UOL Notícias Internacional
 

23/02/2005 - 01h55

Jamaica tem profunda homofobia, dizem ativistas

Cox News Service
Shelia M.Poole

Em Atlanta
Na Jamaica um refrão bem popular diz "no problem, mon" ("sem problema, cara").

A não ser que você seja gay, lésbica ou bissexual.

Nesse caso "acontecem muitos problemas", segundo Karlene, uma mulher de 35 anos que é ativista na capital Kingston co-diretora do Fórum Jamaicano para Lésbicas, Pan-Sexuais e Gays (J-Flag), organização humanitária fundada em 1998.

Karlene --que não se identifica pelo sobrenome com medo de represálias na Jamaica-- está em viagem por várias cidades dos Estados Unidos, patrocinada pelo programa da organização americana OUTfront, vinculada à Anistia Internacional, para denunciar a violência homofóbica e constrangimentos que ocorrem na ilha-nação caribenha, tentando buscar apoio por aqui.

Karlene e Gareth, também co-diretor da J-Flag, que igualmente se identifica apenas pelo primeiro nome e que não posa para fotografias, falaram nesta segunda-feira (21/02), no Spelman College em Atlanta, onde eles descreveram o estigma, a intimidação e a violência que, segundo eles, os gays têm que enfrentar na Jamaica.

Ambos os palestrantes descreveram uma situação na ilha que é bem distante do idílico paraíso descrito nas brochuras turísticas.

Karlene, que trabalha para uma empresa de investimentos, disse que tem sido insultada e ridicularizada nas ruas jamaicanas. Ela diz saber de histórias de mulheres jamaicanas que foram estupradas devido a sua condição sexual.

Gareth, 27 anos, estudante na Universidade das Índias Ocidentais, disse que já foi espancado pela polícia e que uma vez testemunhou um linchamento --uma multidão raivosa espancou um homem gay tão furiosamente que ele veio a morrer devido aos ferimentos. Gareth disse que não pôde ajudar, por temer que a multidão viesse a lhe atacar também.

Ele disse que os gays jamaicanos têm sido marginalizados pelas famílias e pelas igrejas, e que perdem seus trabalhos quando sua orientação sexual é revelada.

"É um ambiente muito hostil e violento, onde as reações podem ir do ataque verbal até a morte", disse Gareth.

Celebrando uma morte

A organização pró-direitos humanos Anistia Internacional vem monitorando de perto a violência homofóbica na Jamaica. Em junho passado, num dos casos de maior repercussão, o ativista pró-direitos dos gays Brian Williamson foi linchado até a morte, na sua casa em Kingston.

Segundo reportagens e organizações de direitos humanos, uma multidão em júbilo dançou ao redor do corpo de Brian, celebrando a morte do "battyman", termo depreciativo (algo como "pervertido") que utilizam para caracterizar homens gays.

Enquanto os membros da comunidade gay consideram que esse foi um crime movido pelo ódio, a polícia investigou o caso como assalto ou assassinato cometido por outros membros da comunidade homossexual.

Segundo relatório de 81 páginas publicado ano passado pela organização pró-direitos humanos Human Rights Watch, a violência e o constrangimento contra gays e lésbicas na Jamaica aumentam em níveis alarmantes. A organização reivindicou mudanças jurídicas urgentes, inclusive a revogação das leis anti-sodomia do país.

O relatório criticou a polícia jamaicana, afirmando que às vezes são os próprios policiais que instigam a violência.

A organização pró-direitos humanos também afirmou que a homofobia jamaicana está impedindo o tratamento de pessoas com Aids ou com o HIV, vírus causador da doença. Segundo a organização, as pessoas têm medo de se identificar, temor que também atinge trabalhadores "suspeitos".

'Jeito errado . . . jeito certo'

Artistas e músicos como Beenie Man e Elephant Man são criticados por comporem letras anti-gay, mas também encontram muito apoio entre jamaicanos.

"A Jamaica é um país profundamente religioso", disse Derrick Scott, jornalista freelancer e membro de destaque da comunidade jamaicana em Atlanta. Ele disse que esse assunto é sensível, e não esconde que considera o homossexualismo como uma conduta errada.

"Se há pessoas que têm essa inclinação, bem, essa é a crença deles", diz Scott. "Não irei marginalizá-los. Mas isso está certo perante os olhos de Deus? Não. Isso não é algo que deva ser colocado num pedestal... Acho que deveriam dizer a esses caras, escutem, existe um jeito errado e um jeito certo."

Antoine Banks, cientista politico no Morehouse College e coordenador geral da divisão da Anistia Internacional nessa instituição acadêmica, acredita que as palestras em Spelman foram elucidativas.

"Eu não sabia o quanto a homofobia poderia ser grave e problemática em outros países", disse Banks. "É um assunto delicado e controverso. Espero que as pessoas vejam isso como uma questão de direitos humanos."

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    1,21
    5,388
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h19

    -1,33
    98.697,06
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host