"Batalha de Idéias" em Cuba é mais do que simples propaganda

Mike Williams
Em Havana

Reuters - 2.maio.2007
Cubana aguarda diante de pichação
pró-Castro em rua de Havana
Eles chamam de "Batalha de Idéias", mas trata-se de muito mais do que uma simples propaganda de guerra contra o arquiinimigo de Cuba, o governo dos Estados Unidos.

Durante os últimos dez anos, aquilo que teve início como um atraente slogan revolucionário se transformou em uma campanha para a reforma de casas, escolas, hospitais e outros prédios há muito negligenciados, assim como em uma princípio norteador para a transformação do sistema educacional e de outras instituições de Cuba.

"A Batalha de Idéias não é apenas ideológica", afirma o médico Francisco Blardoni, diretor do Hospital Ortopédico Fructoso Rodriguez, em Havana, que foi expandido como parte da campanha. "É necessário que haja ação e um embasamento na realidade. Todos esses trabalhos estão sendo realizado a fim de melhorar a situação da população cubana".

As campanhas de propaganda sempre foram uma característica do dia a dia na Cuba comunista. Em vez de propagandas de produtos de consumo, os outdoors trazem lemas revolucionários, retratos de heróis que sucumbiram lutando e conclamações desafiadoras pela defesa do país contra o imperialismo norte-americano.

Mas a Batalha de Idéias se transformou em algo mais. Existe agora um ministro de alto escalão encarregado disso, contando com amplos poderes sobre todos os níveis da sociedade cubana, e que cuida desde a reorganização das universidades até a reforma das estações meteorológicas.

No cerne da campanha está o envelhecido líder comunista de Cuba, Fidel Castro, 80, que, segundo fontes, estaria imerso nos detalhes do programa antes de adoecer no verão passado e passar o poder ao irmão, Raúl.

"Fidel passou mais de 7 mil horas planejando isto", diz Otto Rivero, um membro do Conselho Cubano de Ministros encarregado de supervisionar a campanha. "O princípio norteador é que não existem problemas sem soluções, que precisamos agir com velocidade e que a prioridade são os interesses da população, e não as contradições burocráticas."

O governo norte-americano e os exilados cubanos nos Estados Unidos garantem que a maioria dos cubanos amarga uma vida miserável marcada por forte repressão, baixos salários, saúde precária e quase nenhuma chance de comprar os poucos produtos disponíveis na economia cubana.

Embora não exista uma forma independente de verificar a veracidade dessas estatísticas, Cuba está nitidamente procurando reparar a sua infra-estrutura dilapidada e fornecer mais bens e serviços ao seu povo.

A campanha se desenrola tendo como pano de fundo as especulações intermináveis sobre o futuro de Cuba.

Os críticos afirmam que os sucessores de Fidel Castro enfrentarão uma população inquieta, cansada de décadas de carência material, especialmente os milhões de jovens da ilha, para os quais as glórias da revolução da década de 1950 são em grande parte apenas passagens dos textos escolares.

Vista nesse contexto, a Batalha de Idéias e o seu lento progresso na tarefa de reconstrução da desmoronada infraestrutura da ilha poderia muito bem se constituir no esforço final de Fidel Castro para ajudar a sua revolução a sobreviver.

"Ouvimos reclamações de Miami a respeito de cubanos que afirmam que recebem um serviço de saúde precário", diz Blardoni. "Se você viesse a este hospital três anos atrás, teria encontrado um local que necessitava desesperadamente de reparos. Mas nós fizemos tais reparos e estamos servindo ao povo com a melhor e mais recente tecnologia."

As raízes da Batalha de Idéias remontam ao caso de Elián González, o garoto cubano que sobreviveu a uma travessia de balsa, de Cuba à Flórida, em 1999, durante a qual a sua mãe morreu. Elián se tornou o centro de um brutal cabo-de-guerra entre o governo de Cuba e os exilados cubanos em Miami, gerando meses de uma retórica furiosa antes que o garoto fosse finalmente enviado de volta a Cuba.

Mas, em vez de desaparecer após o retorno de Elian em 2000, a onda de propaganda de Cuba passou por uma gradual ampliação em amplitude e tomou a forma da Batalha de Idéias. Agora, sete anos após a saga de Elián, a campanha foi consagrada como parte da identidade nacional de Cuba.

Armado com mapas e gráficos gerados pelo computador, Rivero deu recentemente uma entrevista a repórteres estrangeiros, exibindo várias estatísticas sobre a economia, o sistema educacional, os desafios de infraestrutura e as realizações na área de saúde.

Ele disse aos repórteres que o sucesso na Batalha de Idéias pode ser mensurado por meio dos milhares de projetos que foram realizados em instituições espalhadas por toda a sociedade cubana. Entre estas está a restauração de 84 hospitais, a expansão de 498 clínicas médicas e a instalação de 115 aparelhos médicos sofisticados.

Dezenas de escolas decrépitas foram reconstruídas, e 34.877 novos assistentes sociais foram treinados para auxiliar a população. Todos os níveis da educação foram reorganizados com foco na tecnologia da informação, e as salas das universidades foram transferidas para os subúrbios de Havana e para outras cidades de várias partes da ilha.

Hoje em dia, toda criança recebe aulas de informática a partir dos 6 anos, juntamente com aulas de inglês que têm início na terceira série.

A Batalha de Idéias chegou a se ampliar no sentido de intensificar os esforços para o treinamento da próxima geração de campeões olímpicos cubanos, bem como para a criação de videoclubes da juventude, nos quais mais de 20 mil jovens criam curtas-metragens e apresentações de vídeo.

O endereço eletrônico de Mike Williams é mwilliams@coxnews.com Tradução: UOL

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