Bush quer que Israel se defenda caso seja agredido por Saddam

Bob Deans
Cox News Service
Em Washington (EUA)

Em uma enérgica advertência às forças americanas e seus aliados do Oriente Médio, o presidente Bush declarou que o Iraque poderia reagir a uma ofensiva militar americana com "cálculos irracionais" e "atos tenebrosos".

O comentário, feito horas antes de um encontro com o primeiro-ministro israelense Ariel Sharon, reflete o temor americano de que, tomado pelo desespero, o governo de Bagdá possa recorrer a armas químicas e biológicas caso seja atacado, em um último gesto de resistência.

Bush reconheceu que Sharon possui o direito de defender seu país contra possíveis ataques. "Caso o Iraque resolva atacar Israel amanhã, creio que o primeiro-ministro reagiria", afirmou Bush. "Ele está empenhado em se defender".

Entretanto, autoridades israelenses e americanas admitiram que o governo Bush está fortemente empenhado em convencer Israel a permanecer fora do embate.

Bush, que participará de reuniões para angariar fundos de campanha para os republicanos nesta quinta-feira, informou a Sharon que os Estados Unidos ajudariam a proteger Israel contra possíveis ataques promovidos pelo líder iraquiano Saddam Hussein.

"A comunidade internacional não irá tolerar um ataque injustificado contra Israel -- ou qualquer outro país", afirmou Bush durante uma breve sessão de fotos realizada após seu sétimo encontro com Sharon no Salão Oval. "Ele já fez isso no passado", afirmou Bush a respeito de Saddam. "Trata-se de um homem perigoso. É por esta razão que ele deve ser desarmado".

Enquanto Bush discursava com dureza, os Estados Unidos sofriam nesta quarta-feira fortes críticas durante o encontro do Conselho de Segurança da ONU, que começa a discutir a política a ser adotada para o Iraque.

Os aliados árabes, entre eles o Kuait -- que foi invadido por forças iraquianas em 1990 -- se opõem ao emprego da força militar no Iraque e defendem que os Estados Unidos concedam aos inspetores da ONU uma oportunidade para desarmar o regime de Saddam.

O embaixador americano deverá dirigir-se ao Conselho de Segurança na quinta-feira. Pouco antes, Bush reunira ministros e aproximadamente cem parlamentares em uma cerimônia da Casa Branca, na qual assinou a resolução conjunta, aprovada pelo Congresso na última semana, que lhe concede autorização para iniciar uma guerra contra o Iraque caso haja necessidade.

"Não determinei o emprego da força. Espero que o emprego da força não seja necessário", afirmou Bush. "Entretanto, frente à ameaça posta pelo Iraque, será necessário recorrer a todos os meios disponíveis".

Bush conclamou a ONU a adotar uma postura diplomática mais dura, que avalize o emprego da força. E pressionou aliados relutantes para que tomem consciência do "dever" de enfrentar um perigo iminente.

"Aqueles que escolheram negar a realidade talvez sejam obrigados a viver com medo", firmou Bush, numa mensagem claramente destinada a França, Rússia e China. Este três membros do Conselho de Segurança da ONU que possuem poder de veto ainda deverão subscrever a política definida por Bush para o Iraque.

Caso o Iraque tenha a oportunidade de reforçar seu arsenal, "o caos na região teria reflexos na Europa e mais além", advertiu Bush de forma direta. "Todas as nações que partilham dos benefícios da paz também partilham dos dever de defendê-la".

Bush aproveitou a ocasião para demonstrar a solidariedade americana quanto à causa contra o Iraque. "Se partirmos para o confronto, enfrentaremos um inimigo capaz de recorrer, como último recurso, a cálculos irracionais e atos tenebrosos", afirmou Bush. "Na condição de Comandante das Forças Armadas, sei quais são os riscos para o nosso país".

Um recente documento da CIA atesta que entre 1983 e 1988 o Iraque empregou, em pelo menos dez ocasiões, bombas, foguetes e artilharia para agredir iranianos ou curdos iraquianos com gás mostarda, gás Sarin ou outros agentes químicos. Mais de 20 mil pessoas foram mortas ou feridas nestes ataques.

Os documentos revelados pela CIA atestam que o Iraque ainda possui mais de 100 toneladas de armas químicas, além de agentes biológicos como esporos letais de antraz e potentes carcinógenos, que poderiam ser empregados contra forças americanas ou aliadas na região.

O Iraque lançou mais de trinta mísseis Scud armados com explosivos convencionais, contra Israel e Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo de 1991. Israel não retaliou após solicitação dos americanos, temerosos de que um ataque israelense contra o Iraque pudesse dissolver a coalizão árabe que apoiava os americanos e expulsou do Kuait os invasores iraquianos.

Autoridades americanas já informaram novamente a Israel que os Estados Unidos encontram-se em melhores condições para reagir caso o Iraque promova um ataque contra aliados americanos na região.

"Estamos alarmados e preocupados com o risco de que o Iraque venha a atacar países vizinhos", disse a repórteres o porta-voz da Casa Branca Ari Fleischer. "Manteremos um diálogo próximo com nossos companheiros e aliados na região para discutir esta ameaça e estratégias para a redução deste risco".

Uma autoridade do governo israelense assegurou a Sharon que os Estados Unidos "se empenhariam ao máximo" na defesa de Israel contra um ataque ou retaliariam em nome de Israel caso algum ataque viesse a ocorrer.

"A mensagem é clara", afirmou esta autoridade. "Os israelenses aceitam que os americanos se empenhem ao máximo para evitar a necessidade de uma reação israelense", caso a guerra contra o Iraque resulte em ataques contra Israel. "Por outro lado, caso Israel sofra uma agressão, o país reservará para si o direito da defesa".

O governo Bush não fez menção a avanços na busca por apoio para a provação de uma resolução proposta junto ao Conselho de Segurança por americanos e britânicos que concederia armas mais contundentes para as inspeções no Iraque, que contariam com a retaguarda de forças comandadas pelos Estados Unidos.

Como Rússia, China e França ainda não tomaram uma posição, Fleischer reduziu a perspectiva de um possível acordo imediato a um único ponto: a exigência americana de que a resolução autorize o emprego da força caso as inspeções não dêem resultado.

"Não tenho certeza de que tenhamos chegado ao ponto em que um discurso proferido por algum presidente venha a alterar os votos na ONU", afirmou Fleischer. "Estou certo de que a discussão chegou ao plano da diplomacia".

Embora a questão iraquiana tenha dominado o encontro, Bush e Sharon também discutiram alternativas para reduzir as tensões entre israelenses e palestinos.

Bush afirmou que em breve enviaria à região o vice-secretário de Estado William Burns, na intenção de contribuir para a realização de reformas, reduzir os poderes de Iasser Arafat e substituir seu comando desgastado por um novo governo eleito que combateria os atacantes suicidas e outros militantes.

Sharon aventou a hipótese de que, em um futuro distante, as negociações para a paz um dia fossem retomadas.

"Acreditamos que este dia virá, e esperamos que em breve possamos iniciar as negociações para a paz", afirmou Sharon.

"Acredito que judeus e árabes poderão conviver lado a lado", afirmou Sharon. Ele se comprometeu a "adotar todas as medidas necessárias para fazer avançar o processo político", embora mantenha uma campanha militar agressiva, caracterizada por ele como um programa para erradicar o terrorismo palestino.

Tradução: André Medina Carone

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