Para os recém-nascidos africanos, muitas armadilhas no caminho para a sobrevivência

Raymond Thibodeaux
Em Nairóbi, Quênia

Com apenas duas horas de idade, Wanjiru tem o tamanho de um pacote de pão de forma. Seus olhos ainda estão inchados após despertar para seu nascimento e antes de voltar a dormir.

O fato de ter um nome é um sinal da confiança de sua mãe de que este bebê, seu segundo, sobreviverá ao ano.

Para Monica Njeri e milhares de outras novas mães dando à luz diariamente por todo o continente africano, a maternidade é repleta de riscos. Apesar dos bilhões de dólares em ajuda ocidental nas últimas décadas para ajudar a melhorar o padrão de vida na África, as crianças africanas ainda são vulneráveis demais à morte por desnutrição, malária ou Aids, de forma que os recém-nascidos freqüentemente nem recebem nomes em seu primeiro ano.

"Minha esperança para esta criança é que viva mais do que eu", disse Njeri, 23 anos, ainda um pouco grogue após mais de 14 horas de trabalho de parto. "Eu quero que ela seja uma médica ou professora, para que possa ajudar outras pessoas."

Monica e sua minúscula filha dispõem de uma cama só para elas, o que é incomum na maternidade do Hospital Pumwani, em Eastleigh, uma das várias favelas imensas nos arredores de Nairóbi, a capital do Quênia. Muitas mulheres nesta maternidade dividem uma mesma cama de solteiro, duas em cada ponta, com seus bebês deitados entre elas.

As crianças do Quênia têm uma chance de 5% de morrer - uma probabilidade boa para os padrões africanos. No Quênia, visto por muitos como a âncora financeira do Leste da África, quase 100 crianças morrem diariamente de doenças, segundo números da ONU.

Em algumas partes da África - no Sudão, por exemplo - as chances de morrer são de mais de 10%.

No Quênia, como na maioria dos continentes, o verdadeiro feito é passar dos 5 anos. A taxa de mortalidade para crianças com menos de 5 anos é 10 vezes maior na África do que no mundo desenvolvido.

Este é um dos problemas que os líderes do Grupo dos Oito países mais industrializados esperam resolver aumentando a ajuda para a África e cancelando US$ 40 bilhões em dívidas dos 14 países mais pobres do continente.

Muitos líderes africanos alegam que seus governos estão atolados demais no pagamento das dívidas - freqüentemente contraídas por regimes corruptos que há muito tempo foram derrubados ou tirados do poder pelo voto - para financiar adequadamente programas de saúde e agricultura capazes de melhorar a vida do africano comum.

Os líderes do G8 dizem que o aumento da ajuda e o fim da dívida deverão liberar mais dinheiro para estradas, expansão da rede elétrica, água limpa e clínicas de saúde, além do fornecimento de alimentos para as famílias pobres.

"Nós sempre nos preocupamos com estes bebês, considerando as condições de vida para as quais voltarão", disse a irmã Lucy Kigwe, vice-supervisora do hospital Pumwani onde Njeri deu à luz. "Esta criança parece ter mais sorte do que a maioria. Ainda assim, ela voltará para a favela onde seus pais vivem, e criar uma criança nestas condições é difícil. Há pobreza em cada canto."

Njeri e seu marido, Wanjohi, 28 anos, se casaram dois anos atrás e se mudaram para Nairóbi vindos de Muranga, no Vale Rift, ao norte de Nairóbi.

Como vendedor ambulante no centro de Nairóbi, Wanjohi ganha em média cerca de 3 mil xelins quenianos por mês, ou aproximadamente US$ 26, mais da metade gastos com o aluguel de sua casa em Mathare, uma das maiores favelas de Nairóbi.

Um dia após o nascimento, Njeri levará sua pequena filha para casa, onde conhecerá seu irmão de 18 meses, Samuel. A família vive em um quarto de 3 por 3,5 metros. Ele tem eletricidade, mas a água é tirada de um córrego próximo e precisa ser fervida antes de ser bebida.

Não surpreende que uma mãe com a confiança e experiência de Njeri insista no uso de mosquiteiros, que eliminam um grande fator de risco para morte de crianças.

Menos de 15% das crianças africanas dormem sob mosquiteiros, e menos de 5% dormem sob mosquiteiros tratados com inseticidas, o que leva a uma das mais tristes estatísticas do continente: na África sub-Saara, a malária mata uma criança a cada 30 segundos.

Njeri e Wanjohi cultivam milho, batata e feijão em um pequeno terreno perto de sua casa. Mas não é o suficiente, o que os força a gastarem grande parte do restante de sua renda em alimento, principalmente em farinha de milho e uma verdura parecida com espinafre. Para eles, comida é para encher a barriga, não para o paladar.

A vida ou morte de Wanjiru dependerá do leite materno de Njeri, já que a maioria das mães africanas não pode comprar as fórmulas para bebês disponíveis no Ocidente. As mulheres que não conseguem amamentar buscam a ajuda de parentes com recém-nascidos.

Os médicos e enfermeiras na maternidade de Eastleigh realizam entre 50 e 70 partos por dia. É uma das maternidades mais baratas na cidade, cobrando cerca de US$ 15. O preço dobra em caso de cesariana ou parto induzido.

A maioria das mães na maternidade é adolescente. Algumas estão aqui para seu segundo ou terceiro filho. Meninas com 14 anos aparecem com freqüência, e muitas delas necessitam de cesariana porque seus corpos são pequenos demais para o parto natural.

Durante os exames de sangue exigidos nos hospitais e clínicas durante a gravidez, algumas mães descobrem que são portadoras do HIV -uma sentença de morte em grande parte da África, onde apenas uma fração minúscula da população tem acesso aos medicamentos retrovirais.

Muitos maridos nunca visitam a maternidade porque não podem pagar pelo parto. "É triste o fato de muitas garotas permanecerem na maternidade por semanas. Seus maridos ou estão trabalhando ou caso contrário não querem pagar", disse Kigwe, a supervisora assistente da maternidade. "Estas mulheres eventualmente são enviadas para casa. Nós temos que perdoar suas dívidas, cientes de que elas nunca poderão pagar a conta."

A maternidade de Pumwani perde cerca de um décimo de sua receita com pacientes que não pagam.

Muitos dos funcionários do hospital já ficaram mais de dois meses sem serem pagos. A falta de manutenção no hospital está começando a aparecer: janelas trincadas, paredes encardidas, uma barata ocasional correndo pelo piso da maternidade.

A câmara dos vereadores de Nairóbi, que paga grande parte dos US$ 15 mil por mês de custos operacionais do hospital público, deve ao hospital mais de US$ 1,2 milhão.

A própria câmara está envolvida em um escândalo de corrupção, com funcionários acusados de desviar mais da metade de seu orçamento, estimado em mais de US$ 200 milhões por ano. Tal dinheiro deveria ser gasto em educação, saúde e obras públicas como água e saneamento.

"Nossos governos já recebem bastante dinheiro em ajuda, mas quanto disto vai para os bolsos de ministros do governo e quanto pinga para as mães pobres e seus bebês?" perguntou o dr. Peter Ngatia, diretor da Amref, uma das principais organizações médicas não-governamentais.

"Vamos ser francos com nós mesmos, o perdão da dívida e uma maior ajuda sozinhos não vão ser de ajuda sem um bom governo e transparência", disse ele.

As esperanças de Njeri para sua filha são ambiciosas, especialmente em um continente onde o desemprego é imenso e até mesmo aqueles com emprego ganham menos de US$ 2 por dia.

Njeri e Wanjohi concluíram o equivalente à 5ª série antes de seus pais os tirarem da escola porque não tinham dinheiro suficiente para o ensino. É um problema comum entre muitos quenianos; apenas 30% deles chegam ao equivalente ao colegial.

Wanjohi disse que tenta se instruir escutando ao rádio e lendo os dois principais jornais de Nairóbi. Ele tem acompanhado a publicidade em torno dos esforços de astros do rock ocidentais como Bono do U2 e sir Bob Geldof para persuadir os líderes do G8 a cancelarem a dívida da África e aumentarem a ajuda.

Para ele, os líderes dos países mais ricos do mundo estão fora de contato com a realidade dos africanos comuns. "As pessoas que decidem tais coisas não sabem como é realmente viver aqui", disse Wanjohi, fazendo uma pausa para outro olhar sorridente para sua nova filha. "Mas o bom é que os olhos deles estão voltados para a África e isto ajudará, cedo ou tarde." George El Khouri Andolfato

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