Karzai é apoiado na Loya Jirga e agora tentará governar o Afeganistão

Larry Kaplow
Cox News Service
Em Cabul (Afeganistão)

Em uma pequena loja no vasto complexo residencial de Marorayan, a locação de fitas de filmes indianos e norte-americanos - James Bond e Jean-Claude Van Damme estão entre os favoritos - diminuiu 50%.

Ao invés de filmes, os afegãos estão ligados nas transmissões de rádio e televisão da reunião do conselho nacional, que está criando o novo governo. Até mesmo o gerente da vídeo locadora, Mohammed Rami Furmuli, de 18 anos, acompanha o evento quando chega em casa. Ele afirma que o que está em jogo é o futuro do país.

A reunião deve ser encerrada no domingo, e a esperança e as expectativas são grandes. Um presidente popular foi eleito. Os expectadores observam nervosamente a discussão dos delegados, a maioria líderes militares que destruíram grande parte das cidades do país devido às suas violentas rivalidades.

O conselho nacional, ou Loya Jirga, não é uma verdadeira democracia popular - a maior parte das decisões é orquestrada pelos poderes estabelecidos, os líderes das facções étnicas do Afeganistão em parceria com os Estados Unidos e outras potências estrangeiras. Talvez este país devastado ainda não seja suficientemente funcional para experimentar a verdadeira representatividade política.

Mas o conselho está definindo vencedores e perdedores e, talvez, intensificando um progressivo dilema para as autoridades dos Estados Unidos que lutam contra os grupos extremistas.

Até o momento, o maior ganhador é Hamid Karzai, que foi eleito por uma esmagadora maioria dos delegados na última quinta-feira. Ele passou da condição de "líder" a "presidente" e controla o chamado "governo de transição" durante os próximos 18 meses, até que haja eleições.

Os comandantes militares podem acabar sendo os grandes perdedores.

Karzai estava no Afeganistão seis meses atrás, quando líderes de facções e diplomatas estrangeiros se reuniram em Bonn, na Alemanha, para criar um governo de curto prazo capaz de preencher o vazio deixado pelo Taleban. Eles escolheram Karzai para liderar o novo governo, em uma espécie de frágil compromisso entre os grupos políticos e étnicos rivais. Na ocasião, também foi escolhido o gabinete de Karzai.

Agora, Karzai pode formar o seu próprio ministério, embora as suas escolhas fiquem em grande parte determinadas por muitas das mesmas preocupações faccionárias. E o mais importante é que ele agora possui uma aura pública de legitimidade.

"Este fato certamente fortalece Karzai", disse na última sexta-feira Zalmay Khalilzad, enviado dos Estados Unidos ao Afeganistão. "Ele agora é legítimo pela vontade do povo afegão. Ou seja, a sua posição política é bem mais forte do que antes".

Karzai deu entrevistas a jornalistas na sexta-feira e repetiu os principais desafios que o seu governo terá que enfrentar: lutar contra o terror e garantir a segurança dos afegãos. Isso inclui a formação de um exército nacional.

Karzai disse que vai buscar "intensamente" a ajuda financeira internacional e pedir aos países ricos que honrem a promessa feita na conferência internacional de Tóquio, em janeiro passado, de fornecer US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 12,2 bilhões) ao Afeganistão. Autoridades da Organização das Nações Unidas (ONU) dizem que, até agora, já foram pagos US$ 1,2 bilhão (aproximadamente R$ 3,2 bilhões) da primeira parcela anual prometida, de US$ 1,8 bilhão (algo como R$ 4,9 bilhões).

Ele deseja auxílio econômico para a sua primeira prioridade de reconstrução: a recuperação das estradas afegãs. Muitas estradas entre as principais cidades estão arruinadas, a ponto de carros e ônibus demorarem várias horas para cobrir distâncias de 30 a 50 quilômetros.

Aqui, as estradas são uma questão de urgência política. O governo central é incapaz de estender o seu controle até as províncias mais distantes, a menos que seja capaz de chegar até elas. É nessas províncias que reinam os comandantes tribais e foram nelas que grandes campos de treinamento da Al Qaeda foram montados durante o governo do Taleban.

Os comandantes militares parecem estar entre os maiores perdedores na Loya Jirga.

Na verdade, o efeito da decisão do conselho não será imediato. Todos os principais líderes militares, incluindo alguns que dominam regiões inteiras, parecem agora estar satisfeitos com a abordagem de Karzai, que optou pela não confrontação. Vários deles apoiaram Karzai para a presidência e alguns já possuem posições oficiais no governo.

Mas a Loya Jirga os tratou de uma forma que provavelmente foi uma experiência sem precedentes para homens acostumados a se fazer respeitar pelo medo. Vários oradores atacaram os comandantes tribais por terem destruído cidades, usado o nome do Islã em vão e enchido os bolsos com o dinheiro que pertencia ao povo.

E tudo isso foi transmitido pela televisão e visto pela população.

"Noventa por cento da população quer que esses homens sejam desarmados", disse Mohammed Jan Sharazad, de 50 anos, um soldador que mora em Cabul e que acompanhou atentamente as discussões do conselho. "Não há nada com o que se surpreender. Foi isso o que o povo quis e agora ele conta com a liberdade para dize-lo em voz alta".

Apesar de tal liberdade significar uma possível contenção do poder dos comandantes tribais, ela pode ao mesmo tempo tornar complicado o papel dos Estados Unidos no país.

A administração Bush apóia firmemente Karzai e ambos os líderes afirmam querer um Afeganistão forte para impedir que o país se torne um paraíso para terroristas.

Tropas norte-americanas estão auxiliando a construir o exército nacional e diplomatas encorajam a formação de um governo central.

Mas, ao mesmo tempo, as forças armadas dos Estados Unidos pagam e equipam os comandantes tribais que os ajudam a caçar a Al Qaeda. Tal estratégia é mais cômoda do que colocar as tropas norte-americanas em risco, mas ela fortalece os mesmos poderes regionais que o governo terá que subjugar, caso queira coletar impostos, fazer cumprir as leis e realizar outras atividades para manter o país coeso.

"Existe uma tensão, mas é uma tensão necessária porque o centro, o exército nacional, não existe", disse Khalilzad.

Khalilzad disse que a meta de longo prazo é fazer com que o governo central seja capaz de lutar contra o terror, bem como administrar o país.

Karzai tem um prazo de 18 meses para realizar essas tarefas e ninguém deseja mais intensamente que ele tenha sucesso do que o povo afegão. A população estará de olho no novo presidente.


Tradução: Danilo Fonseca

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