado em relação ao rio, de forma que a obtenção de água era difícil.



Os colonos também entraram em atritos freqüentes com os índios da região. Em 1866 decidiu-se que a cidade deveria ser transformada em uma espécie de forte, a fim de se proteger dos índios. Virgin nunca foi atacada, mas os colonos viviam em um estado constante de medo.



Em março de 1874, Brigham Young, à época presidente da Igreja Mórmon, criou uma "ordem unida" em Virgin. Segundo tal sistema, todos as possessões e bens passavam a ser de propriedade coletiva. Embora os moradores tentassem arduamente viver de acordo com essa norma, a prática foi abandonada em novembro de 1875. Quando as obras de construção de canais de irrigação foram finalizadas nas cidades vizinhas de Hurricane e La Verkin, vários colonos deixaram Virgin, em busca de terras melhores.



Em 1907, descobriu-se petróleo próximo a Virgin, o que fez com que novos residentes viessem para a cidade. No entanto, eles não ficaram por muito tempo, e os poços de petróleo começaram a secar nos anos 60. Atualmente, a economia de Virgin se baseia no turismo.



A história da cidade criou uma fundação sobre a qual a cultura e a ideologia da população de Virgin está baseada. Esta nunca foi uma área onde a vida fosse fácil. Os moradores tiveram que arrancar seu sustento do solo árido de terra vermelha, e se mobilizar para que o deserto não tomasse conta de tudo. Eles sabem muito bem como a terra pode ser caprichosa.



Os colonos originais e os moradores que chegaram mais tarde se uniram naturalmente contra o deserto, contra as ameaças de ataques, contra o clima adverso e contra a privação e o medo constante de perderem a posse da terra. Eles se acostumaram a proteger aquilo que podiam cultivar e produzir nessa ribanceira árida localizada acima do rio.



Em Virgin, assim como em grande parte do Oeste norte-americano, as armas de fogo sempre foram ferramentas. Os moradores as utilizavam não só para caçar, de forma a complementar aquilo que produziam nas lavouras, mas os fazendeiros também precisavam das armas para matar os predadores que poderiam atacar o gado, os cavalos, ou mesmo as pessoas.



Várias cidadezinhas do Oeste reconheceriam a si próprias em Virgin. Os moradores de Virgin herdaram uma atitude de extrema independência e forte conservadorismo que se deve, em parte, ao fato de terem se estabelecido em uma área onde as pessoas tinham que fazer de tudo, por conta própria, a fim de garantir a sobrevivência. Eles não gostam de ouvir lições sobre o que devem fazer, vindas de pessoas que não sabem como é viver na região.



Como um exemplo, Lee cita o caso da tartaruga do deserto, um animal ameaçado de extinção. Descobriu-se que havia alguns espécimes vivendo próximos a Virgin. O Estado alocou cerca de 24.280 hectares em torno das vizinhas montanhas Pine Valley como um habitat para o animal "e lacrou um trecho de terras de forma que, atualmente, não há mais lugar para se construir, a não ser nas áreas de fazendas", diz Lee. "Isso fez com que o preço da moradia subisse, mas então o Estado se intrometeu de novo e disse que somos obrigados a fornecer casas a preços acessíveis".



Em maio de 1999, o Conselho Municipal de Virgin aprovou uma resolução segundo a qual as organizações conservacionistas Grand Canyon Trust, Southern Utah Wilderness Alliance e Utah Wilderness Coalition passaram a ter o status de "persona non grata" em Virgin. A resolução afirma que esses grupos atacam "a nossa cultura, os nossos meios de subsistência e o nosso estilo de vida". A vizinha La Verkin ficou famosa este ano por ter aprovado uma resolução que determina que a presença da Organização das Nações Unidas é indesejada na cidade.



O decreto sobre as armas foi fruto da noção de que as autoridades federais e estaduais estariam tentando criar imposições sobre a posse de armas, segundo Lee. De acordo com ele, o decreto é na verdade um mero "manifesto filosófico", já que permite que as pessoas que se opõe à utilização de armas não sejam obrigadas a possui-las. Ele fez uma analogia entre o episódio atual e a estória sobre "dar um peixe a um homem ou ensina-lo a pescar".



"Se você puder ensinar os cidadãos a se proteger, você os protege por toda a vida", diz ele. Larry Amodt, membro do comitê de planejamento e de zoneamento de Virgin, diz que os moradores da cidade simplesmente amam a Deus e ao seu país, e querem proteger aquilo que possuem. Segundo Amodt, as armas de fogo fazem parte da cultura de Virgin.



Além disso, mais de um milhão de pessoas visitam o Parque Nacional Zion a cada ano, a maioria dos quais passa por Virgin. Segundo Lee, o decreto ajuda os moradores a se sentirem seguros e protegidos em meio ao fluxo de forasteiros que passa incessantemente pela cidade. Ele diz que, independentemente do decreto, a maior parte dos moradores possui armas.



Mas nem todos os moradores de Virgin apóiam a medida. O membro do conselho municipal Ken Cornelius Jr., que mora em Virgin desde que nasceu, foi o voto dissidente quando o decreto foi aprovado. Ele acha que a lei gerou uma atenção negativa para a cidade. Além do mais, ele diz que trata-se de uma legislação "cujo cumprimento é impossível de ser imposto".



"Eu acredito nas armas na medida em que você as use para esporte, caça, ou outras atividades do gênero, e eu próprio tenho armas de fogo para essas finalidades. Mas se alguém mantém uma arma trancada em um armário e a munição em outro local, de forma que, quando alguém invadir a sua casa, o proprietário tenha a chave do armário, mas a munição esteja inacessível, quando ele finalmente conseguir finalizar todos os procedimentos necessários à sua defesa, não terá mais tempo para nada. Nesse caso, o fato de se ter ou não uma arma deixa de ter importância. Portanto, não creio que se trate tanto de uma questão de segurança. Trata-se de um grupo de pessoas que decidiu impor uma declaração sobre a comunidade".



Ele diz estar preocupado com a possibilidade de as pessoas acharem que Virgin seja habitada por um bando de fanáticos por armas e que o decreto atraia os verdadeiros fanáticos para a cidade. Segundo ele, as energias do conselho municipal teriam sido utilizadas de maneira mais eficiente caso se tentasse trazer empresas e atrair outras atrações para Virgin. As autoridades municipais esperam construir um centro científico em uma ribanceira ao norte da cidade e Lee sonha em criar um parque industrial em Virgin.



"Temos que oferecer algo agora às nossas crianças, de forma que elas não sejam obrigadas a se tornar caubóis ou coisa parecida quando crescerem", diz Amodt.



Com a existência de apenas uns poucos e pequenos estabelecimentos comerciais na cidade, Virgin se tornou basicamente um vilarejo-dormitório para as vizinhas Hurricane e Saint George. No entanto, iniciativas novas, como os loteamentos de Desert Garden, no setor Oeste da cidade, estão prosperando, e os líderes municipais desejam que haja uma fundação econômica para os novos moradores dessas áreas. De acordo com Lee, a idéia não é lutar contra o crescimento, mas transformar Virgin em um local onde as pessoas gostem de viver, e não simplesmente de dormir.



O crescimento causou uma certa mudança nas características da comunidade, mas, segundo Cornelius, Virgin ainda é um local onde os vizinhos ajudam uns aos outros e onde as pessoas têm um senso de orgulho cívico. Um parque municipal foi inaugurado recentemente, tendo sido construído com trabalho voluntário, doação de material e equipamento. Além disso, o gerenciamento barato, feito pela própria cidade, possibilitou a reconstrução de uma ponte, a contratação de um funcionário municipal com jornada de trabalho de tempo integral e a compra de equipamentos, tais como uma retroescavadeira, um caminhão de entulho e um trator, utilizados na conservação das estradas. Um novo contrato com a empresa de distribuição de água do condado, a Washington County Water Conservancy, possibilitou a instalação de cerca de mil novos pontos interligados à rede de água tratada em Virgin.



De acordo com Lee, o decreto sobre as armas de fogo é apenas um entre vários fatos que estão se desenrolando em Virgin. No entanto, a cidade é conhecida além das suas fronteiras apenas pelo decreto. Cornelius afirma que alguns residentes acham que a lei é boa, acreditando que ela vá impedir a ocorrência de crimes. Mas outras pessoas acham que a medida só vai vender a imagem de que toda a cidade não passa de um aglomerado de extremistas.



"Na verdade, Virgin é apenas um bom local para criar os nossos filhos. E nada alterou essa realidade", diz Cornelius.



Tradução: Danilo Fonseca Legislação

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