Haitianos atingidos pelo terremoto encontram um escape durante a Copa do Mundo

John Lantigua

Porto Príncipe (Haiti)

  • Damon Winter/The New York Times

    Homem caminha desolado pelos destroços do terremoto que atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe

    Homem caminha desolado pelos destroços do terremoto que atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe

Quando o Brasil marcou seu primeiro gol na Copa do Mundo da FIFA de 2010, na terça-feira, a comemoração podia ser ouvida por toda esta capital destruída pelo terremoto – e talvez por todo o Caribe.

O Haiti, ainda se erguendo do tremor catastrófico de 12 de janeiro, que matou cerca de 250 mil pessoas, não se classificou para a competição de futebol na África do Sul. Mas o povo haitiano precisava de um time pelo qual torcer para elevar seus ânimos, e a maioria está torcendo pelo poderoso Brasil.


Historicamente, onde quer que alguém vá no Haiti, homens e meninos estão jogando futebol. Atualmente, na zona do terremoto, é possível ver partidas em andamento em campos improvisados pelos desabrigados pelo terremoto. É também possível vê-las nas ruas sujas e esburacadas, entre os prédios desmoronados e nos parques – pelo menos não naqueles repletos de tendas onde os sobreviventes estão refugiados.

 E durante a Copa do Mundo, os haitianos ficam reunidos ao redor de aparelhos de TV nesses campos. Ou em ruas onde alguém abriu uma lona plástica da ONU para oferecer uma sombra contra o sol. Ou nas lotadas ruas comerciais, nas calçadas rachadas pelo terremoto.

"O futebol está em nosso sangue", diz Lenzy Limage, 30 anos, um ex-vendedor de celulares que está desempregado desde o terremoto.

Ele está assistindo a Copa do Mundo em um velho televisor de 17 polegadas colocado sobre um balde de boca para baixo no lotado campo Champs de Mars, onde se encontram mais de 20 mil pessoas no centro da cidade. Um arame que sai do aparelho está preso no telhado metálico enferrujado de um barraco próximo.

Limage diz que torce para que seu país, que participou de sua única Copa do Mundo em 1974, consiga se classificar de novo algum dia.

"Mas dado o que aconteceu aqui, poderá demorar", ele diz. "Meu filho tem 6 anos. Talvez ele viva esse sonho."
Enquanto isso, Limage torcerá pelo Brasil.

Em pé atrás dele, entre o grande grupo de espectadores, está Abner Gerard, 56 anos, que trabalhou como alfaiate até a sede de sua empresa ruir no terremoto e matar seu chefe.

Perto deles está Wilhem Genisca, 38 anos, um professor de inglês de uma escola privada que também ruiu, o deixando temporariamente desempregado.

"Nós estamos cercados por evidências do terremoto", ele diz. "Mas a Copa do Mundo está pelo menos momentaneamente ressuscitando nosso povo."

Descendo a quadra, Rony Cadet, 25 anos, assiste aos jogos com outro amontoado de torcedores em um pequeno parque onde se encontra um monumento inacabado para o 200º aniversário da independência do Haiti, em 2004.

Cadet, um artista, permanece com uma tela enrolada sobre seu ombro.

"Os negócios estão ruins porque muita gente com dinheiro deixou o país desde o terremoto", ele diz.
Outro motivo é que muitas casas caíram. As pessoas precisam de paredes para pendurar quadros, e atualmente há menos paredes do que antes.

Em seu pescoço, Cadet usa um rosário azul claro, que o identifica como torcedor da Argentina. Depois do Brasil, a Argentina é a seleção mais popular entre os haitianos. Muitos são fãs de Diego Maradona, um ex-astro da Copa do Mundo e atualmente técnico da seleção argentina.

Cadet desvia sua atenção da TV por um momento.

"O que realmente precisamos é de empregos, desenvolvimento, educação", ele diz. "Mas a Copa do Mundo está fazendo muito bem para nós no momento, porque está ajudando a nos livrarmos do estresse."

Atravessando a cidade, é impossível escapar da torcida dos haitianos pelo Brasil. Motos e carros carregam a bandeira verde, amarela e azul. Homens e mulheres vestem a camisa amarela da seleção brasileira.

 

É perguntado a Riquel Remeder, um vendedor de bebidas alcoólicas de 57 anos, por que tantos haitianos adoram o Brasil. Ele cita Pelé, o grande artilheiro que jogou pela seleção brasileira dos anos 50 aos anos 70.

"Ele era um negro como nós e é considerado o maior jogador de todos os tempos", ele diz. "Certa vez ele veio aqui jogar contra o Haiti e eu o assisti em nosso estádio. Eu nunca vou esquecer. Foi quando nos tornamos fãs do Brasil."

A quilômetros dali, subindo a montanha acima da capital, no subúrbio mais rico de Petionville, o Harry"s Restaurant está lotado. Ele ocupa o pátio de um complexo de compras. Três televisores de tela plana estão pendurados a cerca de 3 metros do chão, para que todos possam assistir.


Dominique Jean Jacques, a esposa do proprietário, olha ao redor para sua clientela endinheirada. Alguns são empresários. Um é o baterista de uma popular banda haitiana. Também há europeus.

Outra mesa está ocupada pelos policiais que trabalham nas imediações.

"Eles não precisam se preocupar com crimes porque os bandidos também estão assistindo ao jogo", ela diz rindo. "Está todo mundo assistindo."

Momentos depois, o Brasil marcou novamente para a vitória por 2 a 1 sobre a Coreia do Norte. Os haitianos – incluindo os policiais e talvez alguns bandidos – pularam de seus assentos, comemorando.

Eles estão delirantemente felizes, mesmo que apenas enquanto dure a Copa do Mundo e as vitórias do Brasil.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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