População de Gaza aguarda apreensiva a invasão israelense

Larry Koplow
Cox News Service
Em Gaza (Faixa de Gaza)

Na sexta-feira (10), as autoridades israelenses estariam reavaliando os seus planos para realizar uma grande ofensiva contra militantes palestinos da Faixa de Gaza. Enquanto isso, os moradores deste paupérrimo enclave na costa do Mediterrâneo se preparavam para o ataque, estocando alimentos e erguendo barricadas nas ruas.

Altos oficiais das forças armadas israelenses estariam irritados com vazamentos de informações sobre a planejada invasão. Além disso, circularam notícias de que há desavenças no exército quanto à ofensiva.

Mesmo assim, vários tanques continuam posicionados na fronteira com a Faixa de Gaza e reservistas estão passando por treinamento especial para a missão, o que indica que um ataque pode ser desencadeado em breve. A mobilização militar foi motivada por um ataque suicida a bomba, na noite da última terça-feira, que matou 15 israelenses nas proximidades de Tel Aviv.

Na cidade bíblica de Belém, tropas israelenses fiscalizaram a evacuação da antiga Igreja da Natividade, onde 36 militantes e vários civis e sacerdotes cristãos ficaram cercados pelo exército judeu durante 39 dias.

Após a evacuação da igreja, o exército começou a retirar as suas tropas da cidade palestina, que havia sido ocupada e mantida sob estado de sítio 24 horas por dia, interrompido apenas por umas poucas pausas. A retirada das tropas foi tida como fator essencial, para que haja qualquer esperança de um fim para o conflito, que dura 19 meses e que já causou a morte de 1.800 pessoas.

Na Cidade de Gaza, a tensão gerada por um possível ataque israelense foi quebrada quando a população nas ruas se agitou por volta do meio-dia, com a chegada de 26 exilados da igreja de Belém, enviados a Gaza segundo os termos de um acordo mediado pelos Estados Unidos. Outros 13 homens descritos por Israel como sendo ativistas mais atuantes foram deportados para Chipre, de onde, mais tarde, irão para o exílio em outros países.

A multidão e os motoristas aplaudiram, gritaram elogios e buzinaram, saudando os homens. Vários dos exilados nunca haviam estado antes na Faixa de Gaza e eles não têm idéia de quando poderão retornar às suas casas na Cisjordânia. Eles saltaram do ônibus que os transportou em uma pequena cidade às margens do Mar Mediterrâneo. Ao receberem um fuzil automático M-16, alguns deles dispararam tiros para o alto, fazendo o sinal da vitória e, a seguir, foram encaminhados para fazer exames médicos, tomar banho e descansar. Eles estão hospedados no Cliff Hotel, e vão fazer as refeições no Restaurante Barco do Amor, que pertence ao hotel.

Os militantes afirmaram que a sua decisão de aceitar o exílio foi a menos pior entre várias opções ruins, e acusaram as nações estrangeiras por não tê-los ajudado.

"Se tivéssemos permanecido na igreja, os israelenses nos teriam matado", afirma Mazen Taher Hussein, um policial palestino da divisão anti-drogas, que está visitando pela primeira vez a depauperada Faixa de Gaza.

Ele se refugiou na igreja após ter lutado contra as tropas invasoras israelenses no início de abril.

"Para onde mais poderíamos ter ido?", diz ele. "Se não tivéssemos nos abrigado na Igreja da Natividade teríamos sido massacrados".

Os exilados disseram que soldados israelenses ameaçaram prendê-los em Gaza, e isso parece ser uma possibilidade real.

A comemoração nas ruas se constituiu em uma distração temporária para os palestinos, que esperam a qualquer momento um ataque israelense. Essa antecipação tem feito com que os habitantes de Gaza façam estoques de comida e gasolina, além de se entrincheirar em barricadas feitas de terra e sacos de areia.

Durante três dias a região aguarda a resposta de Israel ao ataque suicida contra um clube de bilhar lotado, próximo a Tel Aviv. O grupo fundamentalista islâmico Hamas assumiu a responsabilidade pelo atentado. O ataque do homem-bomba fez com que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, abreviasse a sua visita a Washington e ameaçasse responder com uma dura ação militar.

Em abril, tropas israelenses ocuparam a maioria das grandes cidades da Cisjordânia, após uma onda de atentados suicidas ter causado a morte de dezenas de israelenses. Atualmente, a cúpula da liderança do Hamas permanece na Faixa de Gaza e um ataque contra a região parece provável.

Na última quinta-feira, Israel passou a concentrar tropas na fronteira com a Faixa de Gaza, uma área de cerca de 20 quilômetros de extensão, isolada por uma cerca construída pelos israelenses. O exército judeu convocou reservistas, da mesma forma como procedeu antes da invasão maciça da Cisjordânia.

No entanto, a mídia israelense anunciou na sexta-feira que o ministro da Defesa, Binyamin Ben-Eliezer, ordenou aos seus generais que revissem os planos de batalha. O canal dois da televisão israelense anunciou que Ben-Eliezer estaria pensando em adiar ou em cancelar a ação. Não se sabe quando o exército pretendia originalmente desfechar o ataque ou se, mesmo com um adiamento, tal ofensiva estaria próxima de ocorrer.

Além das discordâncias que estariam dividindo a alta hierarquia do exército, o adiamento ocorre em um momento em que o presidente Bush expressa preocupação com a possibilidade de que uma ofensiva generalizada possa prejudicar as chances de que o conflito na região seja redirecionado para aquilo que Washington espera que seja um processo de paz.

E grupos internacionais e israelenses de defesa dos direitos humanos advertiram para o potencial de um grande número de mortes, caso as tropas israelenses avancem pela densamente povoada Faixa de Gaza, que é repleta de campos de refugiados. Faz semanas que os militantes da região preparam as suas defesas.

Durante a ofensiva contra a Cisjordânia, no mês passado, 29 soldados israelenses e cerca de 200 civis e militantes palestinos morreram. A batalha mais intensa ocorreu no campo de refugiados de Jenin, onde moravam aproximadamente 13 mil pessoas. Os campos de refugiados da Faixa de Gaza possuem quase 100 mil pessoas.

"Tenho certeza de que a população vai resistir até a morte. Aqui, as pessoas não têm nada a perder", diz o pedreiro palestino Salim Kamel, de 35 anos, que mora no Campo de Refugiados Jabalya. "Rogo a Deus que modifique o pensamento dos israelenses. A única solução possível é a política".

Enquanto Israel avaliava a possibilidade de responder ao ataque palestino da terça-feira, o espectro de novos ataques voltou a se fazer presente.

Na manhã da sexta-feira, um suspeito palestino teria detonado uma bomba perto de um banco, na cidade de Beer Sheba, no sul de Israel. Quatro pessoas foram levemente feridas.

Em outro incidente, a mídia israelense anunciou que a polícia prendeu quatro judeus que estariam planejando realizar um ataque a bomba contra palestinos no setor leste de Jerusalém. Dois dos homens teriam sido presos quando instalavam uma grande bomba nas proximidades de um hospital.

Tradução: Danilo Fonseca

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