Campanha nos EUA ignora Estados considerados definidos

Scott Shepard
Em Washington

Marsha Folsom tem lidado com política durante toda a sua vida, mas como ela não vive em um dos Estados principais da eleição presidencial deste ano, ela está se sentindo como se o desfile rumo à Casa Branca não a estivesse levando em consideração.

O pai de Folsom foi um legislador estadual, seu sogro foi governador por dois mandatos, seu marido serviu dois anos como governador após dois anos como vice e, até recentemente, ela era diretora executiva do diretório do Partido Democrata de seu Estado.

Mas Folsom vive no Alabama, um dos mais vermelhos dos Estados vermelhos nos mapas eleitorais feitos para a televisão nos Estados Unidos, um código de cores que reflete a preferência presidencial de cada Estado -vermelho para republicano, azul para democrata.

E como o Alabama não é um dos cerca de 17 Estados mais disputados na corrida presidencial deste ano, nem o presidente Bush nem seu virtual adversário democrata, o senador John Kerry de Massachusetts, estão gastando muito tempo, dinheiro ou esforço em um Estado que se orgulha de ser o "Heart of Dixie" (o coração do Sul dos Estados Unidos).

A primária presidencial do Alabama ocorrerá na terça-feira (01/06), mas não há virtualmente nenhuma campanha sendo realizada por nenhum partido. Já se presume que Bush vencerá no Estado, pelo menos com a mesma margem com que o conquistou em 2000 contra Al Gore, 56% contra 42%. Uma pesquisa do jornal "Mobile Register" neste mês mostrou Bush com uma vantagem de 22 pontos no Alabama.

Conseqüentemente, para alguém como Folsom, uma ativista política de longa data, a campanha presidencial de 2004 é como "uma distorção temporal -uma experiência fora do corpo", disse ela por telefone de sua casa no Norte do Alabama. "Você sabe que a campanha está ocorrendo, mas é difícil se sentir parte dela."

É o mesmo para pessoas em outros Estados onde a disputa não está acirrada e que, mesmo não estando envolvidas em política, levam a sério seu dever cívico de votar de forma informada.

Pessoas como Betty Edgemond, uma aposentada do sistema de ensino no Estado solidamente "vermelho" do Texas, que expressou revolta com o fato de as campanhas presidenciais estarem concentrando seus esforços em Estados indefinidos e desistindo de grandes pedaços do país um ao outro.

"Eu acho revoltante", disse Edgemond por telefone de sua casa em Austin. "Não é justo. Não nos descartem. Eu me sinto assim. Você escuta o Jay Leno (apresentador do programa "Tonight") e pessoas na CNN e C-Span falando sobre todas estas propagandas políticas que não estamos vendo. É como se não existíssemos, e o Texas é um dos maiores Estados."

Ou pessoas como Danny Bowman, um pai e marido de meia-idade que treina eletricistas sindicalizados na Geórgia, outro Estado "vermelho" que teve votação semelhante à do Alabama em 2000, com 55% a favor de Bush contra 43% para Gore.

"Nosso processo eleitoral muitas vezes faz com que eu sinta que meu voto tem pouco valor para outros exceto para mim", disse Bowman, natural e morador de longa data da Geórgia, de seu lar em Loganville, um subúrbio de Atlanta. "Mas estou feliz por, até onde sei, ainda não ter sido reduzido à apenas 'hanging chad'."

O infame "hanging chad" (o pedacinho de papel que cai quando um cartão é perfurado) dos votos recontados durante a campanha presidencial de 2000 se tornou um dos símbolos da divisão 50%-50% de vermelho e azul na política americana atual. Há quatro anos, Bush venceu na Flórida por 537 votos, o que lhe deu 271 votos eleitorais, apenas um a mais do que o total necessário para conquistar a Casa Branca.

Os 17 Estados não definidos na eleição presidencial de 2004 são, na sua maioria, os Estados com a votação mais apertada entre Bush e Gore em 2000. E apesar de Bush e Kerry ainda não terem aceitado formalmente suas indicações pelo partido neste ano, eles já gastaram juntos cerca de US$ 100 milhões em propaganda nestes Estados.

O que isto significa é que a maior parte da campanha presidencial de 2004 transcorrerá diante de um público de 104,7 milhões de americanos nos Estados disputados, deixando outros 176,6 milhões de americanos assistindo de escanteio nos 33 Estados praticamente definidos.

"Para muitos americanos, esta eleição presidencial será como assistir a uma guerra distante pela televisão", disse Jack Bass, um antigo cronista político do Sul e professor do College of Charleston, na Carolina do Sul. "A menos, é claro, que estejam prestando atenção em todas as eleições locais e para o Congresso presentes na cédula."

Neste caso cabe aos diretórios locais e estaduais de tais Estados "vincularem seus candidatos estaduais à campanha nacional (...) ou tentar evitar que os candidatos locais estejam vinculados ao candidato presidencial", disse Charles Bullock, um professor de ciência política da Universidade da Geórgia, em Athens.

"Nos Estados já definidos, os ativistas terão que voar solo (...) na arrecadação de fundos e na mídia, sem a ajuda do diretório nacional", acrescentou Bullock. "E se o partido deles conquistar a presidência, apesar de poderem ser convidados para a posse, eles não serão convidados de honra."

Mas ser de um Estado definido não é obstáculo para o avanço político, porque os nomeados para a Casa Branca o são mais por ideologia do que por geografia. Dos 15 membros do Gabinete de Bush, por exemplo, 11 vieram de Estados que Bush não visou em sua disputa contra Gore há quatro anos.

Apenas três de seis membros do Gabinete oriundos de Estados disputados vieram de cargos eletivos: o secretário de Justiça, John Ashcroft, do Missouri; o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Tommy Thompson, e o secretário de Segurança Interna, Tom Ridge, da Pensilvânia.

"Eu não acho que ser do Texas ou de qualquer outro Estado vermelho é um revés no governo Bush, assim como não acho que ser de Nova York, da Califórnia ou de Massachusetts impediria alguém se tornar parte de um governo Kerry", disse o alto conselheiro da Casa Branca de Clinton, Sidney Blumenthal.

E o "levantamento de fundos conta, independente de onde você viva", disse Jack Pitney, um ex-analista do Comitê Nacional Republicano que agora ensina ciência política na Claremont McKenna College, na Califórnia. "Afinal, dinheiro é dinheiro, independente de ter vindo de Massachusetts ou Ohio."

Mas quanto àqueles que trabalham junto aos eleitores, "conhecer a configuração do terreno no azul Estado de Rhode Island é tão útil quanto a configuração do terreno na Antártida", acrescentou Pitney.

De forma semelhante, todos os governos usam o orçamento federal para "colocar marcadores" para gastos especiais nos Estados indefinidos, mas nenhuma Casa Branca ignora seus Estados bases, acrescentou Blumenthal.

E o governo Bush não é exceção, tendo incluído em seu orçamento de ano eleitoral, por exemplo, US$ 231 milhões para a recuperação dos Everglades da Flórida, um aumento de 12%, e US$ 45 milhões para os esforços de limpeza dos Grandes Lagos em Ohio.

Mas apesar de ter poucas chances de vencer na Califórnia, ele não pode ignorar o Estado Dourado porque ele também é o lar dos presidentes dos comitês da Câmara de Regras, Orçamentário, Agricultura e Serviços Armados. Assim, entre as provisões especiais no orçamento do presidente está a proposta de investir US$ 105 milhões na restauração do meio ambiente e melhoria das águas da Bacia do Rio Klamath, um aumento de 21% em relação aos recursos atuais.

"É um risco o Executivo ignorar este Estado", disse Pitney.

Além disso, segundo as novas leis de financiamento de campanha, os diretórios estaduais dos partidos, mesmo aqueles em Estados definidos, se tornaram ainda mais importantes: os diretórios estaduais não são tão limitados em seu levantamento de fundos como o diretório nacional.

Conseqüentemente, apesar de conquistar a hiper azul Califórnia na eleição geral ser muito difícil para Bush, o presidente faz viagens de rotina à Califórnia para levantar fundos.

E apesar de Kerry virtualmente não ter chance de conquistar o Alabama em novembro, ele visitou o Estado em abril para ajudar a levantar fundos para o diretório estadual e arranjou para que o ex-rival e possível colega de chapa John Edwards, da Carolina do Norte, participe de uma festa, em junho, para levantamento de fundos naquele Estado.

Mas para eleitores como Edgemond no Texas e Bowman na Geórgia, há pouco para atrair os candidatos presidenciais ao seus Estados, carentes de grandes mudanças políticas e demográficas entre "vermelho" e "azul".

Alguns Estados têm discutido a idéia de mudar a forma como concedem os votos eleitorais, eliminando o sistema "tudo ou nada" empregado atualmente por 48 Estados e o substituindo por um sistema proporcional semelhante ao usado no Maine e Nebraska. Uma abordagem popular seria conceder dois representantes para o candidato que vencer no Estado, e os demais serem distribuídos com base no resultado de cada votação distrital do Estado.

Mas Robert Hardaway, professor de Direito da Universidade de Denver e autor do livro "The Electoral College and the Constitution" (o colégio eleitoral e a Constituição), questionou a necessidade de tais reformas, argumentando que elas criariam uma eleição popular que teria um maior "potencial de um desastre eleitoral" em eleições apertadas como a de 2000.

"Você poderia acabar tendo que fazer recontagens em cada Estado, podendo ser necessários meses para se conhecer o resultado de uma eleição", disse Hardaway em uma entrevista por telefone.

Apesar de "ser verdade que alguns dos Estados se solidificaram" em campos republicanos e democratas, "não é sempre desta forma", ele acrescentou. Ele destacou que apesar do Sul já ter sido solidamente democrata, agora ele é confiavelmente republicano, enquanto a Califórnia que já foi republicana, agora é democrata..

E, de fato, restando ainda mais de cinco meses para a eleição de 2004, há sinais de que alguns Estados "azuis" estão ficando um pouco mais "vermelhos", e Estados "vermelhos" estão se tornando um pouco mais "azuis".

Em Nova Jersey, um Estado no qual Gore venceu por 16 pontos percentuais em 2000, Bush cresceu no último mês. A mais recente pesquisa da Universidade Quinnipiac mostrou que Kerry está à frente de Bush apenas por uma pequena margem, 46% contra 43%.

Mas a pesquisa Gallup do final de maio mostrou que Bush está à frente de Kerry por oito pontos nos Estados "vermelhos", 51% contra 43%, apenas metade da vantagem de 16 pontos que o presidente tinha nos Estados "vermelhos" na pesquisa Gallup do início de maio, quando Bush contava com 56% contra 40% de Kerry. Milhões de eleitores sentem como se a batalha entre Kerry e Bush fosse em outro país George El Khouri Andolfato

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