A segunda frente: no Iêmen, tribos rivais e um presidente astuto

Larry Kaplow

SANAA, Iêmen - Até os anos 1960, os enormes portões de ferro desta cidade murada eram fechados toda noite, um testamento da bem fundada suspeita de estranhos deste país tribal.

Britânicos, egípcios, sauditas e russos estiveram aqui, lançando suas intrigas ao longo de 40 anos, alimentando guerras e revoltas em um país árabe estrategicamente situado na entrada do Mar Vermelho.

Não é de estranhar que, quando uma multidão se formou ao redor de um estrangeiro na semana passada nos portões da cidade, um homem gritou uma pergunta sobre a possível chegada de tropas americanas: "Elas estão vindo para proteger o Iêmen ou para o Iêmen protegê-las?"

As autoridades americanas dizem que um pouco de cada coisa. Elas afirmam que menos de cem soldados virão treinar as forças de segurança iemenitas sobre como rastrear os agentes da Al Qaeda, que podem estar usando o país como refúgio ou para o planejamento de ataques. Isto ajudará na guerra dos Estados Unidos contra o terror e fornecerá estabilidade para um país que conhece pouco disto, dizem elas.

Mas o sucesso dependerá da obtenção da cooperação entre um arranjo complexo de tribos e alianças políticas em constante mudança.

Neste país de cerca de 18 milhões de pessoas, muitos ainda se identificam mais com suas heranças tribais do que com o governo volátil.

O atual regime promete lutar lado a lado com os Estados Unidos contra a Al Qaeda. Mas o governo também alistou e recompensou árabes treinados no Afeganistão para vencer a guerra civil em 1994. Ele ficou ao lado do Iraque na Guerra do Golfo de 1991.

Em novembro, o presidente iemenita Ali Abdullah Saleh se encontrou na Casa Branca com o presidente Bush, que ficou contente com a disposição do Iêmen de cooperar na guerra contra o terror. As autoridades americanas ficaram encorajadas com a ajuda do Iêmen na investigação do ataque ao USS Cole em 2000, ocorrido no porto iemenita de Aden - um ataque que acreditam ter sido executado pela rede de Bin Laden.

O Iêmen é um dos vários países nos quais a Al Qaeda opera, segundo as autoridades norte-americanas. Elas dizem que não há campos de treinamento ou centros de comando aqui, mas sim indivíduos com ligações com a Al Qaeda. Para encontrá-los será necessário um apoio popular que poderá ser difícil de obter. Apesar das manchetes da imprensa controlada pelo governo terem dito na semana passada que os "Americanos vêm para ajudar", a maioria da população deste país pobre e com pouca liberdade política desconfia dos motivos dos EUA.

Nos mercados onde homens compram sacos de folhas de qat, um estimulante que é mascado, Osama Bin Laden é mais popular do que os Estados Unidos.

"Ele é o maior dos muçulmanos", disse Mohammed Mohsin, um trabalhador de 24 anos. "Ele é o único que pode enfrentar a América e Israel".

Muitos são contra Bin Laden, mas mesmo assim dizem que os EUA estão enviando tropas apenas para obter o controle estratégico da navegação no Mar da Arábia do Iêmen, e para ampliar sua presença na região rica em petróleo.

Um dos maiores desafios será o plano americano de formar uma guarda costeira iemenita para patrulhar os 1.770 quilômetros de costas do país. O grande e desprotegido litoral é apenas um dos fatores que tornam o Iêmen vulnerável à rede Al Qaeda.

Como o Afeganistão, o Iêmen possui uma geografia difícil, que sempre desafiou um governo central. As autoridades do governo reconhecem que duas das 18 províncias do país estão fora do seu controle, outras dizem que há mais. Assim como o Afeganistão, o Iêmen é um país dominado pelo analfabetismo e pela pobreza, com uma renda anual per capita de US$ 368 (R$ 865), segundo as Nações Unidas. Os iemenitas dizem freqüentemente que o que mais precisam dos Estados Unidos são novas escolas e hospitais.

Combatentes usando turbantes, armados com rifles Kalashnikov, ainda guardam o perímetro de seus territórios tribais, e delegacias de polícia do governo são inexistentes em muitas áreas. Nestas áreas, os anciãos tribais resolvem disputas, exigindo que as partes envolvidas ofereçam rifles e cabeças de gado como sinais de boa vontade.

Na cidade portuária de Aden, os militantes da Al Qaeda atacaram o USS Cole, usando um pequeno bote cheio de explosivos para incapacitar um das embarcações mais avançadas da Marinha e matar 17 marinheiros.

Os consultores americanos esperados aqui virão em pequeno número e com forte segurança, reduzindo os riscos. O maior desafio será transformar as forças de segurança iemenitas em uma eficaz máquina de caça à Al Qaeda.

Em dezembro, os oficiais iemenitas acreditavam que dois suspeitos do ataque ao USS Cole estavam escondidos na província de Mareb. Ao tentar encontrá-los, ocorreu um confronto armado com os combatentes tribais, resultando na morte de 20 soldados do governo e de vários combatentes.

Observadores dizem que o sistema tribal ajuda os agentes da Al Qaeda, que se aproveitam dos códigos tribais de hospitalidade para obter ou comprar a proteção dos xeques tribais.

O governo lançou campanhas educativas para alertar os líderes tribais dos riscos representados por estes forasteiros - e às vezes iemenitas - ao Iêmen. Os xeques recentemente assinaram uma declaração dizendo que aqueles que protegerem pessoas que ameacem a segurança do país devem ser presos ou mortos.

Mas o presidente Saleh fortaleceu no passado os fundamentalistas islâmicos, visando combater os comunistas do sul, que se manteve como um país separado até 1990.

Combatentes árabes treinados no Afeganistão formaram o grupo de frente de seu esforço para esmagar a violenta revolta no sul em 1994. Alguns de seus aliados ideológicos iemenitas foram recompensados com cargos no governo que muitos ainda detêm.

Saleh assumiu o poder em 1978 e agora parece ansioso para recuperar as boas graças do Ocidente, assim como para receber ajudas econômica e militar que reforçarão sua posição no país.

"Em política externa, é claro, os Estados Unidos são muito importantes", disse o conselheiro presidencial, Abdel Hadi Hamdani. "Eu não acho que o propósito seja apoiar o regime. Esta seria uma meta indireta".

Mas o governo só possui um poder limitado sobre muitas tribos iemenitas, que ainda associam potências estrangeiras a perigo. Elas podem não se mostrar tão dispostas em ajudar os Estados Unidos quanto Saleh.
"Este é um fenômeno que sempre ocorre na região", disse o sociólogo iemenita Fuad Salah. "O governo quer algo, e a população, não".

Tradução: George El Khouri Andolfato Guerra ao terror

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