Edwards pode ser candidato democrata em 2008

Moni Basu
Em Atlanta

Qualquer um que ouviu o senador John Edwards, candidato do Partido Democrata a vice-presidente na chapa encabeçada por John Kerry, fazer seu discurso de reconhecimento de derrota para Bush em Boston, no início deste mês, pode ter pensado que ele estava lançando, e não encerrando, sua campanha.

"Esta luta apenas começou", disse Edwards aos fiéis do Partido Democrata no Faneuil Hall enquanto ele e o senador Kerry aceitavam a derrota eleitoral. "Esta campanha pode terminar hoje. Mas a batalha por vocês e pelos americanos trabalhadores que construíram este país continua."

Seria o primeiro discurso de palanque de 2008?

Em algumas rodas políticas, Edwards é considerado candidato certo à próxima indicação democrata. Ele pode estar desempregado e até mesmo sem casa em Washington --ele não disputou a reeleição para sua cadeira no Senado pela Carolina do Norte, e está vendendo sua luxuosa casa em Georgetown, nas cercanias da capital americana-- mas Edwards não vai desaparecer.

"Não há dúvida de que ele está em grande forma para outra disputa", disse Dan Coen, um especialista em vice-presidência que acompanhou Edwards atentamente durante a campanha de 2004. "Há uma grande vantagem em não estar empregado. Ele tem todo o tempo do mundo para concorrer para presidente."

E não estar no Capitólio também pode acabar sendo uma vantagem para Edwards, disse Coen. Não haverá histórico de votação para os republicanos atacarem, como fizeram tão bem com Kerry, um veterano de 20 anos de Senado.

Edwards, ainda jovem aos 51 anos e um relativo novato na política, perdeu as primárias e perdeu novamente com Kerry. Mas no processo, ele conquistou o respeito dos caciques do partido.

Muitos democratas concordam que o senador de boa aparência, fala arrastada do Sul e biografia de pobre que ficou rico despontou como material de horário nobre. O maior desafio de Edwards, agora que não ocupa mais um cargo público, será encontrar uma forma de se manter em evidência.

O próprio Edwards tem-se mantido calado sobre suas aspirações políticas desde a eleição. Sua esposa, Elizabeth, foi diagnosticada com câncer de mama no dia em que ele e Kerry reconheceram a vitória de Bush.

"No momento, o senador Edwards e sua esposa estão totalmente concentrados nisto", disse Ed Turlington, um advogado de Raleigh, Carolina do Norte, que foi diretor da campanha presidencial de Edwards.

Mas Turlington está confiante de que a carreira de Edwards está longe de encerrada.

"John Edwards é meu amigo, e se ele quiser disputar uma eleição, eu estarei envolvido o quanto puder", disse Turlington. "Eu acho que ele mostrou muito bem que está apto à liderança nacional."

Uma possibilidade é a presidência do Comitê Nacional Democrata, posto que será deixado por Terry McAuliffe. O cargo manteria Edwards politicamente relevante, disse o consultor democrata Brad Crone. Mas também deixaria Edwards com pouco tempo para se preparar para outra campanha. Além disso, disse Turlington, Edwards não expressou interesse no cargo.

Por ora, Edwards, um multimilionário, planeja concluir seu mandato no Senado em janeiro e retornar para a Carolina do Norte. Os Edwards compraram um terreno de 400 mil metros quadrados perto de Chapel Hill e disseram para a revista "People" que desejam construir lá.

Em um discurso de despedida ao Senado nesta sexta-feira (19/11), Edwards disse que apreciou o "presente de Deus" de dispor de mais tempo para estar com sua família. O casal tem dois filhos pequenos, Emma Claire, 6 anos, e Jack, 4 anos, e uma filha mais velha, Cate, de 22 anos.

Mas, novamente, ele deixou a porta aberta para o futuro. "É agridoce ver o que realizamos e o que foi deixado inacabado", disse Edwards para seus pares.

Edwards poderia retomar a bem-sucedida carreira de advogado de danos pessoais. Mas é mais provável que ele lidere um grupo de estudos políticos ou um comitê de ação política, apareça em talk shows de televisão e viaje o máximo que puder. Os democratas esperam que ele permaneça ativo no partido, levante dinheiro e continue ganhando proeminência.

"Eu acho que os americanos conseguiram obter um retrato instantâneo de Edwards, mas ele ainda tem um longo caminho pela frente para comunicar seus valores e o motivo pelo qual deve ser considerado para concorrer daqui quatro anos", disse Crone.

Ter sido o número 2 na campanha de 2004 foi ao mesmo tempo bom e ruim para Edwards, disse Coen. Isto lhe deu exposição, mas ele foi forçado a promover Kerry em vez de si mesmo. Edwards empolgou platéias, mas sua mensagem populista de duas Américas divididas pelos ricos foi eclipsada pela guerra no Iraque e outros temas de campanha de Kerry --um erro, dizem alguns, por parte de Kerry.

Pesquisas iniciais mostram Edwards bem atrás da senadora Hillary Rodham Clinton, de Nova York, e de Kerry em popularidade como candidatos potenciais em 2008. Uma pesquisa Gallup, divulgada na última terça-feira (16/11), mostrou que um quarto dos democratas ou eleitores de inclinação democrata preferem Hillary. Kerry terminou em segundo, com 15%, e Edwards apareceu em um distante terceiro lugar, com 7%.

Os números são significativos, mas prematuros, disse Crone.

"Você poderia escrever estas pesquisas em papel higiênico e fazer melhor uso delas", disse ele. "Tudo isto se presta para uma grande hipérbole, mas é cedo demais para começar a discutir isto."

Ainda assim, há indícios de quanto trabalho espera Edwards caso queira despontar como o candidato democrata favorito.

Quando ele anunciou sua pré-candidatura à Casa Branca em setembro de 2003, o nome de Edwards mal aparecia no radar das pessoas. Ele lutou arduamente para afastar a percepção de que era pouco mais do que um sujeito charmoso e um orador eloqüente.

Mas os eleitores puderam olhar bem para o homem que vendeu a si mesmo como o candidato da América trabalhadora. Ele surpreendeu a todos ao terminar em segundo lugar em Iowa, primeiro Estado a realizar eleições primárias, que definem o candidato do partido, no início de 2004. O futuro se tornou rapidamente mais promissor para Edwards.

Força no Sul

Durante a campanha, ele constantemente destacou sua herança sulista, lembrando às pessoas que cresceu como filho de um trabalhador de moinho e afirmando que era o único democrata entre os candidatos que podia vencer abaixo da linha Mason-Dixon (que separa os Estados do nordeste --reduto democrata--, dos Estados do sul do país --dominado pelos republicanos).

"Este sujeito é um de nós", disse Irma Merrill enquanto assistia a Edwards em Memphis, Tennessee, em fevereiro passado. "Nós estamos empolgados por termos alguém tão real na disputa."

Mas Edwards não conseguiu atrair apoio suficiente. Quando os democratas estavam lutado entre si nas primárias, ele não venceu em nenhum lugar exceto na Carolina do Sul, o Estado onde nasceu. As derrotas de Edwards no Sul --particularmente na Geórgia em 2 de março-- o forçaram a desistir, apesar de a Carolina do Norte ter-lhe dado uma vitória simbólica bem depois da indicação já ter sido definida.

"Não basta mais ser um sulista para vencer no Sul", disse Ferrel Guillory, diretor do Programa para Políticas, Mídia e Vida Pública do Sul, na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. "A última vez em que isto aconteceu foi quando Jimmy Carter venceu. O que é importante para um sulista --mais do que vencer no Sul-- é ser testado no caldeirão da política do Sul."

Foi isto o que fez de Bill Clinton um vencedor, e Edwards terá que aprender algumas destas lições, disse Guillory.

"Por ele ser do Sul, por ele ter praticado o centrismo, uma política moderada e por ter aprendido a sobreviver na política do Sul, Clinton se tornou um candidato nacional mais forte", disse Guillory. "Tanto a mensagem quanto o mensageiro são importantes. Edwards tem uma boa mensagem. Mas ele não venceu. Ele terá que adaptá-la à temperatura do momento."

Crone disse que Hillary Clinton já conta com o apoio da esquerda no Partido Democrata. Mas ela também é vista como uma figura polarizadora, que os simpatizantes de Edwards dizem que não conseguirá ampliar o apelo geográfico do Partido Democrata.

Se Edwards conquistar o espaço do centro, Crone disse que ele terá chance de obter os votos do Sul. Os ganhos dos republicanos nos governos estaduais da região e na bancada sulista no Congresso esvaziaram as opções dos democratas.

"Há tão poucos, e Edwards ainda está lá", disse Guillory. "Isto o mantém no jogo." Se Edwards decidir concorrer de novo, ele deverá começar a fazer aparições nos próximos meses. Na última eleição, Edwards foi avistado na primeira reunião no Estado de Iowa, já em março de 2001, não muito depois da posse do presidente Bush.

"Se eu fosse ele, eu descansaria, ganharia muito dinheiro e me divertiria", disse Coen. "Ah --e visitaria Iowa e New Hampshire toda semana." Ex-vice de Kerry é um dos poucos políticos do partido forte no Sul George El Khouri Andolfato

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