Chegada do papa mobiliza a população da Guatemala

Mike Williams
Cox News Service
Na Cidade da Guatemala (Guatemala)

Pouco tempo após suas aparições no Canadá, o papa João Paulo 2º desembarcou nesta segunda-feira na Guatemala, ocasionando uma demonstração intensa de fé e adoração por parte de centenas de milhares de espectadores que assistiram a passagem de sua comitiva.

"É uma ocasião muito especial, pois o papa já está velho e nós o veremos provavelmente pela última vez", afirmou Estuardo Molina, 13, que chegou a uma das principais avenidas da capital na madrugada de segunda-feira para garantir uma boa vista do Sumo Pontífice. "Nós o adoramos e (a visita) significa muita coisa para nós".

Após uma parada de dois dias no México, João Paulo 2º chegou no período da tarde para uma visita que irá durar menos de 24 horas. Ele saiu de seu avião diretamente para um caminhão com um pequeno elevador, e em seguida caminhou até um pódio. Para tanto, deu alguns poucos passos com a ajuda de auxiliares e de uma bengala.

O Pontífice de 82 anos parecia debilitado e frágil. Entretanto, seus olhos reluziram e ele sorriu ao beijar várias crianças que foram recepcioná-lo.

Esta é a terceira visita que o papa faz à Guatemala, mas talvez seja a mais importante segundo a opinião dos Católicos Romanos, pois desta vez ele irá canonizar Pedro de San Jose Betancur, um missionário do século 17 das Ilhas Canárias que pregou para a população pobre da Guatemala. Betancur será o primeiro santo guatemalteco.

A cerimônia ocorrerá durante a missa matinal de terça-feira, que deverá atrair ao menos meio milhão de fiéis. As igrejas católicos de toda a Guatemala e de outros países da América Central enviam ônibus lotados com milhares de fiéis, muitos dos quais pretendem iniciar sua peregrinação nas poucas horas de sua viagem.

"Terei a honra de canonizar o irmão Pedro", disse o papa em uma breve cerimônia de recepção na Base da Força Aérea localizada ao lado do Aeroporto Internacional La Aurora. "Esta é uma dádiva a toda a população da Guatemala que anseia por paz e reconciliação".

Boa parte da capital do país viveu um feriado ontem, e as principais ruas da cidade ficaram fechadas para carros enquanto a multidão assistia a passagem da comitiva do papa.

Centenas de escolas religiosas, igrejas e clubes decoraram as ruas com toneladas de serragem colorida e reluzente e flores. Com moldes de madeira, eles conceberam elaborados modelos de ícones religiosos como cruzes, pombas e sinos.

O ambiente festivo foi favorecido por um tempo impecável e uma temperatura amena, embora nuvens negras se aproximassem no momento em que o Pontífice deixou a Base Aérea em seu "papa-móvel" blindado.

Milhares de fiéis acompanharam a comitiva com aplausos e bandeiras que eram agitadas enquanto todos lutavam para enxergar o papa, que acenava para a multidão durante o trajeto, sentado em sua cadeira acolchoada. Ambulantes vendiam bandeiras douradas e laranjas com imagens de João Paulo 2º, além de camisetas, chapéus e fitas-cassete com temas religiosos.

"Eu o vi em visitas anteriores, e este foi o momento mais emocionante da minha vida, além de meu casamento", afirmou Laura Estrada, que preparou, junto com seis outras famílias, desenhos de serragem em um pequeno trecho da rota da comitiva.

João Paulo 2º é extremamente popular na América Latina, onde vivem aproximadamente 500 milhões de católicos, ou metade dos fiéis da Igreja em todo o mundo. Com suas tradições conservadoras, a região continuou a ser um reduto do catolicismo imune às polêmicas sobre abuso sexual que tomaram conta das igrejas norte-americanas nos últimos meses.

"Sabemos desta polêmica nos Estados Unidos, mas isso não acontece aqui", afirmou Estrada. "Por aqui, o assunto não chamou muito a atenção".

A visita de João Paulo 2º ocorre no momento em que a Guatemala luta para consolidar acordos de paz assinados em 1996 e que deram fim a uma sangrenta guerra civil nacional de 36 anos.

Mais de dez de padres católicos foram assassinados durante o conflito por soldados militares e grupos paramilitares de direita. Eles eram suspeitos por apoiar a população pobre indígena e simpatizar com guerrilheiros esquerdistas.

Nos últimos meses, as tensões ressurgiram após grupos liberais -- alguns deles aliados à Igreja Católica -- terem exigido a exumação de corpo e aberto processos contra os militares por massacres ocorridos durante a guerra, e que teriam vitimado 200 mil pessoas.

Alguns ativistas receberam ameaças de morte, e integrantes de alguns grupos paramilitares recentemente exigiram pagamento pelos serviços prestados ao exército durante a guerra. Um grupo fechou estradas no norte da Guatemala, nas imediações de uma das mais famosas ruínas arqueológicas dos maias, criando fortes temores de que os antigos conflitos nacionais pudessem surgir novamente.

Os católicos da Guatemala enfrentaram ainda o veloz crescimento de seitas evangélicas protestantes ao longo dos últimos 20 anos. Alguns cálculos recentes revelam que cerca de 30% da população nacional de 13 milhões agora se consideram protestantes.

No meio da multidão que saudava a chegada de João Paulo 2º, muitos afirmavam esperar que o papa pudesse trazer uma nova harmonia para seu conturbado país.

"O papa é muito especial para a América Latina porque se preocupa com a paz mundial", afirmou Roberto Estrada.

Tradução: André Medina Carone

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