Oscar 2006 premia mais filmes com significado

Phil Kloer
The Atlanta Journal-Constitution
Cox News Service, em Atlanta

No meio do filme "Capote", o amante do famoso escritor mostra-se preocupado com a propensão de Truman Capote (1924-1984) a se tornar cada vez mais manipulador, com o objetivo de obter as informações das quais ele precisa para o livro que ele está escrevendo - "A Sangue Frio".

"Tome muito cuidado com o que anda fazendo para conseguir o que você quer", diz ele a Capote. É uma réplica que soa simples, mas, de fato, a moralidade pode ser tão simples assim, em certos casos. E complexa, em outros.

Se o exercício de analisar as nomeações para o Oscar tornou-se um jogo de níveis múltiplos, o que dizer dos leilões de apostas em Las Vegas, das intensas campanhas desenvolvidas pelos estúdios, das especulações de bastidores e das intermináveis manifestações de opinião sobre as atuações, as direções, os roteiros, etc. Contudo, um dos aspectos mais raramente ou nunca discutidos diz respeito aos pontos de vista morais dos filmes indicados.

Mais do que de costume, neste ano as cinco fitas indicadas para melhor filme estão tentando dizer alguma coisa. Alguns observadores colocam-nos no mesmo saco com as etiquetas "tendenciosos" e "orientados para a esquerda", acusando-os de reproduzir com estardalhaço certos estereótipos da indústria do filme.

Mas, se considerados como um todo, eles abordam efetivamente um maior número de questões vinculadas a sensibilidades liberais do que de costume. Além disso, existe também uma dinâmica maior em ação, que está muito distante da mera redução.

Então, antes de se instalar confortavelmente para a noite de entrega do Oscar, neste domingo (5/3), vale reservar um breve momento do seu tempo para considerar os valores que estão em ação nos indicados para melhor filme.

"O Segredo de Brokeback Mountain": Tudo depende do time no qual você estava jogando antes de se instalar na poltrona da sala escura. Se você tiver problemas morais com a homossexualidade, nada irá demovê-lo da sua convicção de que este filme não passa de fruto da agenda pró-gay que Hollywood resolveu promover ultimamente.

Se você for um simpatizante dos gays, "Brokeback" pode despontar como uma afirmação dolorosamente necessária e bela do amor, mas que é rejeitada pela sociedade. No ambiente atual, "Brokeback" tinha tudo para ser politizado, mas basta assistir ao filme para perceber que não há absolutamente nada político nele. É uma história de amor, que é, sobretudo, profundamente humana.

Até mesmo aqueles que podem se sentir pouca à vontade com algumas das cenas deveriam ser capazes de reconhecer isso. Os "caubóis gays", conforme eles foram pejorativamente chamados, seguem perseverando, tentando fazer com que a sua vida e seu amor dêem certo, mesmo se fica claro logo no decorrer da ação que a história não terá um final feliz. Vale a pena celebrar esta perseverança.

"Capote": O filme focaliza a maneira com que Capote escreveu sua obra-prima, "A Sangue Frio", que o conduziu a se tornar amigo de dois homens que haviam assassinado os membros de uma família de fazendeiros na Kansas, durante um assalto em 1959. O ponto moral principal do filme parece ser até onde Capote será capaz de ir para obter que o mais vulneráveis dos matadores, Perry, lhe confesse os detalhes dos assassinatos de modo que ele possa redigir o final do seu livro. O filme parece estar dizendo que Capote "usou" Perry para os seus próprios propósitos comerciais, o que é em parte verdadeiro, até onde a história vai.

Mas o enredo cria uma obsessão tão grande em torno da manipulação de Capote (porque é neste ponto que o conflito ocorre) que ele parece se esquecer de que a pessoa que está sendo manipulada atirou a sangue frio e matou quatro pessoas inocentes durante um assalto no qual a quantia roubada não passou de US$ 50. O livro de Capote mostrou-se simpático ao encontro de Perry, e o filme, que acompanha a história de um ângulo diferente, também parece demonstrar simpatia pelo personagem. Talvez "Capote" esteja tão impressionado pela palha que está no olho do autor que ele se esquece da viga que está no do matador.

"Crash - No Limite": Há mais questões complexas, contradições, dilemas e dúvidas em "Crash" do que em todos os outros quatro indicados juntos. O drama acompanha uma dúzia, mais ou menos, de personagens cujas vidas se cruzam ao longo de 36 horas em Los Angeles, enquanto eles lutam contra acidentes de trânsito, roubos de carros, fuziladas, drogas, medo, cólera, racismo e, o pior de tudo, contra as zonas de sombra que assombram sua própria personalidade (O trailer do filme traz a seguinte chamada: "Se você acha que sabe quem você é, você não sabe de nada").

Só porque "Crash" é ambientado em Los Angeles e que ele lida com racismo, não pense que você já sabe do que se trata. O filme livra-se facilmente dos obstáculos políticos ao enveredar para algo mais profundo, mais assustador e mais espinhoso. É o caso de Sandra Bullock, que se dá conta de que todos os dias de manhã ela andou acordando cada vez mais irritada, sem nenhuma razão plausível. Ou do rapper Ludacris, que encarna um rufião confrontado a um dilema moral inesperado. Ou de Matt Dillon, que é ao mesmo tempo um racista malvado e um improvável herói com nó na garganta. É preto e branco com nuvens cinzentas do começo ao fim.

"Boa Noite, e Boa Sorte": Este é fácil, você concorda? O jornalista Edward R. Murrow assumiu uma atitude corajosa e honrosa ao dizer "Já chega!" para as ameaças fora de controle do senador Joseph McCarthy. O consenso da história é o de que Murrow foi realmente um herói neste caso e que McCarthy precisava mesmo levar uma descompostura. Mas, talvez não seja tão simples assim.

Em primeiro lugar, o verdadeiro herói de "Boa Noite e Boa Sorte" talvez não seja necessariamente Murrow, que carregava boas doses de espetáculo e de mártir na sua personalidade. Talvez seja na verdade William Paley, o presidente da CBS, que nutria dúvidas profundas em relação aos planos de Murrow, mas que o deixou ir em frente. Eventualmente, Paley optou pela lucratividade em detrimento da cruzada jornalística, mas, no momento em que este filme se desenrola, ele deu todo apoio ao seu funcionário.

Em segundo lugar, George Clooney, que escreveu o roteiro, dirigiu e co-estrelou o filme, tem deixado bem claro que pretendia abordar o estado de espírito do país durante a era McCarthy como uma alegoria dos dias de hoje na América. Isso confere ao filme uma ressonância muito maior do que, por exemplo, "Capote".

"Munique": Três salvas de palmas para a ambivalência moral! Tá legal, que tal uma salva e meia de palmas? Steven Spielberg, filmando a partir de um script de Tony Kushner, contou a história de como uma equipe de assassinos israelenses perseguiu e matou os palestinos responsáveis pelo massacre de atletas israelenses durante as Olimpíadas de 1972. Ao longo do caminho, tanto os matadores com os espectadores começam a se perguntar se esta missão é mesmo a coisa certa a ser feita.

"Munique" tem alguns pontos de vista interessantes sobre moralidade, mas ele enfrenta um problema maior ainda, que é o do próprio filme. Simplesmente, as coisas não aconteceram desta forma. Kushner afirma que o roteiro é "ficção", curvando-se à crítica amplamente veiculada de que o filme se afasta de maneira excessiva da história. Os letreiros do filme informam de que ele é "inspirado em eventos reais", o que revela ser uma frase francamente sem sentido.

Spielberg parece ter procurado por um herói judeu durão com uma alma atormentada pela culpa, e a partir do momento em que ninguém se encaixava nesta descrição dentre os protagonistas descritos nos registros históricos do evento, ele o fabricou por conta própria. Se Oliver Stone tivesse filmado "Munique" com a sua reduzida premissa de fatos históricos e a sua enorme proporção de ficção, ele teria sido massacrado pela mídia. Mas, porque "Munique" foi dirigido por Spielberg, as críticas não têm sido tão barulhentas nem tão unânimes.

Só para completar o círculo, voltarei para o conselho que foi dado a Truman Capote: Tome muito cuidado com o que você faz para conseguir o que você quer. Além de buscar entreter, os indicados ao Oscar de melhor filme deste ano são mais ricos em discussões morais e mais profundos Jean-Yves de Neufville

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