Imigrantes afegãos nos EUA influem no futuro do seu país natal

Tasgola Karla Bruner
Cox News Service
Em Atlanta

Quando a loya jirga, a grande assembléia nacional, se reunir na semana que vem para delinear o futuro do Afeganistão, Abdul Majeed Hussain, de 15 anos, de Clarkston, Geórgia, vai acompanhar o evento com toda a atenção. Ele quer saber se o seu pai retornará para casa.

A loya jirga, que começa na segunda-feira, vai reunir mais de 1,5 mil delegados eleitos para escolher um chefe de Estado e de governo que liderará o país pelos próximos 18 meses. A assembléia pode decidir manter no poder Hamid Karzai, chefe do governo interino nos últimos seis meses, ou escolher um novo líder.

O pai de Abdul, Mangal Hussain, é ministro da irrigação no governo Karzai. A decisão da assembléia vai determinar se este pai de oito filhos vai retornar para a Geórgia ou continuar a trabalhar no governo afegão, visitando a família somente quando for possível. Abdul gostaria que o pai voltasse para casa, mas também quer que ele ajude o Afeganistão.

"Quero ajudar o meu país, porque lá não há paz", diz o garoto.

Outros afegãos nos Estados Unidos vão acompanhar com interesse o papel que os afegão-americanos desempenharão na assembléia. Os afegãos dos Estados Unidos receberam quatro assentos na loya jirga - um para cada região do país: nordeste, sudeste, noroeste e sudoeste. Segundo Bashir Zikria, de Nova Jersey, presidente temporário do Colégio Eleitoral dos Afegãos nos Estados Unidos e médico particular do ex-rei afegão, Mohammed Zaher Shah, os afegãos em território americano, cujo número está estimado entre 120 mil e 150 mil, estão divididos igualmente pelas regiões do país.

Zikria afirma que a primeira loya jirga do Afeganistão ocorreu no início do século 18 e baseava-se nas tradições das tribos do país. Ele compara a loya jirga aos conselhos dos índios norte-americanos.

Zikria deseja que os afegão-americanos tenham mais assentos no conselho, e outros afegãos que moram nos Estados Unidos acham que o processo de seleção de delegados poderia ser mais democrático e bem organizado. Alguns dos afegãos que vivem nos Estados Unidos acreditam que as eleições foram planejadas no sentido de escolher um grupo para fazer lobby junto ao governo norte-americano, e não para participar da loya jirga.

Atiq Panjshiri, engenheiro civil de Springfield, Virginia, vai representar a Geórgia, onde vivem cerca de 1,5 mil afegãos, bem como outros Estados sulistas.

Panjshiri foi eleito em fevereiro em um encontro de cerca de 1,2 mil afegãos em Washington. Ele diz que a eleição "não foi bem organizada e que gente de regiões distantes, como a Geórgia, não ficou sabendo sobre o pleito".

"Mas, trata-se de um primeiro passo. Esperamos que no futuro um número maior de pessoas vote", disse ele, antes de partir para Cabul.

Zikria disse que é importante lembrar que essa assembléia é uma "loya jirga de emergência". Ela foi convocada rapidamente após a guerra contra o terrorismo ter retirado o Taleban do poder, no ano passado. Segundo ele, uma loya jirga mais tradicional, "e, esperamos, mais democrática e mais divulgada", ocorrerá em 2004.

Espera-se que 160 assentos na loya jirga sejam destinados às mulheres. Mas Hogai Nassery, médica do Centro de Saúde DeKalb-Grady, que nasceu no Afeganistão, diz que está "muito preocupada com a ameaça representada pelo fundamentalismo".

"Estou feliz por termos nos livrado do Taleban, mas o Taleban só teve sucesso devido ao conservadorismo no Afeganistão. Não foi o grupo que o inventou", explica Nassery. "Vai ser necessária muita luta para que sejam garantidos os direitos das mulheres e outros direitos".

Mas os afegãos dos Estados Unidos poderiam fornecer uma nova perspectiva ao seu país natal, de acordo com Zack Poyan, diretor de relações públicas da Fundação da Comunidade Afegã, uma organização sem fins lucrativos com sede em Atlanta. "Com todo o respeito, o povo do Afeganistão nunca soube o que é ter liberdade", afirma Poyan. "Se não organizarmos o nosso povo, nunca poderemos reclamar disso. Esta é a oportunidade pela qual estamos esperando há 23 anos".


Tradução: Danilo Fonseca

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