Produtores advertem sobre o perigo da lei de imigração na oferta de alimentos

John Lantigua em West Palm Beach

Na Flórida (EUA)

  • Minha Vida

Mike Carlton, diretor de relações com os trabalhadores da Associação de Frutas e Verduras da Flórida algumas vezes é criticado por sua posição em relação à lei de imigração norte-americana. 

O grupo, que representa a maior parte dos grandes produtores da Flórida, apoia a legalização de trabalhadores ilegais. 

"O que vocês não entendem na palavra "ilegal"?", perguntam os críticos sobre os imigrantes. 

"O que vocês não entendem na palavra "comer"?" é a resposta que ocorre a Carlton, apesar de segurar sua língua. 

Em meio a uma onda de preconceito contra a imigração, o setor agrícola, que em geral é conservador, se vê defendendo o trabalhador ilegal.

Aqueles que pregam mudanças na imigração dizem que as pessoas que acreditam que todos os trabalhadores sem documentos devem ser expulsos do país não compreendem como isso afetaria a disponibilidade e a segurança da oferta de alimentos nos EUA.

"Veríamos um aumento no custo da comida", disse Carlton. "E quase certamente teríamos que buscar nossos alimentos no exterior, o que significaria ter que se preocupar com segurança alimentar."

Carlton e outros defensores da legalização dos trabalhadores rurais estão por trás de uma lei no Congresso chamada AgJobs, que pode abrir caminho para a residência permanente desses trabalhadores.

Os opositores dizem que o projeto equivaleria a anistiar as pessoas que entram no país ilegalmente. Eles também dizem que dificultará a segurança das fronteiras.

Craig Regelbrugge, co-diretor da Coalizão Agrícola para Reforma da Imigração em Washington acredita que os opositores não reconhecem a principal questão de segurança associada com o trabalho agrícola.

Se os EUA expulsassem os trabalhadores rurais, "haveria escassez. Os preços subiriam", disse ele. "E também nos tornaríamos dependentes de comida de outros países."

O Departamento de Agricultura dos EUA diz que, ao menos metade das pessoas que trabalham nas colheitas dos EUA não tem documentos. Outros na indústria dizem que este número é mais próximo de 70%.

Se a produção norte-americana fosse prejudicada dessa forma, o Brasil forneceria teria todo o entusiasmo para fornecer cítricos e o México venderia legumes alegremente, disse Regelbrugge. Mas, se a relação entre os EUA e esses países estiver ruim, a nação ficará à mercê de governos estrangeiros, disse ele.

Importar leite fresco seria difícil de qualquer forma, disse Ray Hodge, diretor de assuntos governamentais da Southeast Milk no condado de Marion, que vende leite de mais de 100 produtores da Flórida.

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"Fornecemos o leite da Publix", disse Hodge. "Se todos esses trabalhadores forem expulsos, em cerca de uma semana haveria uma crise... trabalhadores nascidos no exterior são a força de trabalho na agricultura deste país. Ninguém mais quer fazer esse serviço."

O projeto de lei AgJobs daria residência legal temporária a cerca de 1 milhão de trabalhadores rurais sem documentos e quase o mesmo número de cônjuges e filhos. Como a Flórida tem a segunda maior economia agrícola do país depois da Califórnia, a medida poderia ter um impacto particularmente forte no Estado.

Para se inscrever, o candidato teria que provar ter trabalhado certo número de horas em fazendas nos últimos dois anos. Além disso, teria que pagar US$ 500 (em torno de R$ 1.000) de multa por entrar no país ilegalmente e acertar quaisquer outras dívidas fiscais. Criminosos ou os condenados por contravenções seriam excluídos.

Depois de trabalhar um número de horas na agricultura nos três a cinco anos seguintes, os candidatos e suas famílias poderiam pedir visto de residência permanente.

Os críticos reclamam que há muitos americanos desempregados que aceitariam esses empregos. A resposta de Carlton: "Vimos que isso não é verdade. Mesmo com 10% de desemprego, a agricultura não consegue atrair os americanos".

O trabalho é frequentemente quente, isolado, duro para as costas e temporário. Carlton disse que alguns produtores oferecem até US$ 15 por hora para cidadãos norte-americanos trabalharem nas colheitas, muito mais do que os estrangeiros ganham, mas sem sucesso.

Ainda assim, o projeto de lei tem implicações de emprego positivas para os cidadãos norte-americanos, disse Carlton: "É uma lei que defende o emprego de trabalhadores americanos, porque para cada pessoa que trabalha nos campos, há dois ou três empregos na cadeia de produção que dependem daquela pessoa". Ele cita fornecedores de equipamentos, caminhoneiros, caixas de supermercado, trabalhadores de restaurantes.

O governo Obama quer promover amplas mudanças na lei de imigração, permitindo que cerca de 12 milhões de pessoas se candidatem à residência legal. Mas como muitos políticos conservadores se opõem a qualquer tipo de anistia para os ilegais, a aprovação dessas mudanças parece improvável neste ano.

Os defensores da AgJobs, contudo, esperam que a lei mais concentrada no trabalhador rural seja aprovada.

"O Congresso tem que encontrar a coragem para fazer isso", disse o fazendeiro do condado de Palm Beach Rick Roth. "Somos empresários e precisamos saber que teremos mão-de-obra daqui a três, quatro ou cinco anos."

O advogado Rob Williams, do Projeto de Justiça do Trabalhador Rural Migrante em Lake Workth, ajudou a redigir a AgJobs e passou anos tentando implementá-la. Ele disse que a lei poderia ser aprovada na Câmara, mas os 60 votos no Senado seriam mais difíceis.

Quanto aos senadores da Flórida, os votos estão divididos. O democrata Bill Nelson é co-autor da lei. Um porta-voz do senador republicano George LeMieux disse que seu patrão não defende a AgJobs porque o projeto trata apenas de uma indústria e não aborda a questão de segurança nas fronteiras.

Carlton disse que, quando os aspectos de segurança e de custo alimentar da AgJobs forem explicados aos eleitores, eles vão apoiar a lei. Ele acredita que não é questão partidária, dada a natureza conservadora de sua organização e de outros que a apoiam.

"Representamos os produtores rurais", disse ele. "Não temos muitos liberais no grupo."

Tradutor: Deborah Weinberg

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