Em propriedades decrépitas, russos revivem nobreza perdida

Cox Newspaper
Alastair Gee
Moscou

Olga Troitskaya-Mikovich mora em uma decrépita propriedade rural ao sul de Moscou. Praticamente todos os cômodos parecem estar prestes a desabar. Até há pouco tempo, alguns não tinham telhado, e havia um lago pantanoso e cheio de entulho junto à porta de entrada.

Mas aos olhos dos aristocratas submetidos a expropriações na Rússia, ela vive um sonho.

Troitskaya-Mikovich faz parte de um pequeno grupo de nobres que, 90 anos depois que os bolcheviques assumiram o poder e despojaram de seus bens a classe alta do país, teve a permissão do governo de retornar às imponentes casas que eram de suas famílias.

Antes da revolução comunista, existiam 1,5 milhão de membros da aristocracia, segundo a Assembléia dos Nobres, uma associação de aristocratas russos.

Durante a revolução bolchevique de 1917, muitos fugiram, incluindo parentes do assassinado Czar Nicolau II, que agora vivem nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e em outros lugares. Os que ficaram foram mortos em expurgos, ou sobreviveram ao não alardear seu passado aristocrático. O governo confiscou seus bens. Os palácios foram reformados como apartamentos comunitários e museus. Imóveis na área rural foram transformados em sanatórios e acampamentos para crianças.

Mas desde o colapso da União Soviética em 1991, os aristocratas da Rússia estão mais inclinados a manifestar suas opiniões - mais de 15.000 aderiram à Assembléia dos Nobres e estão exigindo a devolução de seus bens confiscados. "Roubar a propriedade é imoral e devolver o que foi tomado - isso é justo", disse Alexander Korolyov-Pereleshin, vice-presidente da organização. Membros da família Romanof que vivem no exterior até chegaram a sugerir que podem retornar para governar a Rússia.

Os aristocratas, porém, não desfrutam de um grande apoio da parte dos outros russos. Com os magnatas do país cada vez mais ricos, graças aos preços recorde do gás e do petróleo, há pouco entusiasmo entre o restante da população pelo retorno de outra classe de cidadãos privilegiados. Além disso, a restituição pode indicar que vastas faixas do centro de Moscou e São Petersburgo venham subitamente ter novos donos.

Mikhail Moskvin-Tarkhanov, diretor da comissão de planejamento de Moscou diz que a culpa é da nobreza pela perda de seus imóveis. "A responsabilidade moral pela revolução é das classes governantes tanto quanto das classes mais baixas e revolucionários. Por causa de seu repulsivo tratamento dado às classes mais baixas, eles levaram o país à catástrofe", disse.

E nem todo nobre acha que merece as propriedades de sua família.

"Depois de tanto sangue, é uma vergonha até mesmo pedir a restituição dos bens", disse o príncipe Dimitri Romanov, de 81 anos, da Dinamarca. "Após tantos anos, não se pode chegar e dizer, 'Eu quero isso de volta.'"

Tal reprimenda não desencorajou Troitskaya-Mirkovich, descendente de um comandante que lutou pela Rússia contra Napoleão em 1812. Ela recebeu a concessão de usar sem pagar aluguel, por 49 anos, seu imóvel na região de Tula. Durante a época soviética, a casa era usada como abrigo para crianças, mas foi praticamente abandonada depois de 1991 e começou a se deteriorar. Não tem telefone, as condições sanitárias são primitivas, e Troitskaya-Mirkovich a está reformando com itens da época, que encontra em brechós.

Ela já está preparando seu filho adolescente para o futuro papel de senhor do solar. "Quando volto a Moscou, não me sinto à vontade em meu apartamento", diz Troitskaya-Mirkovich. "No primeiro dia em que chego à propriedade, sinto-me em casa."

Outro aristocrata descobriu uma forma mais simples de obter o controle da antiga propriedade de sua família: o magnata dos materiais de construção Sergei Leontyev, de 44 anos, cujo ancestral era também um general na campanha contra Napoleão, comprou uma casa de verão em ruínas na região iugoslava de Yaroslavl em 2005, por US$ 10.000.
Depois de ter sido confiscada pelos bolcheviques ela se tornou um acampamento de férias para os Pioneiros, o equivalente na União Soviética leninista aos Escoteiros, mas depois de uma restauração da casa e um jardim em estilo inglês, ela vai se tornar um hotel, e também a casa de Leontyev. "No trabalho, sou chamada de princesa," diz a filha de Leontyev, Oksana. "Mas meu pai simplesmente achou que seria bom se a família continuasse a viver lá."

Mikhail Lermontov, descendente do célebre poeta do século 19 do mesmo nome, já tem o estilo de vida de luxo que outros buscam. Ele aluga do governo um imóvel com 100 cômodos fora de Moscou, antes habitado por seu antepassado. Entre os 30 cômodos do edifício principal, em estilo neoclássico, há uma sala de concertos com paredes de mármore. Fora, uma avenida ladeada por árvores que leva a um lago ornamental.

Lermontov conseguiu em 1995 um acordo pelo aluguel do imóvel, antes uma casa de repouso para pacientes com tuberculose, e gastou US$ 3 milhões na restauração. Ele mora lá nos finais de semana com sua esposa, em uma ala que possui uma antena parabólica para televisão.

"Quando é a casa de sua família, ela possui um status inteiramente diferente do que se fosse apenas seu apartamento ou casa," ele afirma. "Você é responsável por ela - por cada um dos galhos da floresta, por cada camada de reboco. É o seu esforço, seu trabalho."

Aqueles aristocratas que não têm esperanças de conseguir de volta seus bens, e em vez disso moram em um dos subúrbios com casas padronizadas de Moscou, pelo menos se confortam achando que são diferentes."Os que eu conheço são absolutamente educados, tentam preservar uma certa etiqueta," disse Vissarion Aliavdin, presidente do Fundo Nacional para o Renascimento dos Imóveis Rurais Russos, ele mesmo de uma prestigiosa família. "Eles sempre deixarão que a mulher passe antes por uma porta". Claudia Dall'Antonia

UOL Cursos Online

Todos os cursos