Prejuízo causado pelo fumo é maior que se pensava, diz pesquisa

Por Jeff Nesmith e David Wahlberg
Em Washington

O hábito de fumar, que havia sido inicialmente vinculado ao câncer do pulmão por um relatório preliminar divulgado pelo diretor da saúde pública 40 anos atrás, pode provocar não menos de 26 doenças diferentes, assim como severas complicações durante a gravidez. Estas novas descobertas foram anunciadas pelo governo americano nesta quinta-feira (27/06).

Um relatório elaborado pelo atual diretor da saúde pública, Richard Carmona, denuncia que o hábito de fumar é responsável por nove doenças das quais os relatórios anteriores não haviam conseguido definir as causas.

Estas doenças são: diversas variantes de câncer no estômago, do colo do útero, do pâncreas e do fígado; a leucemia aguda da medula óssea; a pneumonia; o aneurismo aórtico abdominal; diversas variantes de catarata e de periodontite.

"O cigarro prejudica praticamente todas as células do seu organismo", afirmou o Dr. Carmona durante a apresentação dos dados do relatório, o vigésimo oitavo de uma série que remonta à condenação histórica do hábito de fumar pelo então diretor da saúde pública Luther Terry, em 1964.

As doenças que haviam sido citadas pelos relatórios elaborados pelos diretores da saúde anteriores como sendo causadas pelo hábito de fumar incluíam várias formas de câncer da vesícula, do esôfago, da laringe, do pulmão, da boca e da garganta. O hábito de fumar também foi apontado como sendo a causa de moléstias crônicas do pulmão, de doenças crônicas do coração e cardiovasculares, assim como de vários problemas que afetam os órgãos reprodutores.

Carmona precisou que pesquisas recentes trazem dados animadores em relação ao problema. Segundo ele, um estudo realizado por vários centros de controle e de prevenção (cuja sigla em inglês é CDC) das doenças (nos Estados Unidos) indica que as taxas de fumantes entre os adultos continuam em declínio, embora isto não esteja ocorrendo com a rapidez necessária para que seja alcançada a meta das autoridades federais de 12% em 2010.

Segundo o relatório dos CDC, o declínio do hábito de fumar entre os adultos tem sido mais lento nas camadas pobres e com acesso reduzido à educação. De maneira geral, 22,5% dos adultos eram fumantes em 2002, precisa o relatório. O nível mais alto já registrado era de 42,6%, em 1966.

Contudo, nas últimas duas décadas, as diferenças de taxas de fumantes entre pessoas acima e abaixo do limite de pobreza, e entre estudantes colegiais e formandos nas universidades, aumentaram consideravelmente. Cerca de 33% das pessoas de baixa renda fumam, assim como mais de 42% daquelas que obtiveram diplomas de estudos do primeiro e do segundo grau.

"Nós precisamos agora concentrar mais ainda a nossa atenção no sentido de garantir o acesso mais amplo possível aos serviços de atendimento médico para as populações desfavorecidas", comentou Corrine Husten, do departamento de tabagismo e saúde do CDC.

O seguro público de saúde americano (Medicare) não reembolsa os programas que ajudam a parar de fumar. A cobertura de outros planos de saúde tais como o Medicaid varia conforme os Estados; enquanto os planos dos Estados de Oregon e New Jersey assimilam todos os serviços que eles oferecem, 38 outros Estados reembolsam apenas alguns dentre eles. Quarenta Estados disponibilizam linhas públicas de telefones para as pessoas interessadas em parar de fumar e que recebem orientações sobre o problema, mas alguns deste Estados cortaram os seus subsídios para este serviço nos últimos anos.

O Dr. Carmona indica que embora o hábito de fumar cause a morte de um número estimado em 430 mil pessoas entre os americanos a cada ano, o número de americanos que fumam, em torno de 45 milhões, já ficou inferior ao número dos que pararam de fumar, estimado em 46 milhões aproximadamente.

A diminuição da taxa de fumantes comprova que "não há dúvida de que o tabaco seja um dos mais incríveis exemplos das mudanças radicais que alteram o comportamento dos americanos no que diz respeito à questão da saúde, as quais foram inspiradas nos relatórios publicados pelas direções do serviço de saúde", declarou o médico.

Ele evitou precisar se ele apoiaria um novo projeto de lei no Congresso visando a dar maiores poderes à agência reguladora de alimentos e de remédios (Food and Drug Administration) para criar maiores controles sobre a nicotina. Contudo, ele se disse favorável a todas e quaisquer mudanças, de maneira geral, visando a reduzir as taxas de fumantes.

Durante a apresentação à imprensa do novo relatório da direção do serviço de saúde, intitulado "As conseqüências do hábito de fumar sobre a saúde", Carmona apresentou à platéia Ann Schnur, uma dona de casa de Atlanta que contou a sua luta dramática contra um câncer do pulmão.

Após ter sido submetida a duras sessões de quimioterapia e de radiações, Schnur contou que ela foi informada de que a sua doença havia se alastrado, passando do "estágio 3" para o "estágio 4", e que só lhe restavam "provavelmente 10 a 18 meses de vida".

Mas, graças a "aquilo que então não passava de um remédio experimental", o Alimta, que ela começou a tomar em janeiro de 2003, o seu câncer está diminuindo, disse.

Seis semanas após ter tomado a primeira pílula, lembrou, ela voltou para casa depois de uma sessão de tomografia e disse ao seu marido, David Hudson (cujo sobrenome é diferente), e aos seus dois filhos que os resultados dos testes haviam indicado a sigla NED, ou seja "nenhuma evidência de doença".

"Nós começamos a dançar com o NED em nossa casa", contou, "e NED é um grande dançarino".

Ann Schnur, uma antiga assistente do advogado público de defesa de DeKalb County, contou que ela passou a se envolver com as atividades de um movimento contra o tabaco, depois de os seus filhos terem aderido à Tree House Gang, um grupo de apoio às crianças que têm membros de sua família sofrendo de câncer.

Carmona exibiu um videoclipe do grupo, que foi fundado pela enfermeira do centro médico de DeKalb, Rose McKeever, durante a apresentação do relatório.

"Não consigo sequer imaginar que os meios dois filhos, quando se tornarem adolescentes, possam se tornar fumantes", disse Schnur, "mas, a cada dia que passa, um número cada vez maior de crianças começa a fumar e nós precisamos encontrar formas de fazer com que eles parem com isso".

Carmona também foi acompanhado durante a apresentação pelo editor-chefe do relatório, Johns Hopkins, e por Johatan M. Samet, um epidemiologista da escola de saúde pública da Universidade. Queda no número de fumantes não está reduzindo casos de doenças ligadas ao cigarro Jean-Yves de Neufville

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