Aumenta a divisão entre judeus e árabes israelenses

Robert W. Gee

HAIFA, Israel - O prédio de apartamentos de concreto cinza, na rua Allenby, une dois mundos. Ao norte, moram os árabes; ao sul, os judeus.

Os apartamentos sem nome, localizados no centro da maior cidade portuária de Israel, servem de lar para ambos os grupos, em uma experiência rara e acidental de coexistência.

A experiência não vai muito bem.

Judeus e árabes vivem lado a lado. Em alguns casos, dividem um estreito corredor. A extensão de sua interação, entretanto, raramente ultrapassa um cumprimento educado ao cruzarem-se nas escadas.

Judeus disseram suspeitar dos árabes e vice-versa. Com poucas exceções, nenhum dos lados cruzou a divisão política e cultural profundamente arraigada, para aproximar-se de seus vizinhos. Muitos nunca nem pensaram em convidar o outro para entrar em sua casa.

"Sentimos o ódio... o ódio vindo de dentro", disse Ramzi Hanani, 55, árabe que mora no terceiro andar com sua esposa e duas filhas.

"Acho que, no fundo, eles nos odeiam, mesmo se não o demonstram", disse Hertzl Davidovich, 52, judeu que mora um andar abaixo. Davidovich reclamou que mais famílias árabes estavam ocupando os apartamentos, na medida em que os locatários judeus saíam ou morriam.

O que espanta nos apartamentos da rua Allenby é que os dois grupos estejam morando tão próximos. De acordo com pesquisa nacional divulgada no início do mês pela Universidade de Haifa, cerca de dois terços dos árabes e judeus dizem que preferem viver em bairros com seu próprio povo. Mais da metade de ambos os grupos disseram que nunca haviam visitado a casa do outro.

O estudo ilustra as divisões na sociedade israelense entre judeus e a minoria árabe -revelação nada surpreendente. Revela também, no entanto, a ampliação do fosso entre os dois grupos, mesmo em Haifa, uma cidade em grande parte secular, que há muito se vangloria de sua coexistência pacífica.

Segundo os pesquisadores universitários, mais de 15 meses de conflito israelense palestino são culpados pela deterioração das relações entre judeus e árabes morando em Israel - um tipo diferente de casualidade do que as 1.000 vidas perdidas na luta.

"É uma sociedade muito segregada. Árabes não convivem com judeus, não se sociabilizam com judeus", disse Ami Pedahzur, que é judeu e um dos três autores do estudo. "Ao mesmo tempo, não há desejo de aproximação".

Entre os judeus, disse: "existe uma forte tendência para atitudes racistas, xenófobas e de exclusão".

Antes do início do levante palestino, há aproximadamente 15 meses, judeus e árabes, cuja maioria é muçulmana, tinham vidas separadas, mas cruzavam caminhos confortavelmente no comércio, no lazer e no trabalho. Desde setembro de 2000, entretanto, a maior parte da convivência terminou.

Árabes israelenses, que são 19% da população, ou 1,2 milhões de habitantes, dizem que se identificam com a causa palestina. Alguns se consideram palestinos, além de israelenses. A maioria, porém, distanciou-se das lutas e dizem que não justificam os ataques suicidas.

Existem casos, no entanto, de árabes israelenses envolvendo-se na luta. Em um caso famoso, ocorrido em setembro, um homem-bomba árabe, de uma vila ao norte de Haifa, matou três judeus israelenses em uma estação de trem. Um motorista de táxi árabe israelense foi preso em conexão com o bombardeio suicida palestino, no início do mês, que matou 15 israelenses em um ônibus urbano de Haifa.

Manchete recente de jornal local anunciava: "Hamas está aqui", referindo-se ao grupo militante palestino que patrocinou diversos ataques recentes contra israelenses.

"Os judeus perderam a confiança nos árabes. É uma espécie de sentimento de traição", disse Pedahzur. "A sensação é que esse vizinho, no qual confiei durante anos, agora está ajudando os terroristas a me atacarem e a explodirem o ônibus."

Em Haifa, árabes eram a metade da população quando Israel foi fundado em 1948. Hoje, são apenas 40.000 dos 270.000 habitantes. Mesmo assim, ainda há médicos, advogados e funcionários públicos árabes proeminentes.

Nos últimos meses, no entanto, as relações pioraram, disseram os residentes. O contato é limitado, em grande parte, a poucos bairros misturados, onde árabes e judeus convivem não por escolha, mas porque freqüentemente não têm dinheiro para se mudar, ou são velhos e frágeis demais para sair.

"Não acho que seja um modelo de coexistência", disse Pedahzur sobre Haifa. "Adoramos comida árabe. Adoramos ir aos mercados árabes. Mas isso não tem relação alguma com laços sociais, e esse é o problema."

Nas entradas encardidas dos apartamentos da rua Allenby, alguns residentes, judeus e árabes, recusaram-se a discutir o assunto tabu. Nas ruas do bairro misturado, muitos comerciantes árabes que contam com clientes judeus, insistiram em dizer que não havia tensão alguma.

A portas fechadas, entretanto, os residentes revelam desconfiança e ressentimento em relação ao outro grupo. Alguns também desejaram os laços mais agradáveis do passado.

"Nossos filhos brincavam com as outras crianças, mas cada ano piora", disse Nawal Hanani, 46, mulher árabe que mora no terceiro andar.

Sua filha de 18 anos, Violeta, fez amizade com uma menina judia, em um projeto de convívio patrocinado pelas escolas. (Árabes e judeus freqüentam escolas separadas em Israel). A amizade e o programa, no entanto, terminaram subitamente dois anos atrás, depois que dois professores responsáveis tiveram uma briga sobre se os palestinos haviam sido expulsos de Israel em 1948 ou se saíram voluntariamente - um debate que é central na divisão entre judeus e árabes. Historiadores concluíram que a verdade fica em algum ponto entre os dois extremos.

O pai de Violeta, Ramzi, trabalha com judeus como operário temporário em uma refinaria de petróleo local. Ele disse que tentou durante anos um emprego permanente na refinaria e não teve sucesso, reclamação comum entre os árabes de Haifa.

Ramzi diz ter amigos judeus. Entretanto, em 14 anos morando no apartamento, nunca os convidou em casa.

"O problema é o outro lado, eles têm sua opinião e não querem mudá-la", disse. "Talvez achem que temos direitos iguais, mas não temos".

De acordo com um estudo da Universidade de Haifa, que entrevistou 1.008 cidadãos israelenses - 706 judeus e 302 árabes - com idade acima de 18, quase 75% dos judeus disseram que achavam as reclamações árabes de discriminação injustificadas. Metade dos judeus entrevistados disseram que os árabes eram tratados bem demais pelo governo israelense.

"O que mais me incomoda" disse Davidovich, judeu que mora no segundo andar do prédio, "é que eles não servem o exército, mas, mesmo assim, têm direitos iguais e não ligam para o que acontece ao país".

Davidovich, guarda de segurança de uma escola que diz ter servido muitos anos no exército, nunca convidou um árabe à sua casa, nos 15 anos que ele e sua esposa, Carmela, moraram aqui.

"Fazemos muito esforço para ser simpáticos", disse. Depois, admitiu, "Basicamente, não temos nenhuma conexão com eles. Normalmente é só shalom, shalom, ou bom dia, mas só. (...) Não, não há convivência. Se eu comprar falafel do outro lado, isso significa convivência? Acho que não".

Alguns no prédio, entretanto, disseram que os dois lados podem compartilhar suas vidas e às vezes o fazem.

Lorenza Sahawani, 70, mora sozinha no apartamento que vive há 40 anos. Ela disse sentir falta de sua amiga e vizinha, mulher judia de férias em Paris.

"Árabes e judeus, é tudo igual para mim" disse. "Vamos aos casamentos deles, eles vêm nos nossos. Em Haifa, nos damos bem."

Também o dono de restaurante Ahmed Ganam, 38, parece passear sem problemas entre os dois mundos. Ele vende comida árabe na rua Allenby e mora em um bairro arborizado, em monte Carmel, onde é o único árabe. Ele fala hebraico sem sotaque e poderia se passar por judeu nas ruas, não fosse por seu nome - e o fato de considerar-se "primeiro palestino, depois israelense".

Ganam conta que tem muitos amigos judeus. Mesmo assim, diz: "Depois de um ataque suicida" - em dezembro, foram dois em Haifa -, "sinto que tenho que me desculpar e dizer que não fui eu".

Ele culpou os políticos de ambos os lados por tentarem "lucrar às custas dos cidadãos".

"Sou muçulmano, minha esposa é cristã e estudei em escola judia, e é assim que acho que deveria ser para todos", disse.

O problema é que muito poucos em Haifa, ou em qualquer parte de Israel, concordariam.

Tradução: Deborah Weinberg

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