Bush promete a Nova Orleans um dos maiores esforços de reconstrução da história

Bob Dart e Ken Herman
Em Nova Orleans

Falando de uma praça assustadoramente silenciosa no limite do famoso Bairro Francês, o presidente Bush esboçou um enorme plano de reconstrução para Nova Orleans na noite desta quinta-feira (15/09), mas evitou estimar o custo. "Não há como imaginar a América sem Nova Orleans, e esta grande cidade se erguerá de novo", disse ele na Jackson Square, prometendo um esforço com direcionamento local e recursos federais no qual "nós não apenas vamos reconstruir, nós a tornaremos maior e melhor".

Doug Mills/The New York Times 
Presidente reitera que assume a responsabilidade pela demora na ajuda a vítimas depois da passagem do Katrina
Bush mesclou otimismo com o futuro da cidade com uma avaliação franca de seu apuro atual. "Eu estou falando a vocês da cidade de Nova Orleans, quase vazia, ainda parcialmente debaixo d'água e aguardando pelo retorno da vida e da esperança", disse ele.

O renascimento da cidade, disse Bush, será o resultado de "um dos maiores esforços de reconstrução que o mundo já viu" e ele disse que terá início com os esforços para retirada das pessoas dos abrigos e a transferência delas para moradias temporárias. Ele estabeleceu uma meta de meados de outubro para conseguir isto e notou que lares móveis e trailers estão sendo comprados para este fim, e que moradias são urgentemente necessárias para o pessoal de emergência.

Bush ofereceu três planos de recuperação sem estabelecer um custo para qualquer um deles.

  • Uma "Zona de Oportunidade no Golfo", com incentivos fiscais e outros para investimentos que criem empregos.

  • "Contas de Recuperação do Trabalhador" de US$ 5 mil por pessoa para custeio de ensino profissionalizante e creches.

  • Uma "Lei de Imóveis Urbanos" na qual imóveis de propriedade federal seriam oferecidos como locais de construção --sem custo-- para cidadãos de baixa renda.

    Em Washington na quinta-feira, a Câmara e o Senado aprovaram projetos quase idênticos para permitir que as vítimas façam uso das contas de aposentadoria sem penalidade e ajudar pais e famílias pobres a manter seus créditos de impostos. Os senadores também votaram vouchers [subsídios federais] de aluguel de imóveis e medidas de ajuda para pequenas empresas.

    O discurso de Bush foi feito enquanto as pesquisas mostram sua popularidade no ponto mais baixo de sua presidência, com várias pesquisas mostrando que apenas 40% da população acredita que ele está fazendo um bom trabalho.

    A caminho de Nova Orleans, Bush parou em Pascagoula, Mississippi, durante sua quarta viagem à região atingida pela tempestade. Ele se encontrou com autoridades locais e estaduais e diretores de refinarias.

    Em Nova Orleans, ele falou em uma praça iluminada com energia de um gerador da Casa Branca trazido ao local. As ruas ao redor estavam no escuro.

    Seu discurso terminou com uma nota de otimismo, moldada segundo a imagem dos famosos funerais com jazz da cidade, na qual a procissão segue lentamente pelas ruas em uma nênia pesarosa que se torna uma "segunda parte" animada, simbolizando o triunfo do espírito, após o caixão ser depositado.

    "Nesta noite, a Costa do Golfo ainda está passando pela nênia, mas nós viveremos para ver a segunda parte", disse ele.

    O discurso do presidente concluiu um dia no qual o prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, anunciou que porções significativas da cidade sitiada seriam reabertas em breve. Nas palavras de Nagin, Nova Orleans "começará a respirar de novo".

    Bush disse que o país precisa se preparar melhor para um desastre, seja natural ou provocado pelo homem. Apesar dos melhores esforços, ele disse, "o sistema, em todos os níveis de governo, não foi bem coordenado e foi sobrepujado nos primeiros poucos dias".

    Ele pediu por uma maior autoridade federal e um maior papel das forças armadas em tais catástrofes.

    "Quando o governo federal fracassa em cumprir tal obrigação, eu, como presidente, sou responsável pelo problema e pela solução", disse ele, acrescentando que ordenou aos membros do Gabinete que avaliem a resposta. "Este governo aprenderá as lições do furacão Katrina."

    Bush disse que Nova Orleans e as outras cidades da Costa do Golfo destruídas pelo furacão Katrina serão reconstruídas "de forma sensível, bem planejada" com dinheiro federal e alta contribuição das autoridades locais e estaduais.

    "Quando este trabalho estiver concluído, todos os americanos terão algo de que se orgulhar, e todos os americanos serão necessários neste esforço comum", disse ele.

    Bush disse que leis locais de zoneamento e códigos de construção terão que ser revisados "para evitar uma repetição do que vimos".

    Ele também pediu que as cidades sejam reconstruídas de forma a evitar outros problemas que ficaram evidentes pelo impacto desproporcional da tempestade sobre os pobres.

    "Como todos nós vimos na televisão, também há uma pobreza profunda e persistente nesta região", disse ele após notar a beleza da Costa do Golfo. "E tal pobreza tem raízes em uma história de discriminação racial, que afastou gerações da oportunidade da América."

    Ele pediu por ruas reconstruídas com mais negócios de propriedade de minorias e mais moradias próprias, não alugadas.

    "Nós queremos que os refugiados voltem para casa pelo melhor dos motivos, porque eles têm uma chance real de uma vida melhor no local que amam", disse Bush.

    Além de delinear uma estratégia de reconstrução, Bush expressou condolências pelas vítimas e apreço por aqueles que têm ajudado. Ele também prometeu descobrir o que saiu errado no desajeitado esforço de resposta do governo, que expôs a vulnerabilidade do país a um desastre, seja ele natural ou provocado pelo homem.

    Bush também falou diretamente para centenas de milhares de moradores da Costa do Golfo, que fugiram da tempestade e não sabem quando, ou se, voltarão.

    "Vocês precisam saber que toda nossa nação se preocupa com vocês e que na jornada à frente vocês não estão sozinhos", disse ele, acrescentando uma "promessa do povo americano".

    "Por toda a área atingida pelo furação, nós faremos o que for necessário, nós permaneceremos por quanto tempo for necessário, para ajudar os cidadãos a reconstruírem suas comunidades", disse ele.

    Contida, mas não citada, na promessa está o compromisso de gastar o que for necessário, mas Bush não falou em números na noite de quinta-feira. Assessores disseram que é cedo demais para fazer tais levantamentos, mas que os US$ 62 bilhões em ajuda de emergência que o Congresso aprovou é pouco mais do que uma pequena entrada.

    Alguns estimam que os gastos federais no desastre poderão chegar a US$ 300 bilhões, sem contar os impactos econômicos como os 400 mil empregos que o Escritório de Orçamento do Congresso estimou que foram eliminados pelo Katrina.

    Bush disse que trabalhará com o Congresso para assegurar que os Estados sejam reembolsados dos altos custos de receberem os refugiados do furacão.

    Custos financeiros e políticos

    A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional declarou na quinta-feira que o Katrina foi o furacão mais destrutivo a atingir o país. O total de danos ultrapassa os US$ 21 bilhões em perdas seguradas, corrigidas pela inflação, provocados pelo furacão Andrew em 1992.

    O valor projetado para a reconstrução preocupa algumas organizações e legisladores conservadores.

    "Claramente a terrível tragédia resultante da devastação causada pelo furacão Katrina exigirá o gasto de recursos federais substanciais, e todos os americanos apóiam este esforço de ajuda", disse David Keene, o presidente da União Conservadora Americana. "Mas a idéia de que o Congresso deva gastar dezenas de bilhões de dólares neste esforço de ajuda, na ausência de uma repriorização geral dos gastos federais, não faz sentido nenhum."

    O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse que o governo não tem planos de reduzir suas iniciativas orçamentárias --incluindo a continuidade dos cortes de impostos temporários-- em conseqüência do programa de reconstrução.

    Josh Bolten, diretor do Escritório de Administração e Orçamento, disse no início deste mês que ele não acha que "o fardo adicional sobre o orçamento federal provocado por este desastre não minará a médio e longo prazo nosso esforço para redução do déficit" dentro da meta estabelecida por Bush de redução significativa até 2009.

    Dan Bartlett, conselheiro do presidente, disse que, por ora, há apenas uma estratégia de gastos que faz sentido.

    "O fato é que quando nossa nação enfrenta este tipo de emergência, infelizmente é necessário que gastemos de forma deficitária", disse ele ao programa "Good Morning America" da rede ABC. "Não é algo que alguém em Washington, ou em qualquer lugar, gosta de fazer, mas é necessário."

    Os democratas disseram que pode haver outros caminhos a seguir.

    "Apesar de estarmos falando em economizar dinheiro, talvez nós devêssemos fazer os republicanos considerarem a não necessidade de adicionar US$ 70 bilhões em redução de impostos para os mais ricos do país", disse o líder da minoria no Senado, Harry Reid, democrata de Nevada.

    Apesar de Bush ter pregado a unidade, o partidarismo reinava nos corredores do Congresso.

    "Vamos ser claros sobre o que representou o Katrina --um fracasso de liderança", disse Reid, acrescentando: "Quando as águas da inundação invadiram a Costa do Golfo da América, o governo da América ficou sentado em suas mãos".

    Howard Dean, o presidente do Comitê Nacional Democrata, alertou Bush contra o uso do Katrina para "promover mudanças regulatórias suspendendo proteções ambientais e reversão de direitos dos trabalhadores".

    Reid e a líder da minoria na Câmara, Nancy Pelosi, democrata da Califórnia, pediram que uma comissão independente investigue a resposta do governo ao Katrina. Bush disse que liderará uma investigação.

    Os líderes democratas também pediram por um "Plano Marshall para os Estados do Golfo", seguindo o modelo do plano usado pelos Estados Unidos para ajudar a reconstruir a Europa pós-Segunda Guerra Mundial, incluindo lares, empresas, escolas e infra-estrutura.

    Recuperação gradual

    O plano imediato para Nova Orleans inclui a permissão para que os moradores de Algiers, do outro lado do Rio Mississippi, voltem aos seus lares na segunda-feira, segundo Nagin. Mais adiante na semana, os moradores da áreas Uptown e Garden District serão autorizados a voltar.

    Nagin disse que o famoso Bairro Francês será reaberto em 26 de setembro.

    "O Bairro Francês está seco e sentimos que ele dispõe de boa capacidade de eletricidade", disse Nagin, "mas pelo fato de ser tão histórico, nós queremos checar duas, três vezes antes de fornecermos toda a eletricidade, para assegurarmos que, como todos os prédios são muito próximos, em caso de incêndio nós não perderemos uma parte significativa do que apreciamos nesta cidade".

    Cerca de 182 mil dos 500 mil moradores de Nova Orleans vivem nas áreas que serão reabertas. Tais áreas sofreram pouco ou nenhum dano pela inundação.

    "Minha sensação no momento é que poderemos receber 250 mil pessoas ao longo dos próximos três a seis meses, e então começaremos a progredir com o tempo até chegarmos ao meio milhão que tínhamos, quem sabe ultrapassar", disse ele.

    Os proprietários de negócios serão autorizados a entrar no distrito comercial central da cidade neste fim de semana para checar suas propriedades, mas Nagin não disse quando serão autorizados a reabrir.

    Do outro lado da Jackson Square, na quinta-feira, não havia indício de quando o Café du Monde voltará a servir seu "café au lait" e "beignets" novamente. Mas a duas quadras dali, os proprietários do Hillery's na Toulouse disseram que esperam estar servindo jantares na segunda-feira se a eletricidade for restabelecida.

    A dona do restaurante, Hillery Moise, disse que o governo federal precisa intervir junto às seguradoras. Ela disse que a cobertura do restaurante para lucros cessantes está sendo contestada porque não prevê especificamente o pagamento por fechamento provocado por evacuação obrigatória.

    "O maior desafio será a economia da cidade", disse Ed Moise, seu marido e sócio. "Todos os ovos estavam em uma única cesta --o turismo. Eles terão que dar um empurrão na economia daqui. Incentivos fiscais e outros empréstimos federais são duas formas de ajudar."

    John Casbon, que comanda a First American Title Insurance Company no Bairro Francês, disse que o governo federal terá que construir "um sistema de diques de qualidade mundial" para proteger Nova Orleans. Sem isto, ele disse, as grandes corporações resistirão em investir e se instalar em uma cidade ainda vulnerável.

    "Nós não queremos um trabalho de remendo", disse ele.

    Casbon, presidente da Comissão da Polícia de Nova Orleans, disse que a cidade também precisa de um "departamento de polícia de qualidade internacional". Alguns oficiais ainda estão vestindo a mesma roupa que estavam usando no dia do furacão, disse ele.

    No Evelyn's Place, onde o cardápio oferece gumbo e muffaletta, Evelyn Redman falou da forma mais generalizada.

    "É bom que Bush cuide de nós", disse ela. "Ele o fará. Eu votei nele. Eu acho que sou a única republicana restante no Bairro Francês."

    Enquanto Nova Orleans iniciava seu longo e difícil caminho rumo à retomada da normalidade, havia outros lembretes na quinta-feira de que este será um processo de longo prazo para a região. A governadora da Louisiana, Kathleen Blanco, adiou por tempo indeterminado as eleições marcadas para outubro e novembro em Nova Orleans e áreas vizinhas. Mas o presidente não fala de gastos, que podem alcançar US$ 300 bi George El Khouri Andolfato
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