Vítimas de vazamento de petróleo temem ser esquecidas

Marcus K. Garner e Katie Lesli

em Atlanta (EUA)

  • Martin Dave/AP

    Homem caminha por praia atingida pela mancha de óleo ocasionado por vazamento após explosão de plataforma no golfo do México

    Homem caminha por praia atingida pela mancha de óleo ocasionado por vazamento após explosão de plataforma no golfo do México

Mark Link é um de centenas de moradores de Atlanta que tem uma casa de veraneio ao longo da Costa do Golfo. Agora que o poço foi fechado, Link, advogado, se preocupa com o que pode acontecer. Ele teme que, com o desaparecimento das imagens do petróleo jorrando e dos animais cobertos de óleo, também desaparecerá a urgência de restaurar a Costa do Golfo a sua condição prístina; que empresas vão falir e o valor das propriedades vai desmoronar quando as pessoas perderem o interesse em sua situação. E há precedência para esse tipo de negligência em grandes desastres. "Quando os holofotes forem desligados, as pessoas vão se esquecer", disse Link.

Os satélites enviaram imagens do espaço, assegurando a todos que o óleo na superfície do golfo está desaparecendo. O presidente Barack Obama e a BP prometeram acompanhar a situação até que todo o óleo seja limpo, todos os pedidos de indenização legítimos sejam pagos e que os prejudicados sejam recompensados.

O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, recentemente disse aos repórteres: "Acho que é bastante seguro dizer que, por causa dos efeitos ambientais da mãe natureza, do clima quente do golfo e da resposta federal, os muitos cenários de juízo final que foram levantados e repetidos não ocorreram e não ocorrerão".

Nem todos, é claro, estão tranquilos com o fim da situação de alarme; certamente não os moradores de Atlanta cujos negócios estão diretamente relacionados com o Golfo. "A BP quer que você acredite que o pior acabou. Mas para onde foi todo o petróleo?", diz Bill Demmond, diretor da Inland Seafood de Atlanta. Demmond estima que sua empresa tenha perdido US$ 75 mil (em torno de R$ 150 mil por semana; as ostras tiveram perda total).

Sob pressão da Casa Branca, a BP está depositando US$ 20 bilhões em um fundo para compensar as vítimas do vazamento de petróleo. Kenneth R. Feinberg, advogado proeminente de Washington, é administrador do fundo. Pessoas físicas, jurídicas e outros grupos afetados adversamente pelo vazamento podem escrever para Feinberg.

Muita coisa aconteceu desde 20 de abril, quando a plataforma Deepwater Horizon explodiu e afundou a 80 km da costa e 11 homens morreram. Enquanto o óleo cobria a Costa do Golfo, o país acompanhou as dificuldades da BP para encontrar uma solução, uma tecnologia não testada, qualquer coisa para deter o poço aberto.

Os americanos adquiriram um novo vocabulário, desde "morte estática" até "domos de contenção". Os proprietários de casas de verão e moradores sofreram com a interrupção da pesca, restaurantes e hotéis vazios. Invariavelmente, políticos foram acusados.

Esse desastre foi descrito como o "Katrina de Obama", com críticos sugerindo que a resposta da Casa Branca ao vazamento foi tão lenta e ponderada quanto a atenção imediata dada à cidade de Nova Orleans destruída pelo furacão e que nada foi aprendido de um desastre ao outro.

Ainda assim, os proprietários têm mais em suas mentes do que as próximas eleições.
Os sócios Lee Gall e Leo Cook moram em Atlanta. A casa que compraram em 2008 em uma praia em Okaloosa Island, que sempre era alugada na alta estação, ficou vaga durante todo o verão, depois que os veranistas abruptamente cancelaram suas reservas. "O lugar literalmente foi alugado desde o primeiro dia", disse Cook, advogado. "Mas acabou com o vazamento de petróleo".

Gall e Cook tinham contado previamente com um aluguel semanal de US$ 1.000 para sua casa na Flórida. Mas agora são os únicos destrancando a porta do condomínio e olhando para as águas cristalinas que parecem intocadas pelo petróleo.

Como resultado, são os principais reclamantes em um processo iniciado no mês passado pela firma de Atlanta Taylor English Duma que envolve apenas moradores de Atlanta com interesses na Costa do Golfo. Impaciente com a resposta da BP às suas necessidades, esses georgianos pediram para ser reembolsados pela perda de valor de propriedade e de renda de aluguel.

Jonathan Wilson, advogado da Taylor English Duma, disse que seus clientes estavam lidando com as consequências financeiras da recessão nacional em relação as suas posses na Costa do Golfo quando o vazamento de petróleo criou o caos.

"Se você estava tentando se recuperar em 2010, após o ano ruim que foi 2009, o vazamento de petróleo foi equivalente a um chute nos dentes", disse Wilson.

E é assim na costa: os proprietários de terras questionam se a região, muito admirada por sua resistência, pode ter ultrapassado os limites da recuperação e que os especialistas talvez não estejam contando tudo que sabem. Essas pessoas frustradas não querem que a BP parta; ainda assim, estão cheias do vazamento, da limpeza e da perturbação de toda sua rotina. Eles só querem suas vidas de volta.

Bonnie Henry, arquiteta de Atlanta, tem três propriedades alugadas em Fort Walton Beach, Flórida. Ela entrou com uma queixa na BP em junho que não foi respondida. Ela não desistiu nem mesmo após ter sido forçada a lidar com ajustes e mudanças constantes nas regras. O que ela quer é a volta à normalidade, o que vai exigir que algumas pessoas no Golfo façam vista grossa.

"Essa história tem dois lados", disse Henry. "Os pescadores e as pessoas que trabalham na água definitivamente não devem ser esquecidas. Mas para a indústria de turismo, estamos felizes que a história seja esquecida porque aí as pessoas voltarão."
 

Tradutor: Deborah Weinberg

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