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23/07/2007 - 00h01

Rachaduras e crateras ameaçam a capital mexicana

Cox News Service
De Jeremy Schwartz

Cidade do México
Como se não fossem suficientes a poluição que reduz a longevidade, os engarrafamentos de trânsito que duram horas e os seqüestros, os moradores da Cidade do México precisam agora se preocupar com a possibilidade de ser engolidos pela terra sob seus pés.

Quando chega a estação das chuvas de verão, aumenta o temor de que as centenas de rachaduras, buracos e frestas espalhados pela cidade se abram, com conseqüências desastrosas, em uma área metropolitana na qual residem 20 milhões de pessoas.

Esse medo tornou-se realidade no início deste mês em uma favela da Cidade do México quando fortes chuvas abriram um buraco enorme na rua, que tragou um carro e um observador curioso. O homem morreu ao cair no abismo de lama de mais de 20 metros de profundidade.

O mais recente problema urbano da Cidade do México deve-se às particularidades históricas e geográficas únicas da capital. Construída no leito de um lago drenado, depois que os espanhóis destruíram a cidade de Tenochtitlan, semelhante à Veneza, a Cidade do México está afundando continuamente há séculos, e desde 1900 o seu nível desceu o equivalente a um edifício de três andares.

Ao mesmo tempo, a megalópole em processo de afundamento tem matado a sua sede drenando o aqüífero subterrâneo que fica sob a cidade. E, como isso não fosse suficiente, a cidade também está construída sobre um labirinto de falhas geológicas e minas abandonadas.

As rachaduras e fissuras subterrâneas são alargadas pelas chuvas, que ameaçam inundar o precário sistema de drenagem da cidade.

Uma rede de esgoto maciça, o Grande Canal, tem como objetivo retirar os detritos do vale em formato de tigela no qual se situa a Cidade do México. Os especialistas afirmam que chuvas particularmente intensas poderiam causar uma inundação catastrófica de água de esgoto.

"Quando os astecas se deslocaram para cá, eles jamais poderiam ter imaginado os problemas que esta localização geraria", afirma Martin Argueta, do Serviço Geológico Mexicano. "Não nos livraremos dessas rachaduras, mas precisamos aprender a administrar o risco".

Crescimento desordenado aumenta o risco
Grande parte do perigo se deve ao crescimento descontrolado da Cidade do México. Bairros criados de forma caótica se espalham pelas áreas mais frágeis do vale.

As autoridades governamentais muitas vezes promovem este crescimento desorganizado a fim de obterem votos cativos. Os engenheiros há muito clamam por mais restrições à construção de casas e edifícios, mas agora pode ser muito tarde para isto. A maior parte da área metropolitana está repleta de construções residenciais e comerciais.

Uma comunidade azarada
Talvez o bairro que corra mais risco seja Iztapalapa. Maior do que as cidades mexicanas de Guadalajara e Monterrey, Iztapalapa abriga alguns dos moradores mais pobres -e mais azarados- da Cidade do México.

Mais de 200 rachaduras ameaçam 10 mil casas em Iztapalapa, devido à combinação das falhas subterrâneas com a drenagem do aqüífero.

Mas apesar de toda a água sugada do subsolo, os moradores de Iztapalapa enfrentam uma falta d'água crônica, e o líquido muitas vezes precisa ser trazido até o bairro de caminhão-pipa.

David Perez Figueroa mora há quase 30 anos perto daquilo que se transformou em um enorme e perigoso buraco. Em todo o bairro, cheio de casas de concreto não terminadas e cortado por ruas estreitas, as construções inclinam-se para frente em angulações esquisitas e as rachaduras estão disseminadas de forma não natural pelas paredes.

Perez diz que eles e outros moradores preocupam-se constantemente com aquilo que começou com uma rachadura na rua oito anos atrás.

"Avisamos às autoridades, enviamos cartas, nos reunimos com funcionários do governo, mas eles nunca nos deram atenção", reclama Perez. "Eles sabiam que esse problema existia, mas nunca o consertaram".

Em 7 de julho último, Perez dava uma festa de formatura no salão que ele aluga para eventos especiais quando a terra se abriu. Um dos carros de seus convidados foi tragado pela enorme rachadura. Gritando, ele mandou que Jorge Ramirez, de 19 anos, se afastasse do buraco que aumentava de tamanho. Curioso, o rapaz continuou sobre a borda da fenda, onde caiu e morreu.

Jogo de empurra
Funcionários da prefeitura taparão o buraco com bentonita, uma substância argilosa que se expande ao entrar em contato com a água. As autoridades municipais de Iztapalapa dizem que só têm dinheiro para tapar uma pequena porcentagem das 200 fendas existentes no bairro. Os problemas de infra-estrutura da cidade geraram uma briga entre o conservador governo federal e a administração municipal de esquerda.

Essa é mais uma conseqüência da altamente contestada eleição presidencial do ano passado, na qual o ex-prefeito da Cidade do México, Andres Manuel López Obrador, enfrentou o conservador Felipe Calderón. As relações entre Calderón, que acabou vencendo a eleição, e o novo prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, considerado por muitos como um protegido de López Obrador, esfriaram desde então.

Calderón tem usado a situação para criticar duramente os líderes municipais, que segundo ele não investiram o suficiente em obras de infra-estrutura.

"Os problemas da cidade ameaçam inviabilizar esta grande metrópole no longo prazo. Ou, ainda pior, se não resolvermos isto rapidamente, poderemos presenciar a pior inundação da história moderna da Cidade do México, com conseqüências desastrosas para todos", advertiu Calderón.

As autoridades municipais estão frustradas pelo fato de o governo federal não ter liberado verbas destinadas a desastres para tapar as fendas e minas abandonadas, e tampouco ter permitido que a cidade reestruturasse a sua dívida, algo que disponibilizaria mais dinheiro para as obras.

Ebrard defendeu o trabalho da prefeitura, afirmando que ela está consertando o sistema de drenagem, em um processo que inclui a construção de quatro estações de bombeamento estrategicamente localizadas para auxiliar a retirada do esgoto da cidade.

Mas, enquanto os políticos brigam, Perez afirma que os moradores de Iztapalapa continuam prendendo a respiração toda vez que chove.

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