Sem muito alarde, "Frasier" chega ao fim nos EUA

Kevin D. Thompson
Em West Palm Beach, Flórida

Se "Friends" e "Frasier" fossem irmãos de uma mesma família em vez de "sitcoms" (séries cômicas semanais de personagens fixas), "Friends" seria o mais popular dentre eles, o irmão mais desavergonhado e atraente da família que conseguiu conquistar uma multidão de pessoas legais.

"Frasier", em contrapartida, seria o garoto "nerd", mais complicado e difícil, de aparência comum, que anda despercebido pelos corredores da escola. Por certo, ele pode até mesmo conseguir notas 10 o tempo todo, mas ninguém se importa muito com isso porque, de certa forma, é um fato bastante previsível.

Em nenhum outro momento de sua existência foram tão pronunciadas, como nesta temporada, as diferenças entre as duas comédias irmãs, apresentadas pela rede NBC nos EUA e pelos canais pagos Warner ("Friends") e Sony ("Frasier") no Brasil.

Você pode ter ouvido dizer que "Frasier", assim como aconteceu com "Friends" na semana passada, está chegando ao fim. Embora "Frasier" seja considerada uma obra do mais alto nível no universo dos "sitcoms", sendo uma das comédias mais premiadas na história da televisão americana - ela recebeu o número recorde de 31 prêmios Emmy, inclusive cinco prêmios consecutivos na categoria de "série cômica mais interessante da televisão" -, a sucessora da veterana série "Cheers" (1982-1993, que tivera 276 episódios produzidos) tem sido tratada como um enteado indesejado pela própria rede de televisão que a inventou.

Pessoalmente, eu não consegui manter a conta de quantos anúncios publicitários da NBC proclamaram o fim de "Friends". Para ser honesto, nem tenho certeza de ser capaz de contar quantidades tão grandes. O que eu sei, definitivamente, é que assisti a um número muito maior destas chamadas de tônica silenciosa quando "Friends" acabou do que quando foi a vez de "Frasier" terminar.

Em qualquer outra temporada, o final de "Frasier", depois de onze anos de grande sucesso, teria sido, para todo comentarista e crítico de televisão, a matéria do ano. Em vez disso, "Friends" foi objeto de todas as manchetes mais destacadas, pairando muito acima do rebanho, enquanto "Frasier" tem sido relegada à categoria do curto comentário posterior de baixo de página.

"Não existe nada pior que um neurótico que consegue provar que ele tem razão", observa Tim Brooks, o co-autor de "The Complete Directory To Prime Time Network and Cable TV Shows" ("A lista completa dos programas de grande audiência dos canais de TV aberta e por assinatura"). $escape.getQuote()['Frasier'] ficou completamente ocultado por toda a publicidade e pelos holofotes ofuscantes que foram focados quase que exclusivamente sobre 'Friends'. É lamentável porque 'Frasier' é um outro exemplo de uma série extremamente bem-elaborada".

Não pensem que Kelsey Grammer, que encarnou o personagem de Frasier Crane, o simpaticíssimo psiquiatra descontraído de Seattle, por 20 anos (um recorde que coloca Grammer no mesmo nível de James Arness, que encarnou o personagem do xerife Matt Dillon em "Gunsmoke", por um período equivalente), não se deu conta desta negligência que, para muitos, pode ter passado despercebida.

"No início deste ano, quando (os responsáveis da NBC) nos disseram que eles não iriam fazer grandes esforços para promover 'Frasier', isso foi de certa forma uma decepção", comenta Grammer, que ganhou três prêmios Emmy pelo seu papel memorável.

"Mas quando você considera o sucesso popular de 'Friends', principalmente quando comparado com a audiência da qual beneficiou 'Frasier', é preciso aceitar o fato de que ele tem prioridade em função do resultado de sua performance junto ao público. Em termos qualitativos, eu não questiono o fato de 'Friends' ser uma série melhor do que 'Frasier'. Eu acho até mesmo que nós estamos sendo devidamente recompensados em função do tamanho considerável da audiência que nós conquistamos ao longo da série".

E se você acredita que isso seja verdade, então você também irá acreditar que "The Tracy Morgan Show" ("O Espetáculo de Tracy Morgan") está programado para se tornar o próximo grande "sitcom" da NBC.

Grammer, é claro, está sendo diplomático quando fica repetindo a versão oficial da NBC. Mas, nos bastidores, reservadamente, ele deve estar mordido ao ver que o brilho de "Frasier" continua sendo eclipsado pela sombra - do tamanho de Hollywood - gerada por "Friends."

Ironicamente, enquanto a última temporada tem sido - de maneira frustrante - bastante medíocre para "Friends", "Frasier" está se despedindo de maneira muito criativa e em grande estilo. Provavelmente, esta série pode ser considerada melhor, hoje, do que nunca, principalmente para quem se lembra do quão ruim ela era no ano passado, quando era dada por muitos como uma das piores coisas veiculadas na televisão como um todo.

Desde então, houve tantos episódios excelentes que se destacaram por si só, que podem ser considerados como alguns entre os melhores do gênero, e que acabaram redimindo as falhas que apareceram no longo prazo. Nem que seja, por exemplo, o episódio no qual se destacou a participação de Patrick Stewart como estrela convidada e a sua atuação inspirada, no papel de chefe de orquestra gay de ópera que se apaixona por Frasier.

Final de impacto

No que se revelou ser um roteiro hilariante, Maris, a insuportável ex-mulher de Niles (David Hyde Pierce), matou o seu amante latino. Já, Laurie Metcalf ("Roseanne") deveria ser nomeada para um Emmy pela sua participação recorrente no papel de uma apresentadora de programa infantil que estava literalmente no cio e não conseguia tirar as mãos do bom doutor Frasier.

Por sua vez, Wendie Malick ("Just Shoot Me") foi uma nova personagem bem-vinda no papel da antiga babá de Frasier e de Niles que se apaixonou pelo pai resmungão dos dois (John Mahoney).

O melhor é que, ao que tudo indica, apesar de carregar a pecha de infeliz no amor, Frasier finalmente encontrou a sua alma irmã na pessoa de Charlotte (Laura Linney), uma simpática casamenteira que se revela ser uma intelectual igual a Frasier, até nas menores partículas.

Grammer admite que eles sofreram uma pressão para que a série terminasse a temporada com um desfecho de impacto. "Nós achamos que era realmente importante garantir que esta seria a melhor temporada da série como um todo", diz. "E eu estou convencido de que nós conseguimos de fato alcançar este objetivo".

Eu mesmo posso afirmar tranqüilamente que "Frasier" é provavelmente o seriado mais bem-sucedido da história da televisão (americana). Diferentemente da maioria das comédias que costumam se mostrar mais do que interessadas em agradar ao menor denominador comum (piadas sexuais, garotas adolescentes bonitinhas, e mais piadas sexuais), "Frasier" foi uma comédia elegante e arrogante que adquiriu um orgulho glorioso justamente daquilo que a caracterizava como uma comédia elegante e arrogante.

Os enjoados irmãos Crane amavam ópera, bons vinhos, poltronas Eames e Wassily, assim como a sua mesa predileta no café Nervosa.

Frasier vivia num apartamento de cobertura, com uma vista panorâmica do centro de Seattle, o qual muitos fariam qualquer coisa para possuir, e que ele possuía em regime de co-propriedade. O humor era inteligente e sofisticado. O roteiro era sempre muito espirituoso. Num determinado episódio, Frasier faz conjeturas sobre as suas perspectivas de carreira durante o seu primeiro programa de rádio, fazendo o comentário seguinte: "Lincoln tinha um futuro mais brilhante quando ele comprou os seus ingressos na bilheteria".

O comentário alude ao fato de o presidente americano Abraham Lincoln ter sido assassinado durante uma apresentação teatral em Washington, no ano de 1865. Sem tal informação, a piada não funciona.

Grammer sente uma certa dor ao admitir que "Frasier" teria muitas dificuldades para se impor se estreasse hoje. "Eu não tenho certeza de que a comédia sofisticada ainda tem o seu lugar na televisão de hoje", diz.

"Eu gostaria de acreditar que ela ainda ocupa um lugar relevante, mas eu não tenho certeza de que as emissoras continuem interessadas nesse formato, e nem estou convencido de que o grande público continue interessado nesse tipo de programa. Ninguém conseguiu descobrir o ovo de Colombo, ou seja, uma maneira infalível de conquistar uma boa audiência sem ser sensacional. Nós ainda temos que evoluir antes de ver surgir a vontade, por parte do público, de ver alguma nova comédia sofisticada".

'Pequena história fantástica'

No último episódio, que vai ao ar nesta quinta-feira (13/05) nos EUA, Martin faz a reserva do salão de festas na data errada para o seu casamento com Ronee (Malick), que se aproxima. Enquanto isso, os irmãos (Anthony LaPaglia, Robbie Coltrane, Stephen Moon) "sempre prontos para aprontar" de Daphne (Jane Leeves) fazem uma visita de surpresa a Daphne e Niles, os quais aguardam o nascimento de seu filho.

Roz (Peri Gilpin) comemora uma grande promoção que ele recebeu no seu emprego enquanto Frasier diz adeus a Charlotte, que está indo embora para Chicago. E se você acredita que Charlotte acabará indo realmente para esta cidade, bem, então, você também é daqueles que acreditavam que Rachel jamais voltaria a ficar com Ross no último episódio de "Friends".

Na sua maioria, os finais de seriados são sempre desastrados porque os seus diretores saturam o episódio e fazem de tudo para torná-lo inesquecível em vez de tratá-lo simplesmente como um episódio normal. Christopher Lloyd, que atuou praticamente o tempo todo como produtor executivo de "Frasier", diz esperar que o episódio final de uma hora de "Frasier" não cometerá este erro.

"Nós não vamos complicar as coisas convidando um monte de artistas importantes para participar nem fazer extravagâncias tais como promover um fogo de artifício de duas horas", diz. "Nós esperamos que o episódio final seja pequeno porém fantástico, e que a história atenda às expectativas de todos os telespectadores".

Grammer acha que a série será lembrada lembrada como um show em que "os personagens . . . se amavam uns aos outros e descobriram o quão importante é a família para eles", diz.

"Estes são valores um pouco caretas . . . mas creio que seja uma coisa boa. Nós cumprimos a nossa tarefa com muito estilo, integridade e também com muito humor. Estou muito orgulhoso de tudo o que nós fizemos". Sucesso absoluto de crítica, a série se despede após 11 anos, ofuscada por "Friends" Jean-Yves de Neufville

UOL Cursos Online

Todos os cursos