Americanas voltam da guerra com o desafio de ser mãe novamente

Jeremy Schwartz

Austin, Texas (EUA)

  • COX/AP

    Teri Jackson, ao lado dos filhos. Ela é umas das mulheres que participaram em missões militares no Iraque e agora precisa lutar para recuperar a normalidade da vida e seu papel como mãe

    Teri Jackson, ao lado dos filhos. Ela é umas das mulheres que participaram em missões militares no Iraque e agora precisa lutar para recuperar a normalidade da vida e seu papel como mãe

Teri Jackson, mãe solteira, enviada ao Iraque em março de 2004, deixou para trás deus filhos, então com 8 e 11 anos de idade. Logo que ela chegou no trailer vazio em Balad, que seria sua casa durante o próximo ano, ela o decorou com fotos de seus filhos e memórias alegres de seu lar nos EUA.

Poucos dias depois, Jackson, 40, motorista de caminhão do exército norte-americano, saiu em sua primeira missão, levando suprimentos para uma base distante. De repente, seu parceiro, que estava dirigindo no momento, freou bruscamente, fazendo com que Jackson fosse lançada para frente. A atitude dele provavelmente salvou a vida dela, uma vez que um morteiro quase atingiu o caminhão.

Quando voltou para o trailer, Jackson tirou as fotos das paredes.

"Pensei comigo mesma: 'não posso me concentrar na minha família'. Eu não podia chegar e vê-los todos os dias. Eu tinha que me concentrar na minha missão", diz ela. "Nós ficamos muito anestesiados. Precisamos desligar as nossas emoções."

Jackson faz parte de um número recorde de mulheres no serviço militar – muitas das quais serviram como motoristas de caminhão, atiradoras e médicas de combate – que enfrentam um desafio especial ao voltarem da guerra para seus filhos. Ela também faz parte de uma onda histórica de mulheres que estão transformando essencialmente o serviço militar e incentivando uma revolução no precário sistema de saúde dos veteranos de guerra, que era destinado a homens mais velhos – e não a mulheres que precisam de cuidados para seus filhos e fraldários.

Mais de 212 mil mulheres serviram no Iraque ou no Afeganistão, 11% do total da força militar enviada a esses países. Das mulheres na ativa, 40% têm filhos. E mais de 30 mil mães solteiras foram enviadas à zona de guerra, de acordo com a associação norte-americana de Veteranos do Iraque e Afeganistão.

Elwanda Hawthorne, conselheira no Centro de Veteranos de Austin, diz que as mulheres veteranas de guerra – especialmente as mães – enfrentam uma série de desafios diferentes daqueles que os homens encontram quando voltam para casa.

Assim como os homens alistados, as mulheres normalmente voltam emocionalmente exauridas. Mas, diz Hawthorne, muitas mães são obrigadas a voltar para o papel de cuidar dos filhos assim que retornam da guerra. Elas não têm tempo para se reacostumar, embora o serviço militar aconselhe seus integrantes a tirarem um tempo de férias para aliviar a pressão logo que voltam para casa.

"Aprendemos a nos fechar e ainda assim trabalhar" enquanto estamos em serviço, diz Hawthorne, veterana que serviu na operação Tempestade no Deserto e no Iraque. "Quando voltamos para casa, é difícil virar essa chave... De certa forma, parece que você está bem, sua voz está bem, então você precisa ser a mesma pessoa que foi embora há 12 meses. Mas na verdade, as mães não estão bem. Espera-se que as mulheres cuidem das famílias, mas quando elas voltam para casa, é nesse momento que elas precisam ser cuidadas."

Deixando a zona de combate

Para Jackson, voltar para casa depois de uma licença médica significou mergulhar fundo no papel de mãe imediatamente, apesar do trauma que ela experienciou no Iraque.

Seu pai e sua mãe haviam morrido no ano anterior, e seu noivado não sobreviveu ao tempo que ela passou fora. Jackson, que deixou o Exército logo depois de sofrer uma hérnia de disco durante um ataque de morteiro em sua base em novembro de 2004, diz que se ela houvesse tido algum tempo para se livrar da pressão logo que voltou para casa "teria sido muito bom. Mas eu não tive tempo... Tenho que aceitar como as coisas são."

Jackson ficou mais vigilante, colocou novos trincos em todas as portas e constantemente pergunta a seus filhos para onde eles vão e com quem. Ela checa as latas de lixo no shopping para ver se não têm bombas.

"Meus filhos estão passando por um momento difícil", diz ela. "De certa forma, estão aprendendo do jeito difícil."

Uma manhã, um de seus filhos pulou em sua cama, assustando-a. Ela o agarrou pelos ombros, e o deixou com os olhos arregalados de medo. "Fiquei muito magoada de ver o rosto dele assim", diz ela.

Jackson diz que levou cerca de um ano e meio para passar pelo que ela chama de "estado hipervigilante". Eventualmente, depois que o centro de veteranos aceitou seu pedido de tratamento para síndrome do estresse pós-traumático, ela recebeu aconselhamento, o que a ajudou a mudar seu estado mental, diz ela. Jackson agora trabalha como técnica de medicina na clínica de saúde do centro de Veteranos de Austin.

Stephanie Moles, uma defensora dos veteranos e fundadora do grupo Grace After Fire, uma organização sem fins lucrativos para veteranas mulheres que foi fundada no ano passado e está abrindo sua sede em Austin, diz que as mães que precisam de espaço para si mesmas podem se sentir culpadas por se distanciar de seus filhos. E embora seja mais aceitável que os veteranos homens tenham explosões de raiva ou buscam tratamento para vícios, o mesmo não vale para as mulheres que enfrentam os mesmos sentimentos e problemas.

"A mulher não pode explodir como o homem; ela precisa guardar tudo para si e implodir", diz ela. "Esperam que nós sejamos supermães".

Para April Harper, 31, que passou oito anos no exército e se mudou para Austin no começo deste ano, deixar seus dois filhos pequenos e ir para o Iraque em 2007 foi quase insuportável.

"Foi como assistir o meu mundo inteiro se despedaçar", diz ela.

Como Jackson, Harper logo descobriu que ela precisava afastar as memórias de casa se quisesse sobreviver a seus 15 meses de serviço.

"Fora muitas lágrimas, muitas preocupações, mas depois de um tempo você fica anestesiada", diz Harper, que serviu como especialista para a administração de pacientes em clínicas militares próximas de Bagdá. "Você precisa pensar sobre onde você está".

Enquanto isso, os telefonemas para casa foram ficando cada vez mais hostis. "Meu filho – durante algum tempo, foi legal para ele ter uma mãe no Iraque, ajudando as pessoas", diz ela. "Mas quando eu demorei para voltar, ele não queria mais falar comigo por telefone: 'Você vai voltar? Não? Então não quero falar com você.'"

Mais tarde, ela passou a ligar apenas quando sabia que não havia ninguém em casa, só para deixar uma mensagem para seu marido e filhos dizendo que ela estava bem.

As coisas não voltaram ao normal quando ela retornou do Iraque em janeiro de 2008.

"Naquele primeiro mês em casa, eu era praticamente invisível", diz ela. "Eles se comportavam como se eu não estivesse ali... É muito difícil voltar para o papel de mãe. É como se você os encontrasse pela primeira vez novamente."

Seus filhos, que tinham cinco e sete anos quando ela foi para o Iraque, estavam mais independentes e não pareciam precisar dela tanto quanto antes. "Foi difícil, doloroso", diz ela. "Eu chorava porque eles não me conheciam. Eu era uma estranha em minha própria casa... Eu não desejo isso para ninguém."

Desde que voltou da guerra, ela está separada de seu marido. O índice de divórcios entre as mulheres alistadas no serviço militar aumentou três vezes em relação ao índice dos homens separados entre 2005 e 2008.

Apoio da associação de veteranos

As verbas do governo para as veteranas de guerra, incluindo as mães, aumentaram nos últimos anos, embora algumas organizações digam que é necessário muito mais para o apoio à saúde mental. O Congresso aprovou recentemente um projeto de lei de US$ 1,7 bilhão que obrigaria os VA (Veteranos da América) a estudar os problemas relacionados à saúde da mulher, terinar conselheiros de trauma e, pela primeira vez, oferecer sete dias de cuidados de saúde após o parto para os recém-nascidos filhos de veteranas.

À medida que elas voltam para casa e começam a procurar tratamento nas clínicas do VA, muitas veteranas reclamaram de cadeiras ginecológicas voltadas para as portas e da falta de salas de espera separadas para mulheres, especialmente para aquelas que sofreram abusos sexuais enquanto estavam no serviço militar.

Assim como outros centros de veteranos, a clínica de saúde de Austin tentou se adequar às mulheres. Em dezembro de 2008 – o mesmo ano em que o VA exigiu que todas as suas filiais tivessem um gerente para o programa de veteranas – o centro abriu sua clínica feminina, que atualmente tem 2.300 mulheres inscritas para tratamento. No ano passado, a clínica, que têm uma sala de espera separada para as mulheres, contratou uma ginecologista e obstetra de meio período e instalou um fraldário.

Embora a clínica não faça mamografias, ela reembolsa o exame em clínicas locais – antes, as veteranas tinham que viajar para um hospital do VA em Temple. Mas o tempo de espera para uma consulta com um clínico geral pode ser longo: seis semanas para as pacientes do centro e dois meses para novas pacientes.

Em dois anos, o VA planeja abrir e expandir a clínica de Austin, que, com três vezes o tamanho da clínica atual, oferecerá salas de exame com banheiros privativos, uma seção separada para as veteranas que sofreram trauma sexual dentro do serviço militar e espaço para uma creche (embora não esteja claro se o serviço será fornecido no novo prédio).

"As coisas estão mudando lentamente", diz o Dr. Abraham Delgado, diretor médico da clínica para pacientes externos do VA de Austin. "Mas acho que estão mudando."

Na região, surgiram várias opções para o aconselhamento de veteranas e suas famílias nos últimos anos. Além de serviços de saúde mental na clínica VA de Austin, lugares como a YMCA e o Centro de Veteranos de Austin, um braço do VA, oferecem aconselhamento para veteranas que são mães.

Gretchen Johnson, assistente social da organização Hope for Heroes, de Austin, que oferece aconselhamento gratuito para famílias de militares, diz que as mães precisam de espaço para falar sem serem julgadas, principalmente se estão se sentindo culpadas por terem servido na guerra. Johnson diz que também é bom que as mães busquem apoio entre elas e conversem com outras mães que estão passando por situações similares.

As convocações podem ser especialmente difíceis para as crianças pequenas. Quando uma convocação acontece muito cedo na vida de uma criança, pode gerar um transtorno de apego, diz Johnson, o que pode fazer com que elas deixem de confiar nas pessoas.

Crianças mais velhas também podem sofrer de ansiedade, diz Johnson: "Elas têm muito mais consciência do perigo que seus pais correm. Elas sabem que seu pai ou sua mãe podem morrer."

Estudos também mostraram que as crianças cujos pais foram enviados para a guerra têm mais chances de apresentar problemas de comportamento.

O Exército foi criticado por dar às mães apenas quatro meses de licença para ficar com seus filhos recém-nascidos antes de serem enviadas à guerra. A ex-cirurgiã geral e major general Gale Pollock argumenta que as mães precisam de mais tempo – até um ano – para criar vínculo com seus bebês.

"Precisamos olhar para o fato de que muitas mulheres querem servir, mas também querem ser mães", disse Pollock no ano passado. "É uma questão médica, uma questão de saúde mental."

Desde que voltou, Harper recebeu aconselhamento para síndrome do estresse pós-traumático e depressão severa.

"Meus filhos e eu estamos melhorando – eu tenho que trabalhar muitas coisas em mim para abandonar a atitude e a sensação de estar numa zona de guerra", diz ela. "Especialmente sendo uma mãe, nunca seremos 100% como éramos antes depois de ver as coisas que vimos lá e de passar emocionalmente por tudo aquilo."

Tradutor: Eloise De Vylder

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