Médico revive a queda de Saigon por meio de uma foto célebre

Ralph Ellis

É a imagem mais intensa da queda de Saigon de 35 anos atrás: uma fila de sul-vietnamitas subindo desesperados por uma escada para alcançar um helicóptero americano, sobre o poço do elevador de um prédio.

Aqueles que conseguem embarcar deixam para trás suas casas e famílias por destinos desconhecidos. Aqueles que não, encaram a morte ou campos de concentração.

Ainda que os rostos estejam pequenos demais para serem identificados, Dr. Tong Huynh consegue se reconhecer como a segunda pessoa no topo da escada naquele dia 29 de abril de 1975. Logo à sua frente, tentando alcançar a mão de um homem que, acredita-se, era um funcionário da CIA, está seu amigo Thiet-Tan Nguyen, diz. A pequena cabeça ao lado de Huynh é uma adolescente chamada Tuyet-Dong Bui, que ele segurou enquanto ela lutava contra a forte turbulência das hélices do helicóptero.

"Todo 29 de abril lembro-me daquele dia praticamente a cada minuto", disse Huynh.

Agora, aos 69 anos e com um consultório médico em Buford Highway, ele mantém uma foto emoldurada da cena de evacuação do telhado no gabinete de sua casa em Alpharetta. Ele diz que ligou para o escritório de Atlanta da hoje extinta United Press International (UPI) para falar sobre a foto, e recebeu uma cópia.

Tirada por um fotógrafo da UPI, Hubert van Es, é uma imagem duradoura da Guerra do Vietnã e inspirou a cena final do musical "Miss Saigon".

Huynh encomendou uma ampliação da foto para a cerimônia anual do Dia da Lembrança que será realizado no domingo em um clube comunitário vietnamita na Buford Highway. O evento anual marca o dia 30 de abril de 1975, quando tanques norte-vietnamitas invadiram Saigon, o governo se rendeu e a guerra terminou oficialmente.

"Esse foi o dia em que perdemos nosso país", disse Huynh. ""Não é um dia alegre. É um dia doloroso. Nós revivemos um pouquinho de nossa dor".

Cerca de 70 mil vietnamitas vivem na Georgia, disse Kim-Hanh Dang, da comunidade vietnamita da Georgia. Grupos de veteranos calculam que de 8 mil a 10 mil deles serviram no exército sul-vietnamita ou na força policial.

"Os caras das forças armadas têm dificuldade em esquecer", disse Huynh, um capitão no exército sul-vietnamita. "Nenhum soldado velho quer perder uma guerra".

Marvin Myers, da Aliança de Veteranos do Vietnã da Georgia, em Doraville, conhece Huynh e outros veteranos do Vietnã. Eles continuam sendo anticomunistas e orgulhosamente pró-americanos, disse.

"Eles sentem como se tivessem sido esmagados e varridos da face da Terra", disse Myers.

As lembranças vêm à tona quando Huynh fala sobre seu último dia em Saigon, a cidade onde cresceu. Com o avanço dos norte-vietnamitas, ele colocou sua esposa, irmã e mãe em um avião alguns dias antes. O caos tomou conta das ruas. Seu comandante no exército disse, "Se tiver uma chance de ir, vá".

Com vários amigos e seu pai, procurou uma forma de escapar, sem sucesso. Multidões do lado de fora da embaixada dos Estados Unidos eram tão densas que ele não conseguia entrar. Outro amigo, o filho de um general, disse que ele conhecia um lugar onde um helicóptero ia chegar. Essa amizade salvou sua vida.

"Meu pai estava muito cansado", disse Huynh. "Ele disse, "vá você". Abracei-o e lhe dei adeus. Disse, "Se eu conseguir, você não vai mais me ver"".

Seu pai, que passou sete anos em um campo de concentração, veio mais tarde aos Estados Unidos, onde morreu.

Huynh e seus amigos foram até um apartamento na Gia Long Street, onde oficiais da CIA estavam hospedados. (um dos equívocos da Guerra do Vietnã é que a foto teria sido tirada na embaixada dos Estados Unidos). Eles subiram sete ou oito lances de escada e esperaram no telhado, no calor do fim de tarde.

"Quando cheguei no topo da escada eu estava tão exausta", disse Bui, a garota da foto com Huynh. Ela se lembra que as pessoas no telhado eram altos membros do exército sul-vietnamita ou suas famílias.

Quando o helicóptero aterrissou, começou a correria. Huynh e seus amigos subiram a bordo. O helicóptero com capacidade para 8 passageiros se encheu com 20. Alguns jovens que não conseguiram, brigaram para embarcar, mas um americano enorme que estava no telhado – provavelmente funcionário da CIA – os empurrou de volta. Huynh disse que o helicóptero estava sobrecarregado e teve de pousar na embaixada, onde o piloto retirou uma dúzia de pessoas antes de levar os evacuados para um navio americano.

Huynh passou seis meses em campos temporários no Guam ou na Pensilvânia antes de reencontrar sua esposa em Montreal. Eles acabaram se mudando para Roanoke, Virginia, onde uma igreja sustentou a família. Apesar de ter sido um otorrinolaringologista no Vietnã, na Virginia ele só conseguiu emprego como enfermeiro no hospital local. Estudou, tirou sua licença médica e se mudou para Atlanta em 1980.

Huynh mantém contato com seus amigos daquela época. Nguyen também é médico, e mora na Califórnia. Bui mora em Mission Viejo, Califórnia, e é cientista clínica em uma empresa de biotecnologia. Ela tem parentes em comum com Huynh e às vezes o visita na Georgia.

"Aquele dia me lembra do acontecimento mais importante da minha vida", disse.

Tradutor: Lana Lim

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