Primeiro o vinil, agora as fitas cassete?

Peter Mongillo

Austin, Texas (EUA)

  • Danilo Verpa/Folha Imagem

No segundo dia do Festival South by Southwest (SXSW na sigla em inglês), a Free Energy da Califórnia, assim como outras bandas badaladas, tocaram na Levi's Fader Fort, uma festa de uma semana que se tornou um dos eventos mais populares para os fãs de música que não ligam de usar os braceletes da festa.

O grupo, que suscitou comparações com várias bandas clássicas de rock dos anos 70, lançou seu álbum de estreia digitalmente no começo de março. Eles vieram para Austin munidos de material de divulgação com o objetivo de fazer com que sua música seja ouvida, e entregaram às pessoas algo que alguns podem considerar um artefato curioso: fitas cassete.

"Os únicos que ouvem CDs hoje são os mais velhos e aqueles que venderam suas coleções de vinil para comprar CDs e agora têm muitos deles", disse o vocalista da banda, Nick Shuminsky, durante o festival. "A maioria das bandas que fazem turnê têm vans que ainda tocam fitas cassete, e a ideia é que pelo menos nossos amigos de outras bandas possam ouvir nosso disco enquanto estão em turnê."

Embora a Free Energy seja uma banda razoavelmente bem conhecida, o fato de entregarem fitas cassete é uma atitude que vem de uma cultura bem mais underground, que vem prosperando desde que as lojas de música tiraram as fitas cassetes de suas prateleiras para abrir caminho para os CDs no começo dos anos 90. Este continua sendo um nicho extremamente exclusivo do mercado, mas à medida que o as fitas que haviam sido abandonadas reaparecem em eventos mais mainstream, fica a questão: será que elas estão prontas para um resgate semelhante ao do vinil?

Ainda existem aparelhos de som que tocam fita cassete – a Best Buy, por exemplo, tem um walkman Sony em estoque e fitas virgens (além de fitas VHS, no caso de você resolver usar seu video-cassete). Outro lugar para procurar são os bazares beneficentes – muitos deles têm paredes cheias de fitas antigas, e em geral há uma variedade de aparelhos de som disponíveis. Algumas lojas de discos independentes também oferecem fitas cassete.

As fitas tampouco são algo exclusivo das jovens bandas de rock independente. Pearl Jam e Sonic Youth também lançaram músicas em fita cassete recentemente.

Numa recente noite de terça-feira nos estúdios KVRX no Centro de Comunicação Jesse H. Jones do campus da Universidade do Texas, Brad Barry abria pacotes enquanto esperava outra DJ terminar um programa. Ele tem um programa de rádio dedicado às fitas cassete, o "c60", que vai ao ar às terças-feiras, das 23h até a meia-noite. Ele também publica podcasts do programa que são ouvidos regularmente por pessoas de todo o país e até de fora.

A maior parte das músicas que ele toca no programa é experimental – abstrata, barulhenta, e sem a estrutura de versos e refrão comum na música pop.

Cada envelope que ele abria tinha uma fita cassete, ou às vezes um conjunto de cassetes; a maioria de fora do Estado, todos elas com algum tipo de embalagem personalizada. Esse elemento de "faça você mesmo" (DYI em inglês) é uma das coisas que atraem as pessoas para o mundo das fitas cassete, diz Barry.

"Há uma sensação de nostalgia", diz ele. "As bandas punk e muita coisa estilo DIY dos anos 80 estavam em fitas, então você tem vontade de se conectar com essa linhagem – é uma história tanto pessoal quanto musical."

Barry, 22, é um aluno sênior do programa Plan II da Universidade do Texas. Sua tese é sobre música experimental em fita cassete no século 21. Seu programa de rádio é uma tentativa de compartilhar esse tipo de música com as pessoas.

"Eu estava ouvindo muita música, e percebi que muitas pessoas jamais ouviriam nada disso porque não tinham um aparelho ou não sabiam onde encontrar um", diz Barry. "Foi por isso que comecei o programa, porque as pessoas poderão ouvir coisas muito legais que estão saindo em fita mesmo que não tenham meios para fazê-lo".

Barry não é o único em Austin interessado em fitas. Seth Whaland, que toca baixo numa banda de powerpop local chamada Literature, comanda a Natrix Natrix Records, uma entre várias pequenas gravadoras em Austin que lança músicas apenas em fita cassete e vinil. Além de sua banda, ele lançou músicas de várias outras em todo o país, incluindo um single da banda de rock independente Deer Tick, de Rhode Island

Whaland, que se mudou para Austin em 2005, cresceu em Lehigh Valley, na Pensilvânia, uma área com tradição de bandas punk e hardcore DIY que gravavam músicas em fitas cassete. Ele disse que o aspecto "mão na massa" das fitas é um dos seus maiores atrativos.

"Aperto o botão de gravar em cada lado – existe de fato um trabalho que eu coloco na fita. Eu amo vinil, mas não tenho nada a ver com a gravação dele."

Ernest Greene, conhecido como Washed Out, outro artista que esteve na cidade para o SXSW e lançou músicas em cassete, disse numa entrevista antes do festival que apertar o botão de gravar oferece um maior grau de controle aos artistas.

"É muito legal ser capaz de controlar cada passo da produção – como fazer a arte, a impressão dos rótulos, as cópias das fitas. Isso proporciona uma experiência muito mais pessoal", diz Greene. "A única forma de conseguir uma fita é diretamente comigo ou através do meu site, então é um processo muito simples, e acho que as pessoas gostam disso de verdade."

Outro benefício é o custo: Whaland diz que a produção de 100 fitas custa cerca de US$ 100 (R$ 177). Uma rápida pesquisa online revela algumas empresas que reproduzem cassetes pelo mesmo preço. (Os CDs são normalmente feitos em lotes de no mínimo 500 por cerca de US$ 750 (R$ 1.330), diz Phil Waldorf do selo Dead Oceans de Austin. Há algumas companhias que fazem quantias menores; os preços ficam por volta de US$ 2 por CD.)

Os preços baixos levaram à criação de pequenas gravadoras que usam a fita cassete como suporte em vários lugares, especialmente no meio-oeste dos EUA, que não tem uma indústria musical desenvolvida.

"A música costumava ter que passar por todos esses diferentes intermediários", diz Barry. "Agora você pode estar em sua cidade natal, no seu quarto, fazer música e enviá-la para o Japão. Você não precisa da ajuda de ninguém para fazer isso."

Mesmo com o aumento do número de gravadoras, Barry diz que o fato de o público para as fitas ser relativamente pequeno faz parte da diversão. Whaland concorda, mas se pergunta se o aumento da popularidade não vai mudar as coisas.

"Se muitas pessoas começarem a fazer isso, será que as coisas ficarão diferentes?", diz ele.

Tanto Barry quanto Whaland enfatizam que o apelo das fitas cassetes tem mais a ver com essência do que com estilo. Eles gostam mesmo é das músicas que são lançadas em cassete.

"É um meio usado por muitos dos músicos mais interessantes e de vanguarda", diz Barry. "Não sei se o meio alimenta a música ou a música alimenta o meio, mas é por isso que é estimulante, porque a música é boa."

Tradutor: Eloise De Vylder

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