Desespero aflige Nova Orleans

Bob Dart
em Nova Orleans

Não está melhorando, dizem as pessoas, em palavras sempre tingidas de cansaço, algumas vezes, amargura.

"Ainda parece o dia seguinte ao furacão", disse Phyllis Funches, que estava limpando o lixo de um vizinho na Ninth Ward. "Ainda está uma bagunça danada. Meus filhos estão na Flórida. Não há escola para eles aqui. E saúde? Tem um hospital aberto, mas não atende meu plano. Parece que cada um tem que se virar sozinho."

"Qual recuperação?" perguntou Roseann Daroca, de cabelos grisalhos, que estava voltando pela primeira vez a sua casa mofada e mal cheirosa no distrito de St. Bernard. "Agora moro na Flórida com minha filha."

Quando deixou sua casa, no final de agosto, justo antes de o Katrina chegar, ela deixou um anjo na mesa da sala de jantar para evitar problemas.

"Não consigo encontrá-lo", disse ela com tristeza, em pé no meio das ruínas encharcadas de sua vida.

Quase quatro meses desde que o Katrina atingiu a cidade, as esperanças parecem ter deixado a morada do jazz junto com centenas de milhares de cidadãos que não podem voltar para suas casas arrasadas pela tempestade.

Agora moram em Houston, Baton Rouge e Atlanta e dezenas de outros lugares que não são Nova Orleans. Muitos que ficaram ou voltaram estão desiludidos e desanimados com o ritmo da recuperação e com as dificuldades diárias da vida em uma cidade abandonada.

"Há desespero. A devastação foi tão profunda que as pessoas não sabem por onde começar", disse Lawrence Powell, professor de história na Universidade de Tulane, fechada pelo Katrina.

Ainda há lixo em toda parte. O governo estadual adverte que levará outro ano para recolher todos os destroços no sudeste de Louisiana -sem contar o que virá da derrubada de milhares de casas inabitáveis.

Fora o centro da cidade e o bairro francês, que têm movimento, há quadras e quadras de bairros fantasmas que continuam assustadoramente às escuras.

"É como se uma bomba atômica tivesse caído em torno de Chalmette. Você passa por lá e vê as casas vazias e se pergunta: 'Para onde foram todos?'", disse David Belfield, advogado de Nova Orleans que hoje mora em Lawrenceville, Geórgia.

Os que têm sorte moram em casas com telhados danificados cobertos de lonas azuis fornecidas pela Agência Federal de Emergência (Fema) ou nos trailers da agência estacionados em seus quintais. Outros moram em acampamentos ou motéis ou em colchões nas casas de amigos e parentes.

A população da cidade "pré-K", de cerca de 485.000, encolheu para 140.000 hoje, estima-se.

"Estamos prestes a perder Nova Orleans", opinou o New York Times no editorial "A Morte de uma Cidade Americana".

"Talvez seja um plano consciente, de deixar a cidade apodrecer até que ninguém queira voltar, ou talvez seja uma paralisia honesta em torno de questões difíceis, mas estamos em um ponto em que uma importante cidade americana vai morrer, deixando nada além de algumas fachadas para os turistas visitarem", escreveram os editores.

Em Washington nesta semana, o presidente Bush requisitou US$ 1,5 bilhão (em torno de R$ 3,3 bilhões) a mais para reforçar o sistema de comportas que falhou e deixou a cidade alagar, dobrando a quantia original. O prefeito Ray Nagin disse que o pedido do presidente enviava uma mensagem para os moradores: "Voltem para Nova Orleans".

Mas depois de esperar em vão pelas promessas do governo de fato melhorarem suas vidas, os cidadãos sofridos estão reticentes. "Não estou desapontado com os americanos em geral, mas gostaria de ver menos acusações no Congresso. Nesta altura, quem liga para quem deixou a peteca cair? Que consertem. Parece que estamos esperando demais", disse Funches.

"Moradia é uma grande questão aqui", explicou. "Há um trailer da Fema bem ali naquele lote. E não tem ninguém morando nele. Por que? Ainda assim as pessoas estão sem casa, indo de parente para parente."

As camisetas vendidas no bairro francês demonstram o estado de ânimo. Uma delas diz: "Natal de telhado azul do Katrina, estrelando Os Três Trapalhões - Ray Nagin, Kathleen Blanco e Aaron Broussard." Blanco é o governador de Louisiana e Broussard é presidente do condado de Jefferson, que enviou os funcionários das estações de bombeamento para casa antes do Katrina.

Outra camiseta traz a pergunta: "Onde está a Fema? Sumiu de novo". Outra implora: "Esqueça Bagdá. Reconstrua Nova Orleans."

O esforço de recuperação "tem sido uma perfeita tempestade de indiferença, incompetência e faltas do governo", disse Powell, professor de Tulane. "É o que acontece quando um governo inexistente faz ainda menos."

Moradores da cidade se uniram em meio aos temores de que foram esquecidos pelo resto do país. JoAnn Clevenger, proprietária do restaurante Upper Line, nos limites do distrito Garden, vê a fraternidade dos cidadãos nos abraços emocionados que se tornaram comuns entre os sobreviventes do Katrina.

"É tristeza misturada com alegria, uma forma de conexão. A estrutura de nossas vidas foi rompida", diz ela. "Todo mundo se beija e abraça. As coisas não são tão fáceis quanto eram na 'Big Easy'".

As pessoas sabem que "somos notícia antiga" para o resto do país, disse Leslie Francis, que voltou para sua casa na Ninth Ward.

Blanco expressou as frustrações no Estado para um comitê do Congresso na semana passada: "Lá em Louisiana, nosso povo vê o noticiário e ouve sobre uma coisa chamada fadiga do Katrina. Ouvimos dizer que Washington está cansada de falar da tempestade e dos problemas do povo de Louisiana. Bem, nós também estamos cansados", disse ela. "Estamos cansados das lágrimas. Estamos cansados do sofrimento. Estamos cansados de ficar fora de nossas casas e escritórios. Estamos cansados da separação de nossas famílias. Tudo isso porque as comportas não funcionaram."

"Não queremos piedade, queremos um pouco de ajuda", disse ela.

No quintal de uma casa arrasada na cidade vizinha de Arabi, David Daroca Jr. não conseguia conter sua ira com o que aconteceu com sua mãe e pai. Eles salvaram alguns itens -alguns ornamentos de Natal e quinquilharias, mas a coleção de fitas de vídeo dos jogos dos New Orleans Saints foi arruinada e o vídeo de sua festa de 50 anos sumiu.

O casal, porém, quer voltar para casa.

Eles pediram um trailer da Fema para morarem no quintal enquanto consertam a casa -assumindo que a sub-prefeitura não mande demoli-la.

No entanto, a Fema vem adiando repetidamente a entrega do trailer, disse a família. "Eles são rápidos na hora de levar os impostos no final do ano", observou o filho.

Tradução: Deborah Weinberg

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