Jesus nasceu numa cidade onde a vida era uma batalha

Fred Marion
Cox News Service

Jesus nasceu num reino que poderia ser descrito como "orwelliano", vigiado por Roma e assolado pela instabilidade política.

Aconteceu há dois milênios. E fica até difícil imaginar como era a vida na velha Judéia.

O rei Herodes I governava a região com pulso de ferro.

"Na época do nascimento de Jesus, a Palestina era controlada por um ditador em mau estado de saúde, e que era paranóico e brutal ao extremo", conta Jerome Murphy-O'Connor, professor de Novo Testamento na Escola Bíblica de Jerusalém, numa entrevista por e-mail. "Herodes proibia todos os tipos de reuniões privadas, e tinha espiões por toda parte".

A população de Belém na época estaria ao redor de 1.000 pessoas. Hoje, vivem por lá, na área urbana, cerca de 61 mil pessoas.

"É uma cidade do século Vinte e Um, mas que ecoa de diversas formas", diz Richard Bautch, professor-assistente de estudos religiosos na
universidade de Saint Edwards em Austin, no Texas. "Belém é um lugar onde a antiguidade e a contemporaneidade ... se encontram e vivem em harmonia".

Há três milênios, era conhecida como a cidade de David, e ainda tinha essa aura quando Jesus nasceu, 1.000 anos depois.

Segundo Bautch, essa associação funcionava como acontece com Michael Jordan para a cidade de Wilmington, na Carolina do Norte, ou como a rede de café Starbucks para Seattle. As pessoas simplesmente identificavam David com Belém.

"Era o típico lugar que vivia basicamente de acordo com o legado de seu
filho mais famoso, o rei David... Ele foi um personagem tão fundamental para a história de Israel que Belém não poderia ser conhecida de outra forma", de acordo com o professor Bautch.

Mas, embora a cidade fosse bem conhecida, isso não tornava a sobrevivência por lá nem um pouco mais fácil.

"Do ponto de vista físico, a sobrevivência era mais dura do que tudo que
conhecemos e experimentamos", diz o professor Bautch.

Com isso concorda o reverendo Donald Senior, especialista em estudos
bíblicos, e presidente da União Católica Teológica de Chicago: "As pessoas viviam no aperto...e a maior parte do tempo era gasta com a luta pela sobrevivência".

Nessa vida dedicada à subsistência, poucos chegavam aos 40 anos. As
escavações realizadas em cemitérios revelam dentes quebrados de tanto comer grãos crus, revela Senior. Amplas famílias viviam juntas, se acumulando durante o inverno em pequenos espaços amontoados com poeira ou pisos de gesso.

Numa altitude de cerca de 800 metros, os invernos de Belém são frios e
úmidos, mas a cidade tem clima temperado e seco no restante do ano. As
pedras na superfície ajudam a conservar a umidade, mantendo fértil o solo
avermelhado.

Assim como hoje em dia, pequenas plantações nos jardins fora da cidade
tinham vegetação mais densa, com frutas, legumes, cevadas, oliveiras,
vinhedos e trigais.

"É impressionante", diz Senior. "Eles usam cada centímetro de terreno".

Dentro da aldeia, casas coladas com casas eram uma forma de prevenção contra ataques externos. Muitas casas foram construídas nas cavernas da região, e várias tinham cercados para os animais, assim como compartimentos para a vida social, cozinha e, durante o verão, quartos de dormir.

De dois a quatro quartos ficavam ao redor dos quintais, e a maioria das
casas tinha telhados planos feitos de lama, madeira e argamassa. Os telhados também serviam de pontos de encontro e, às vezes, de dormitório.

Quanto ao vestuário, as pessoas vestiam túnicas rústicas. Um largo cinturão de pano era dobrado e vestido à altura da cintura, servindo como bolsa para utensílios pessoais. Provavelmente também era utilizada uma espécie de véu para a cabeça.

A alimentação era bem frugal, segundo o reverendo Senior. Incluía frutas,
carne de cabra, de carneiro e de ovelha, assim como vegetais, azeitonas e, com certeza, alho poró: "Os grãos também eram apreciados".

As bebidas provavelmente se limitavam ao vinho, a água e talvez a uma
espécie de cerveja, segundo o especialista.

As atividades agrícolas e o pastoreio empregavam a maior parte dos homens. Cabras, ovelhas e carneiros tinham que ser vigiados noite e dia, como proteção contra os animais selvagens. As mulheres eram responsáveis por tarefas domésticas, tais como a tecelagem e a cozinha.

Como 98 por cento da população eram formados por analfabetos, as crenças religiosas eram basicamente espalhadas no boca-a-boca, diz o professor
Murphy-O'Connor. "Eles recitavam trechos das escrituras a partir das
repetições nas sinagogas, todos os sábados".

A fé estava por toda parte.

"As pessoas lutavam para conseguir alimentar suas famílias e sobreviver",
Segundo Senior. "Ao mesmo tempo, as menores casas tinham piscinas de
purificação e sinagogas. Eles eram guiados por um senso de devoção".

E foi nessa Belém - árdua, feita de trabalho duro e tão devota- que Jesus
nasceu.

Os evangelhos divergem sobre a época em que Jesus e Maria viveram por lá, se foi somente antes do nascimento de Jesus. Mas Murphy-O'Connor relativiza a historicidade do censo mencionado no evangelho de Lucas. "De acordo com Mateus, Jesus nasceu em Belém, pois era lá que Maria e José viviam. Eles terminaram como refugiados em Nazaré. E é nesse quadro histórico que episódios desconexos de Lucas devem ser encaixados".

Outro detalhe: se José e Maria tiveram que viajar de Nazaré até Belém (uma viagem de cerca de 80 quilômetros), isso levaria mais de três dias, segundo Richard Simon Hanson, emérito professor de religião no Luther College do estado de Iowa.

E Hanson procura explicar as inconsistências históricas: "Mateus e Lucas
escreveram seus evangelhos por volta do ano 85, aproveitando os relatos que estavam disponíveis".

Além dos fatos em si, os evangelhos de Mateus e Lucas têm um profundo
significado religioso, segundo o professor Hanson. O mais importante é o que essa história representa.

Para o reverendo Donaldson Jones, da Primeira Igreja Batista do Monte Sião, em Rocky Mount, a humildade que existe em torno do nascimento de Jesus é o que mais conta nessa história.

"Ele poderia ter vindo como um governador ou como presidente", diz Jones.
"Você consegue imaginar o presidente Bush deixando o salão oval para viver num estábulo, só para se identificar conosco?. . . Essa é uma demonstração de humildade impressionante".

É esse espírito que deve ser celebrado, segundo o reverendo.

"Devemos nos esforçar em viver de forma realista, pé no chão, de modo a
poder elevar os outros a grandes alturas", diz o reverendo Jones. "Essa é
verdadeiramente a essência da vinda de Jesus". Embora Belém fosse famosa, a sobrevivência era difícil Marcelo Godoy

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