Substâncias que dispersam o óleo ameaçam territórios de procriação, dizem especialistas em pesca

Bem Chambers

West Palm Beach (EUA)

  • Nick Tomecek/Northwest Florida Daily News/AP - 16.jun.2010

    Vazamento de petróleo no Golfo do México

    Vazamento de petróleo no Golfo do México

A 19 km da costa de Louisiana, um banco de areia submarino chamado Ship Shoal está cheio de caranguejos azuis. Esta seção arenosa do Golfo do México tem uma das maiores concentrações de caranguejos azuis do mundo. De abril a outubro, as fêmeas botam ovos neste local a cada 21 dias.

Neste ano, porém, pouco a leste do banco de areia, uma sopa tóxica de óleo dispersado ameaça a área. E os caranguejos azuis são apenas uma de muitas espécies que procriam nesta época do ano no norte do Golfo.

Especialistas em pesca dizem que mais de 6 milhões de litros de substâncias para dispersão foram aplicados desde a explosão da plataforma Deepwater Horizon no dia 20 de abril e podem causar danos amplos a muitas espécies que entram e saem da área.

Grandes peixes migratórios tais como o camurupim e o atum azul do Atlântico viajam centenas ou milhares de quilômetros para desovar em águas agora cheias de óleo. E muitos animais marinhos são mais sensíveis à toxidez quando se alimentam pela primeira vez, pouco após o nascimento.

"No caso do camurupim, os peixes estão se dirigindo para o local exato do derramamento", disse Jerald Ault, biólogo marinho na Universidade de Miami. "Eles vão passar de três a quatro meses naquela área e depois vão dar meia volta e migrar para fora".

Os dispersantes quebram o petróleo em gotículas menores, que criaturas marinhas podem absorver mais facilmente.

"Os caranguejos provavelmente estão sendo impactados neste momento pelo óleo liberado pelos dispersantes", disse Richard Condrey, oceanógrafo e professor de gerenciamento de pesca na Universidade Estadual de Louisiana.

As autoridades reabriram um trecho de 60.570 quilômetros quadrados perto da Deepwater Horizon, após testes indicarem que as concentrações de petróleo estavam baixas o suficiente para que os frutos do mar fossem comestíveis. Os grandes peixes migratórios, contudo, têm seus próprios mapas –e podem morrer por causa deles, enquanto nadam pelo óleo suspenso ou comem organismos contaminados.

Após usar a maior parte de sua energia para cruzar os mares e desovar, os peixes migratórios buscam uma boa fonte de alimentos. A água doce rica em alimentos que flui do rio Mississippi para o Golfo atrai muitos pequenos peixes forrageiros como o "menhaden" (Brevoortia tyrannus) e a sardinha, que os peixes predatórios grandes seguem.

Essa região fica apenas 80 km a noroeste do poço de petróleo.

"Quase todas as pequenas espécies forrageiras se alimentam por filtragem. Elas nadam pela água e usam seus filamentos branquiais para prender partículas alimentícias. Se houver partículas de óleo na água, quando os peixes nadarem para se alimentar vão acumular petróleo nos filamentos branquiais também. Isso provavelmente será fatal", disse Bob Shipp, diretor do departamento de ciências marinhas da Universidade do Alabama do Sul.

"Somos fortemente contra o uso de agentes dispersantes", disse ele. "Eles não destroem o petróleo. Não removem o óleo. Deixam-no na coluna de água, onde podem causar muitos danos a todos os habitats abaixo da superfície."

"Quando o óleo está na superfície, parte dele é volátil e se dissipa na atmosfera. Você pode queimar parte dele. Você pode filtrar parte dele. Se estiver na coluna de água, você não pode fazer nenhuma dessas coisas."

A dispersão do óleo apressa sua degradação, pois fica mais fácil para as bactérias agirem sobre ele. Mas as bactérias que degradam o petróleo usam grande parte do oxigênio da água, levando os peixes a fugirem ou morrerem.

Na baía de Perdido, na fronteira da Flórida com o Alabama, o nível de oxigênio recentemente estava em menos de duas partes por milhão. Abaixo desse nível, os organismos não podem sobreviver, disse Ship.

"Nós monitoramos o oxigênio o tempo todo, e essa é uma das piores leituras que já tivemos", disse ele.

O oceanógrafo químico John Kessler da Universidade A&M do Texas passou cerca de duas semanas tirando amostras de água em um raio de 10 km em torno da plataforma da BP Deepwater Horizon. Mais de 1.000 km abaixo da superfície, os níveis de gás natural estavam 100.000 vezes mais que o normal, reduzindo os níveis de oxigênio com a degradação pelas bactérias, disse Kessler.

Perto do local do acidente, os pesquisadores encontraram enorme mortandade de pirosômidos –organismos gelatinosos no formato de pepinos que servem de alimento para tartarugas marinhas ameaçadas de extinção.

"Havia milhares deles mortos na superfície, simplesmente uma erradicação em massa", disse Kessler.

A elevação do banco de areia de Ship Shoal faz dele uma ilha de vida em uma área conhecida como "zona morta", uma seção mais profunda do delta do Mississippi, onde os nutrientes excessivos levam a baixos níveis de oxigênio todos os verões.

O petróleo dispersado piora a situação, porque quando afunda no oceano, os organismos do fundo do mar o comem; estes, por sua vez, são comidos por organismos maiores. Ao longo da costa, gotículas de óleo estão sendo encontradas na casca de jovens caranguejos que são o principal alimento de peixes, tartarugas e pássaros costeiros.

Condrey diz que as toxinas do óleo vão se acumular nos tecidos adiposos desses organismos, particularmente nos ovários, afetando a reprodução.

"Este é um experimento gigante que o governo federal, o Estado e a BP iniciaram", disse Condrey. "Nós gostaríamos de poder sair e estudá-lo".

Tradutor: Deborah Weinberg

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