Ismail Khan, o homem que impõe ordem no oeste do Afeganistão

Margaret Coker

HERAT, Afeganistão - Aos olhos de muita gente, Ismail Khan, o comandante militar que se tornou governador, é uma lenda viva. Diz a história que, quando era um jovem oficial, ele teria liderado o seu batalhão em uma revolta contra as forças de ocupação do Exército Vermelho, em 1979, desencadeando com isso o bem sucedido movimento de resistência que, dez anos mais tarde, expulsaria os soviéticos do Afeganistão. Mas a verdade é menos gloriosa. Os soldados soviéticos sufocaram a rebelião e mataram 20 mil civis nesta cidade no oeste do Afeganistão, enquanto Khan se refugiava no Irã.

O que não é objeto de dúvida é o fato de que Khan, de 56 anos, é um sobrevivente por excelência. E em uma terra marcada pela guerra, e cheia de políticos espertos e militares ardilosos, ser um sobrevivente não é pouca coisa.

O comandante militar de voz suave e barba branca assumiu o controle da grande parte do oeste do Afeganistão depois que o Taleban foi retirado do poder em dezembro.

Khan forneceu aos moradores da região um bem que é mais cobiçado do que todos os outros no Afeganistão de hoje: a estabilidade.

Apesar das alegações de que possui ligações militares com o Irã, e da sua reputação de ser brutal para com os seus oponentes políticos, Khan recebeu elogios de Hamid Karzai, o líder interino do Afeganistão. Na quarta-feira, Karzai oficializou o cargo de Khan, nomeando-o governador de Herat, a segunda maior cidade do Afeganistão e a mais antiga do país.

"Ismail Khan é um bom amigo. Um homem corajoso", disse Karzai, que fez em Herat a sua primeira visita no Afeganistão, além da capital, desde que assumiu o seu posto, em dezembro do ano passado.

Karzai não tinha opção, a não ser nomear o homem que já estava em controle de Herat. Mas esse endosso parece ter deixado de lado -pelo menos por agora- a preocupação com o relacionamento estreito de Khan com o Irã. O compromisso de Khan para com a paz duradoura no Afeganistão foi questionado por indícios, citados pelo governo Bush, de que o Irã teria fornecido armas novas e treinamento militar aos soldados de Khan, desde que a milícia do Taleban foi deposta no final do ano passado. A tensão que era presente várias semanas atrás entre os soldados de Khan, de etnia Tajiq, e os membros da etnia Pashtun, de Candahar, fez com que aumentasse a preocupação quanto à possibilidade de uma guerra civil, antes que as conversações entre as duas partes aplacasse o rancor.

"Ele é um homem que, tenho confiança, não vai criar problemas. Ele vai trabalhar para o bem do país", disse Karzai, referindo-se a Khan.

Realmente, quando comparada com outras cidades do Afeganistão, Herat transmite uma sensação de paz e ordem.

Os negócios estão em ascensão nesta cidade, a cerca de 50 quilômetros do Irã, e o exército particular de Khan mantém as ruas limpas. Os funcionários públicos estão sendo pagos em dia. As salas de aula estão cheias de meninas -algo que era proibido durante o ex-governo Taleban- graças, em parte, às várias visitas de Khan às escolas, a fim de promover a educação para as mulheres.

"É importante educar as nossas crianças e resgatar o alto nível cultural que tornava essa cidade famosa", disse Khan, recentemente, em uma entrevista em sua pomposa sala de convidados. "Sou um homem do povo, e, sendo assim, vou auxiliar o povo".

Khan controlou Herat durante dois anos antes de o Taleban tomar o poder, em 1996, mas ele raramente fala sobre o seu passado. Ele prefere dizer aos convidados estrangeiros que a sua história pessoal não é importante. Na verdade, as suas aventuras militares poderiam preencher capítulos de livros, tanto como exemplos de vitórias empolgantes quanto de derrotas estrondosas.

Após ter fugido do Afeganistão e do exército soviético, em março de 1979, Khan montou uma força de insurgência com base no Irã -e apoiada pelo regime de Teerã- que lutou ao lado de outros exércitos rebeldes afegãos.

Anos de ataques de artilharia e minas terrestres haviam reduzido Herat a um esqueleto quando Khan finalmente voltou a governar a cidade, em 1993. Segundo depoimentos dos moradores, durante dois anos, enquanto os comandantes rivais guerreavam uns contra os outros pelo controle do país, Herat vivia uma relativa calma, graças à liderança de Khan.

Quando o Taleban emergiu como uma potencial força política e militar, em 1995, Khan procurou auxílio de outros comandantes afegãos e, novamente, do Irã. No entanto, ele se recusou a unir as suas forças com aquelas de outro líder rebelde afegão, o falecido comandante da Aliança do Norte, Ahmed Shah Massoud, que mais tarde afirmaria que parte da culpa pela ascensão ao poder do Taleban cabia aquilo que ele chamava de "táticas militares ineptas de Khan".

Após ter perdido Herat para o Taleban, Khan foi capturado pela rigorosa milícia fundamentalista em 1997 e aprisionado em Candahar.

Três anos depois, ele realizou uma fuga ousada, com a ajuda de um guarda da prisão, fazendo com que um bando de soldados do Taleban o perseguisse em uma caçada noturna, iluminada pela lua, pelos desertos do sul do Afeganistão. Durante a fuga, Khan pisou em uma mina, ferindo gravemente a perna. Mas mesmo assim ele conseguiu escapulir pela fronteira iraniana -um feito que os seus assessores e amigos sempre fazem questão de citar quando descrevem os talentos do seu líder.

"Ismail Khan é um grande estrategista militar. Ele foi ferido gravemente três ou quatro vezes, mas ainda assim escapou em várias ocasiões, sem a ajuda de ninguém", afirma Ghazi Ghulum Faruk, que lutou ao lado de Khan por 19 anos, administrando hoje um departamento de assistência social para os veteranos de guerra deficientes e as suas famílias.

Porém, os moradores comuns de Herat, quando são convidados a manifestar a sua opinião sobre Khan, não são tão efusivos. Muita gente nas ruas se recusa a falar sobre o governador com um jornalista estrangeiro. Outros dão sorrisos maliciosos, olhando por sobre os ombros para os soldados posicionados a cada cinco metros ao longo da principal avenida, respondendo, finalmente, que Khan "é uma pessoa grandiosa e devotada".

No entanto, ao falarem reservadamente, vários moradores afirmam que o governador conseguiu estabelecer essa aparência de estabilidade na província graças ao uso de táticas repressivas para calar os dissidentes políticos, além de ter oferecido postos militares influentes para dobrar comandantes rivais e consolidar o seu controle sobre a região.

"O governo de Ismail Khan é um bom governo para Ismail Khan e os seus soldados, e para mais ninguém", acusa Wasseil, um comerciante local de 49 anos.

Em um incidente freqüentemente mencionado, um grupo de anciãos se reuniu no final de novembro na mesquita central da cidade para discutir se o rei afegão deposto, Mohammed Zaher Shah, deveria retornar ao Afeganistão e assumir um posto no governo.

Quando os organizadores começaram a discursar para uma multidão estimada em cinco mil pessoas, a polícia invadiu a mesquita, disparando tiros para o ar para dispersar os participantes. Segundo o líder da reunião, Abdul Boruz, oito homens foram presos.

Os detidos foram levados para a Base Militar nº 5, em Herat, onde os soldados e o próprio governador os teriam espancado e chutado, segundo Boruz, que atualmente vive na capital afegã, Cabul. Essa denúncia também é feita por um outro organizador da reunião, que continua em Herat, e que pediu que o seu nome não fosse revelado, por temer represálias.

"Ismail Khan nos humilhou, e não parava de me perguntar porque tínhamos realizado a reunião, e porque o estávamos provocando. Ele me espancou com uma ripa, Perdi a consciência por um certo período. Quando acordei, eles me jogaram na prisão", conta Boruz, de 65 anos, que disse ter ficado preso por 11 dias.

Ao ser perguntado sobre o incidente, Khan disse que a polícia colocou um fim à reunião porque ela ameaçava a segurança. Ele negou que qualquer pessoa tenha sido presa.

"A segurança é a nossa maior prioridade, assim como para o governo central", disse o governador. "Os afegãos estão cansados da guerra. Eles querem paz e ordem".

Tradução: Danilo Fonseca

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