Fazendeiros argentinos abrem as portas para o mundo

Mei-Ling Hopgood
Em San Antonio de Areco, Argentina

As planícies a cerca de 120 quilômetros a nordeste de Buenos Aires já foram o domínio do gaúcho, o orgulhoso e independente vaqueiro argentino. Gado e cavalos perambulavam pelo pasto; gerações de proprietários de terras viviam do alimento e da renda que suas fazendas produziam.

Até duas décadas atrás, a perspectiva de aceitar convidados pagos na casa de alguém parecia quase vergonhoso para alguns - um último recurso para famílias que eram incapazes de sustentarem a si mesmas.

Mas hoje esta também é a terra das excursões "Dia no Campo", onde os visitantes dormem em casas de fazenda no fim de semana, se enchem de churrasco argentino e brincam de vaqueiro por um dia em uma das muitas propriedades rurais deste país, conhecidas como estâncias.

Mais e mais proprietários de estâncias de toda a Argentina - das exuberantes planícies do norte, ou pampas, à paisagem desértica da Patagônia - estão ansiosamente abrindo suas portas para turistas, esperando lucrar com o boom do turismo aqui.

As irmãs Bessone receberam a sugestão de amigos que visitaram sua Estância Loma Pampa na província de Buenos Aires, e que lhes disseram: "Que bela estância! Que bela região!" Elas estão entre os vários que estão planejando abrir suas propriedades para os turistas nos próximos meses.

"O interior rural argentino passou por um renascimento nos últimos anos", disse Jose Santis, que dirige uma agência de turismo e o site www.estanciasargentinas.com. "O turismo internacional, os preços, a qualidade da atenção, o alimento e os vinhos. A Argentina está cada vez mais interessante."

Até março, cerca de 1.100 das mais de 2 mil estâncias da Argentina estavam aceitando turistas, segundo o governo. Buenos Aires realizará a primeira feira do país para promover o turismo de estâncias, em setembro.

A qualidade e a quantidade de ofertas variam enormemente, de um quarto em uma casa rudimentar de fazenda com banheiro compartilhado até uma luxuosa suíte com mimos em um spa dispendioso.

Para hóspedes como Virginia e Jean Pierre Gorgue, visitantes recém vindos de Wilton, Connecticut, alguns poucas noites na estância La Bamba - em San Antonio de Areco, a uma distância de uma hora e meia de Buenos Aires - é uma fuga relaxante. Elas andaram a cavalo, participaram de um jantar privado com a co-proprietária Isabel Aldao, e visitaram a pequena cidade próxima.

"Você tem algo autêntico de tudo", Virginia Gorgue disse. Os antigos colonos europeus dizimaram e expulsaram daqui as tribos indígenas e dividiram a vasta terra em estâncias, onde os gaúchos cuidavam de grandes rebanhos de gado e ovelhas.

Em algumas partes da Argentina, as grandes estâncias ainda florescem. Mas em muitos lugares, como a província de Buenos Aires, à medida que as terras foram passadas de geração em geração e foram divididas e vendidas, elas deixaram de poder sustentar famílias inteiras.

Este foi um dos motivos para Ricardo Julio Aldao ter sido um dos primeiros no país a abrir a estância da família para turistas em 1986. Ele esperava conseguir arrecadar o suficiente para pagar pela manutenção da casa e dos anexos em La Bamba, que datam dos anos 1830.

"Nós sabemos, graças aos nossos hóspedes, que continuaremos podendo visitar este lugar", disse Isabel Aldao, 41 anos, que é dona de La Bamba com seus irmãos e irmãs.

O preço é de US$ 200 por noite para convidados comerem e usarem um dos quartos pitorescos no lar onde Isabel cresceu. Apesar da família não poder viver da renda, os negócios cobrem os reparos e reformas; mais dois quartos serão acrescentados em breve.

"Hoje este é um negócio realmente viável", disse Aldao. "Pelo menos por ora."

A desvalorização do peso em 2001 devastou muitas indústrias e as economias pessoais de muitos argentinos. Mas o turismo e a agricultura estão entre os setores que prosperaram.

Os turistas estrangeiros que antes não podiam arcar com os luxos de Buenos Aires começaram a chegar em peso, e os argentinos de classe média que passavam férias em Miami ou na Espanha optaram por ficar em casa e visitar o interior do país. Enquanto isso, os produtos agrícolas argentinos, como sua famosa carne bovina e soja abundante, se tornaram mais competitivos nos mercados estrangeiros.

Apesar de algumas estâncias sobreviverem exclusivamente do turismo, a maioria espera ganhar o suficiente para ajudar a manter a propriedade e complementar sua renda.

Este é o motivo para os proprietários da Estância Juanita terem aberto seus sete quartos em janeiro de 2004. Há cerca de 120 anos, a terra onde a estância se encontra fazia parte de uma fazenda produtiva de 21 mil hectares, onde o gado pastava e as plantações abundavam.

Ao longo dos anos, as terra em El Partido de Chascomus, a 120 quilômetros ao sul de Buenos Aires, foram vendidas e divididas. Após assumir a estância em 1926, a família Sola manteve uma fazenda produtora de leite lá, mas grandes enchentes em 1993 arruinaram os negócios.

Como em muitas estâncias, Juanita há muito recebe hóspedes - parentes e amigos dos amigos. Mas Maria Elena Sola e seu marido, Norberto Badano, decidiram que as construções históricas e a sua proximidade com um lago pitoresco poderiam atrair visitantes pagantes.

No ano passado, eles receberam cerca de 450 convidados, que pagaram aproximadamente US$ 65 por noite por quartos, bebidas e refeições preparadas com ingredientes produzidos na fazenda. A família continua cultivando blueberries e criando gado, cabras e outros animais nos cerca de 198 hectares que possuem.

Badano ainda trabalha como advogada em Buenos Aires, mas Sola, que já trabalhou como professora de inglês, tem conseguido dedicar seu tempo à estância.

"As enchentes nos atingiram duramente, e não fomos capazes de tirar proveito da rentabilidade destas terras", disse Badano. Mas agora, "e cada dia mais e mais, (o turismo) representa uma forma interessante para mantermos um modo de vida muito agradável". George El Khouri Andolfato

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