Temporada de tempestades aumenta vulnerabilidade do Haiti

John Lantigua

Em Petionville (Haiti)

  • Alan Marques/Folha Imagem

    Na imagem, barbearia funciona entre as barracas do acampamento montado por haitianos em frente ao palácio do governo

    Na imagem, barbearia funciona entre as barracas do acampamento montado por haitianos em frente ao palácio do governo

Wilbert Lucien franze a testa quando olha para as nuvens carregadas de chuva. Muitas pessoas fazem isso por aqui atualmente. "Pode ser muito ruim se for um furacão. Muito ruim", disse ele.

Os haitianos já viram o poder aterrorizante da natureza neste ano –no terremoto de 12 de janeiro- e o início da temporada de furacões deixou-os extremamente vulneráveis novamente.

Lucien está em um campo de refugiados do terremoto construído em uma ravina íngreme no limite de um campo de golfe nesta cidade, ao norte da capital Porto Príncipe.

Temporada de chuva preocupa haitianos

Desde o tremor, pelo menos 25.000 pessoas se estabeleceram aqui em barracos improvisados com pedaços de madeira, lonas plásticas e telhas de zinco. Essas frágeis estruturas mal se seguram na terra íngreme. Vento e chuva são as últimas coisas que necessitam.

Lucien, que disse que preferiria morar com seu primo, Maxwell Lucien, em West Palm Beach, Flórida, é guarda de segurança do campo. Ele teme que, no caso de uma grande tempestade, seja muito difícil proteger os moradores.

Mark Saintvil, que trabalha no campo para uma organização de saúde patrocinada pelo ator Sean Penn, concorda. Seu filho, Lilmark, costumava viver em Boynton Beach, Flórida, mas desde então se mudou para a Geórgia. O pai está contente que o filho não está no campo de refugiados.

"Se chegasse um furacão hoje, acho que haveria mortes", disse Saintvil.

Certamente a situação parece um desastre esperando para acontecer. Mas profissionais de assistência internacionais no Haiti não são tão pessimistas.

Eles dizem que os moradores da Flórida do Sul não devem imaginar que ventos como dos furacões Charley e Andrew, de categoria 4 e 5, atingirão a capital.

"Esta região é protegida por montanhas altas e dizem que os ventos nunca passaram de 135 km por hora por aqui", disse Richard Poole, do Comitê Americano de Refugiados.

Ainda assim, seria um furacão de categoria 1, e as estruturas nos campos de refugiados parecem extremamente frágeis para tanto.

Porém, a equipe da ONU e outros dizem que o povo haitiano está se preparando para a ventania. Desde o terremoto, o Haiti está cheio de especialistas em desastres naturais, engenheiros, construtores e profissionais da saúde.

"Neste instante no Haiti, a comunidade internacional tem uma capacidade tremenda", disse Giovanni Riccardi Candiani, diretor de planejamento de contingência do Escritório de Coordenação de Assistência Humanitária da ONU. "Temos uma grande capacidade de mitigar os efeitos de um furacão".

Ele disse que centenas de campos de refugiados, que abrigam desde dezenas de pessoas até 45.000 habitantes, brotaram em torno da zona do terremoto. Neles, vivem mais de um milhão de pessoas, mas os habitantes acreditam que quem corre maior perigo são aqueles que vivem nas áreas baixas.

"O perigo aqui não é tanto o vento, mas a água, as enchentes", disse Riccardi. "Se você revê Gonaives em 2004, aquelas pessoas morreram com a enchente, não com o vento."

Ele está se referindo à cidade no centro do país onde 3.000 morreram em chuvas tropicais há seis anos.

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"Na época, o maior problema no Haiti quanto às tempestades era avisar as pessoas sobre o que estava chegando e prepará-las", disse ele. "Agora, com todas as organizações aqui e o governo haitiano também, temos um sistema de advertência excelente".

Preparado para se mobilizar

Riccardi disse que uma "sala de emergência" tinha sido montada na sede da ONU perto do aeroporto de Porto Príncipe, que será ocupada por pessoal da ONU, organizações internacionais e ministros de governo haitiano.

"Se soubermos que virão 250 milímetros de chuvas nas próximas 24 horas, enviaremos caminhonetes, caminhões, helicópteros, o que for para as áreas mais vulneráveis antes da chuva cair", disse ele.

Ele disse que há planos de evacuação para algumas áreas. Mas para onde as pessoas serão evacuadas em uma região que viu dezenas de milhares de estruturas caírem no dia 12 de janeiro?

A resposta a essa questão é uma colcha de retalhos –um pouco como os barracos onde as pessoas moram agora.

Hal Taylor, 64, de San Jose Califórnia, voluntário da Igreja Metodista Unida, trabalha no campo de refugiados Tabarre, um bairro no limite de Porto Príncipe. O campo abriga cerca de 2.500 pessoas.

"O pessoal daqui têm o plano de contingência de ir para Tabarre ficar com as pessoas cujas casas de concreto ainda estão de pé, até passar a tempestade", disse ele.

Poole, do Comitê Americano de Refugiados, é diretor do novo campo a 25 km do centro de Porto Príncipe em um local chamado Corail. O campo abriga 5.000 pessoas em 1.300 espaçosas novas "tendas túnel", que são sustentadas por aros de fibra de vidro e devem suportar ventos de 120 km/h.

Poole disse que havia um plano de contingência no caso de ventos fortes. Os moradores removeriam os suportes das tendas e criariam estruturas que ficariam a 60 cm do solo, amarrariam essas estruturas e deitar-se-iam.

"A ideia é ficar próximo ao solo e deixar o vento passar por cima de você", ele disse, acrescentando que há outro plano para um campo que fica em região baixa.

"O proprietário da terra onde o campo está localizado também é proprietário do terreno acima do campo", disse ele. "Nós já combinamos com ele de remover essas pessoas para cima do morro se necessário."

Voltando para casa

Nem todos os proprietários de terra foram tão solícitos. Adquirir os direitos para usar propriedades privadas para abrigos tem sido um problema, novamente colocando os abastados contra os desprovidos no Haiti.

Especialistas em assistência humanitária também estão tentando fazer mais pessoas voltarem para suas antigas casas. Muitas dessas estruturas foram analisadas pelos engenheiros e consideradas seguras.

Todavia, muitos haitianos partiram de suas casas tão traumatizados pelo terremoto e os tremores subsequentes que se recusam a voltar. Os especialistas acreditam que, com o aumento das chuvas, mais pessoas farão a mudança.

Por outro lado, dezenas de milhares de pessoas não têm casa ou família a quem recorrer. Cidades fora de Porto Príncipe, tais como Jacmel e Leogana, foram atingidas ainda mais gravemente pelo terremoto e também estão mais expostas a fortes ventos de furacão.

Riccardi disse que há projetos sendo desenvolvidos para essas pessoas, mas não estão finalizados. Uma possibilidade é a construção de estruturas temporárias amplas onde possam se abrigar.

"Um grande armazém de aço com piso de concreto é algo que você pode construir em cinco dias", disse ele. "Temos essa capacidade. É algo possível."

Outro plano é rapidamente reconstruir grandes prédios públicos destruídos pelo terremoto, especialmente escolas, que também podem ser usados como abrigos de terremoto.

"As escolas têm que ser reconstruídas de qualquer forma", disse Riccardi. "Sei que parece que não dá tempo. A temporada de furacões já começou. Mas pode funcionar. Temos a capacidade, a tecnologia e esse tipo de recursos. Há uma longa tradição no Haiti de usar escolas e igrejas como refúgios durante tempestades."

Riccardi disse que as decisões estão próximas de serem feitas. Uma das pessoas que estão fazendo pressão para que haja mais ação é o ex-presidente Bill Clinton, co-diretor do Comitê de Reconstrução do Haiti na ONU. As decisões talvez sejam anunciadas nesta semana, sugeriu Riccardi.

Os haitianos que moram em campos de refugiados estão se perguntando por que as decisões ainda não foram tomadas.

Solange Bernard, 48, viúva que mora no campo St. Pierre Plaza em Petionville com seus filhos, disse que choveu muito na semana passada e sua tenda molhou.

"Eu e meus filhos tivemos que ficar em pé na cama e levantar o teto da tenda para evitar que a chuva passasse pelos buracos", disse ela. "Ainda assim vazou e tivemos que usar baldes. Sabemos que as pessoas estão tentando nos ajudar, mas o que vai acontecer quando chegar um furacão? Eles não disseram para onde iremos. Estou muito preocupada", disse ela.

Tradutor: Deborah Weinberg

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