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27/11/2006 - 00h00

Enquanto a China reconstrói a Estrada da Seda, vai modificando sua região oeste

Cox News Service
Craig Simons
Em Kuche, China
Vista do alto, a província de Xinjiang parece uma ampla tela em movimento.

Enormes clareiras de terra escavada são pontilhadas por luminosos oásis verdes. A antiga Estrada da Seda, com seus mercados que por séculos ficaram silenciosos, pulsa outra vez com o ritmo da construção e do comércio.

É uma terra que vive uma radical mudança econômica e social. Nas cidades, novos shoppings, restaurantes sofisticados e bordéis ficam próximos dos mercados tradicionais.

Desde que a China deu partida no plano de desenvolver seu rústico oeste, em 2000, Pequim derramou bilhões de dólares em Xinjiang, uma extensão de desertos e montanhas no noroeste que é quatro vezes maior que a Califórnia.

O objetivo básico é conectar campos de óleo e de gás para fortalecer a expansão econômica da China e melhorar as relações comerciais e de transmissão de energia com seus vizinhos da Ásia Central.

Como no oeste americano do século 19 e princípios do século 20, quando os pioneiros criaram ranchos a partir de uma região selvagem e lucraram com recursos naturais abundantes, o desenvolvimento da região noroeste revitalizou Xinjiang e atraiu milhões de chineses Han, grupo étnico dominante na China.

"Aqui um homem pode crescer e fazer algo por si mesmo", diz Wang Xiaofei, um fazendeiro de 34 anos que se mudou para Xinjiang vindo da província chinesa de Sichuan em 1993.

Wang e outros que tomaram o mesmo rumo colonizam a terra ressecada para construirem futuros melhores para suas famílias.

"Quando nós chegamos tudo parecia tão pobre que nós quase desistimos e voltamos para casa," diz enquanto se ajeita num tamborete do lado de fora da sua casa precária perto de Kuche.

Em vez disso eles permaneceram, e hoje ele e alguns poucos parentes alugam 50 acres - terra 400 vezes maior do que a terra que cultivava em Sichuan - junto ao deserto de Taklamakan. Com água vinda dos canais de irrigação construídos pelo governo eles cultivam algodão, e esse ano esperam lucrar aproximadamente US$ 15.000, uma pequena fortuna para os padrões da aldeia que deixaram para trás.

Mas a chegada de forasteiros exacerbou tensões étnicas com a população nativa, formada pelos Uighurs, um povo de origem muçulmano-turca que tem pouco em comum com o povo Han.

Só que as autoridades em Pequim estão pensando globalmente, não em termos locais. As tensões étnicas vêm a reboque e não ocupam as mesmas atenções que o renascimento do comércio da China com a Ásia Central.

Os caminhos da Estrada da Seda, que antigamente eram ocupados apenas por negociantes, agora transportam recursos naturais que abastecem o crescimento rápido da China.

A China - o segundo maior consumidor de óleo do mundo após os Estados Unidos - e o Cazaquistão inauguraram um oleoduto de US$ 700 milhões, sendo a primeira vez que óleo extrangeiro fluiu diretamente para a China.

Xinjiang também faz limite com a Rússia, Quirguistão, Tajiquistão, Mongólia, Afeganistão, Índia e Paquistão. Desde 2001, o comércio entre a China e esses vizinhos aumentou mais de 200 por cento, para quase U$ 40 bilhões anualmente.

Com Pequim nas rédeas
O esforço da China para revitalizar a Estrada da Seda tem sido estimulado por burocratas de Pequim.

Desde 2000, Pequim gastou pelo menos US$ 125 bilhões em projetos, serviços e incentivos para atrair negócios e migrantes para as 11 províncias ocidentais.

O impacto está em grande evidência na parte de Kuche que os residentes chamam de "a cidade nova". Restaurantes, bares e hotéis sofisticados aglomeram-se como blocos coloridos numa caixa de brinquedos de criança. À noite, bordéis de primeira classe como o Di Hao, um amplo complexo que tem alguns quartos exóticos com sofás circulares e máquinas de karaokê, ficam lotados com os homens de negócios do leste.

"Quase todos os nossos convidados são chineses Han", disse um gerente apelidado de Zhou enquanto fiscalizava um rol de jovens mulheres à espera de clientes. "O negócio é bom."

Junto com uma série de incentivos do governo, o crescimento atraiu homens de negócios, como explica Yang Xintai, um ex-funcionário do governo de 51 anos que veio da província oriental de Henan.

No começo do programa de desenvolvimento do Grande Oeste, o governo de Kuche ofereceu a Yang terra de graça e reduziu impostos para que ele construisse um parque temático com trilhas para caminhadas e serviços turísticos.

Em 2000 Yang investiu US$1,25 milhão para criar a atração chamada Vale Misterioso de Tianshan. Quando a atração se mostrou rentável, o empresário fez parceria com o governo local para construir um museu que celebra a história e a cultura da cidade.

Em um quarto decorado com fotografias dele posando com altas autoridades de Xinjiang, admite que o governo lhe deu oportunidades "que difícilmente seriam desperdiçadas".

"O governo quer que Kuche seja bem sucedida", diz.

Até agora, Kuche - como a maioria das grandes cidades em Xinjiang - saiu-se bem. Sua economia cresce aproximadamente a 12% anualmente, superando a já impressionante taxa de crescimento do país, e os investimentos aumentaram 15 vezes desde 1989.

"Agora a velocidade do desenvolvimento é incrível", diz Wang Youshen, vice-governador do distrito de Kuche.

O grande jogo
A longo prazo, os investimentos do governo em Xinjiang ajudarão mais a costa mais rica da China, a leste, do que propriamente os locais, diz Chen Yao, um economista do governo em Pequim.

Um projeto-chave finalizado em 2004 foi um oleoduto de US$ 14,6 bilhões para transportar combustível por quase 3.000 quilômetros até Shanghai vindo da província de Xinjiang, que responde por aproximadamente 30% das reservas "estimadas" de petróleo da China, de acordo com dados do governo.

Em maio, a China e o Cazaquistão inauguraram um oleoduto de cerca de 900 quilômetros - parcialmente financiado pela estatal chinesa National Petroleum Corporation - para alimentar com óleo cazaque duas refinarias em Xinjiang. Os burocratas de Pequim já disseram que o duto será ampliado para carregar mais óleo no futuro.

Tais relacionamentos construídos com os vizinhos de Xinjiang da Ásia Central provavelmente terão impacto na economia global.

Acredita-se que os campos do gás e de óleo na Ásia Central sejam as maiores reservas não-utilizadas de combustível fossil no mundo.

Assim como aconteceu no século 19, quando diplomatas russos e britânicos duelavam pelo poder político na região, os governos atuais - como os da China, da Rússia e dos Estados Unidos - estão envolvidos em um novo "Grande Jogo" enquanto tentam se alavancar politicamente para ter maior acesso aos recursos.

No ano passado, a China importou 3,4 milhões de barris de óleo por dia - aproximadamente 4,5% da demanda global - mas com a demanda chinesa de energia "dobrando a cada período entre sete e 10 anos" a cifra chegará a 8% da demanda do mundo em 2015, diz James Brock, um analista de energia em Pequim.

Um outro mundo
Estratégias sobre como impulsionar laços geopolíticos parecem remotas no Bazar Akbar de Kuche, onde milhares de Uighurs locais se encontram a cada sexta-feira para negociar bens, beber o chá e se deliciar com carne assada de carneiro, rotinas que vem seguindo por gerações.

"Nós não temos muito a ver com os Han", diz um fazendeiro Uighur de 30 anos que, como muitos locais, pede que seu nome não seja citado para evitar perseguição política do governo. "Eles dirigem todos os negócios e não nos dão nenhuma oportunidade."

O que ele conta é uma história que se ouve por toda Xinjiang - os frutos econômicos da empreitada desenvolvimentista de Pequim não estão chegando até o povo local. "O Han vem aqui e extrai o óleo e o gás sem nos dar nada em troca", diz um Uighur de 41 anos em um pequeno restaurante muçulmano. "A maioria dos Uighurs quer a independência."

Tais sentimentos negativos já conduziram à violência esporádica. E para assegurar o controle a longo prazo da região, Pequim desenvolveu uma estratégia de estímulo à migração para Xinjiang, segundo especialistas.

De acordo com estatisticas oficiais do governo, os chineses Han compunham somente 15% da população de Xinjiang em 1948, mas hoje já são quase 8 milhões, mais de 40% da população de Xinjiang, formada por 19 milhões de pessoas.

Pequim já tomou providências para reduzir a possibilidade de autonomia de Xinjiang em relação a China, diz Ben Carrdus, pesquisador na ONG Projeto de Direitos Humanos em Uyghur, baseado em Washington, nos Estados Unidos.

O governo já decretou que as escolas públicas em Xinjiang devem ensinar em língua chinesa durante tempo integral a partir da sexta série, como contam diversos moradores de Kuche. "As escolas ensinam em chinês e sobre a história e a cultura chinesas", diz um comerciante de 30 anos no Bazar Akbar. "Nós estamos perdendo lentamente nossa identidade".

Olhando suas longas fileiras de plantação de algodão que cozem sob o sol de meia-tarde, Wang Xiaofei pode compreender o que está movendo os migrantes - a maioria que, como ele, chegou com pouco mais que uma muda de roupa.

Alguns anos atrás, um fazendeiro que agora vive nas redondezas veio da província de Henan para Kuche, pagou o equivalente a US$ 3.000 para alugar a terra e comprar sementes e então começou a cultivar o algodão, diz Wang. "Hoje em dia ele possui 165 acres, dirige um caminhão pick-up e vive na cidade".

"Aqui o futuro está bem aberto", conclui Wang.

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