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31/03/2005 - 04h28

Papa João Paulo 2º representa um retrocesso histórico para a Igreja Católica

Der Spiegel
Hans Küng*

Especial para Der Spiegel
Externamente, o Papa João Paulo 2º, que esteve envolvido ativamente na luta contra as guerras, a repressão e as ameaças aos direitos humanos, representa uma chama de esperança para todos aqueles que anseiam por liberdade. Internamente, no entanto, a sua gestão anti-reformista mergulhou a Igreja Católica Apostólica Romana numa profunda crise de credibilidade.

Hoje, a Igreja Católica esta diante de dilemas terríveis. O papa esta sofrendo de uma doença gravíssima e letal, e merece todas as manifestações de simpatia que tem recebido. Mas a Igreja precisa seguir caminho, e, diante da perspectiva da escolha de um novo papa, ela vai precisar de um diagnóstico, de uma análise que seja a mais objetiva possível da sua situação, a ser feita por especialistas. A terapia a ser seguida poderá ser discutida mais tarde.

Muitos se dizem impressionados com a capacidade de resistência deste líder bastante frágil e parcialmente paralisado da Igreja, um homem que, apesar de todos os tratamentos que ele andou seguindo, mal consegue falar. Ele vem sendo tratado com uma espécie de veneração, algo que jamais aconteceria, por exemplo, com um presidente americano ou um chanceler alemão que se encontrassem numa situação similar.

Outros se sentem preteridos por este homem que eles consideram como um mero detentor de cargo obstinado que, em vez de aceitar o caminho cristão da sua própria eternidade, está recorrendo a todos os meios à sua disposição para se manter no poder dentro de um sistema amplamente não-democrático.

Até mesmo para muitos católicos, este papa no extremo limite da sua força física, que se recusa a abandonar o seu poder, e o símbolo de uma Igreja fraudulenta que acabou ficando calcificada e tornou-se senil, por trás de sua fachada reluzente.

O clima festivo que prevaleceu durante o Segundo Concilio do Vaticano (1962-1965), ou Vaticano 2, desapareceu. As perspectivas de renovação, de um entendimento ecumênico e de uma abertura geral para o mundo, que o Concilio Vaticano 2 havia deixado transparecer, hoje parecem ter murchado, enquanto o seu futuro desponta como bastante sombrio. Muitos acabaram se conformando ou ainda, tomados pela frustração, estão considerando ate mesmo a possibilidade de darem as costas para esta hierarquia imbuída dela mesma.

O resultado disso é que muitas pessoas estão confrontadas a uma combinação impossível de alternativas: "ou você aceita as regras do jogo, ou deixa a Igreja". Uma nova esperança só poderá começar a brotar quando os membros da Igreja que atuam em Roma e no quadro do episcopado se re-orientarem em função da bússola dos Evangelhos.

Nos últimos anos, os raros lampejos de esperança ficaram limitados às tomadas de posição do papa contra a guerra no Iraque e a guerra em geral. O papel que o papa polonês desempenhou no final dos anos 80, quando ele contribuiu para precipitar o colapso do império soviético, também merece ser destacado, e com razão.

Mas este tem sido também fortemente exagerado pelos propagandistas papais. Afinal, o regime soviético não desmoronou por causa do papa (antes da ascensão de Gorbatchev ao poder, o papa conseguira realizar pouquíssimas coisas na URSS, tão poucas quanto as que ele esta realizando hoje na China). O que aconteceu foi que ele implodiu por causa das contradições econômicas e sociais inerentes ao sistema soviético.

Em minha opinião, Karol Wojtyla não é o maior entre os papas do século 20, mas ele e certamente o mais contraditório. E um papa de muitos talentos e também autor de muitas decisões equivocadas!

Para resumir o que caracterizou as suas realizações desde que ele assumiu as suas funções, e encontrar para elas um denominador comum, pode-se dizer que a sua "política externa" preconiza a conversão, as reformas e o diálogo por parte do resto de mundo.

Em contrapartida, ela entra fortemente em contradição com a sua "política interna", a qual esta orientada em direção a uma restauração do "status quo" que imperava durante o período pré-Concilio Vaticano 2, obstruindo a realização de reformas, vetando o diálogo dentro da Igreja e impondo o predomínio absoluto de Roma.

Esta contradição ficou evidente em muitos setores. Embora eu reconheça expressamente os lados positivos deste pontificado, os quais, com freqüência, tem sido objeto de uma repercussão oficial tão enfática quanto excessiva, eu gostaria de focalizar as suas nove contradições mais evidentes:

Os Direitos Humanos

Externamente, João Paulo 2º apóia os direitos humanos, enquanto internamente ele os estorva dos bispos, dos teólogos e especialmente das mulheres.

O Vaticano --que fora no passado um adversário decidido dos direitos humanos, mas que atualmente esta interessado sobremaneira em se envolver na política européia-- ainda precisa assinar a Convenção dos Direitos Humanos que foi produzida pelo Conselho Europeu em 1950.

Além disso, ainda existe uma quantidade excessiva de leis canônicas oriundas da legislação implantada pela Igreja romana absolutista durante a Idade Média que ainda estão vigentes e que precisariam ser emendadas em primeiro lugar.

O conceito da separação dos poderes, que é o fundamento de toda prática legal moderna, continua desconhecido e ignorado pela Igreja católica romana. O direito de todo indivíduo a um julgamento justo e dentro das leis continua sendo uma entidade desconhecida dentro da Igreja. Para resolver litígios, uma única e mesma agência do Vaticano funciona como legisladora, promotora e juiz.

  • As conseqüências:

    O episcopado e mantido numa atitude servil e precisa lidar com condições legais intoleráveis. Nenhum pároco, teólogo ou leigo que se arriscar a travar uma disputa legal com os mais altos tribunais da Igreja tem qualquer possibilidade de ver os seus direitos prevalecerem.

    O Papel das Mulheres

    O grande culto da Virgem Maria prega um conceito nobre da mulher, mas, ao mesmo tempo, a Igreja proíbe as mulheres de praticarem o controle de natalidade e se opõe ainda a que elas sejam ordenadas.

  • As conseqüências:

    Existe uma ruptura entre o conformismo aparente e a autonomia interna de consciência. Isso faz com que os bispos se voltem exclusivamente para Roma, indispondo-se com as mulheres e alienando-se delas, como foi o caso na disputa acerca da questão dos conselhos de orientação sobre o aborto na Alemanha.

    Em 1999, o papa deu ordem aos bispos alemães para fecharem esses centros de orientação, os quais emitiam certificados para mulheres que mais tarde poderiam ser utilizados para obter uma autorização para abortar. Tal atitude, por sua vez, resulta num êxodo crescente por parte daquelas mulheres que ate então haviam se mantido fiéis para com a Igreja.

    A Moral Sexual

    Este papa, enquanto prega contra a pobreza e o sofrimento em massa que assolam o mundo, torna-se ele mesmo parcialmente responsável por esse sofrimento como resultado das suas atitudes repressivas em relação ao controle de natalidade e diante do aumento explosivo da população mundial.

    Durante as suas inúmeras viagens e num discurso que ele pronunciou em 1994, na conferencia das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento, no Cairo, João Paulo 2º declarou a sua oposição à pílula e aos preservativos. O resultado disso é que o papa, mais que qualquer outro homem de Estado, pode ser tido como em parte responsável pelo aumento desenfreado da população que tem sido registrado em certos paises, e pelo alastramento da Aids na África.

  • As conseqüências:

    Até mesmo em paises tradicionalmente católicos tais como a Irlanda, a Espanha e Portugal, a rigorosa moral sexual preconizada pelo papa e pela Igreja católica romana tem sido aberta ou tacitamente rejeitada.

    O Celibato dos Padres

    Ao propagar a tradicional imagem do padre homem e solteiro, Karol Wojtyla assume a responsabilidade principal pela escassez catastrófica de padres que a Igreja enfrenta atualmente, pelo desmoronamento do bem-estar espiritual em muitos países, e pelos muitos escândalos de pedofilia que a Igreja não consegue mais encobrir.

    O casamento continua sendo proibido para os homens que concordaram em dedicar a vida ao seu sacerdócio. Este é apenas um exemplo de como este papa, assim como outros antes dele, esta ignorando os ensinamentos da Bíblia e a grande tradição católica do primeiro milênio, quando não precisava haver titulo, cargo ou função nenhuma para fazer voto de celibato.

    Para toda pessoa que, em virtude da função que ela ocupa, é forçada a passar a sua vida sem mulher nem filhos, existe um grande risco de ver fracassar uma saudável integração da sua sexualidade, o que pode conduzi-la a praticar atos de pedofilia, por exemplo.

  • As conseqüências:

    O contingente de sacerdotes está ficando cada vez mais reduzido, enquanto há uma carência de sangue novo na Igreja Católica. Em breve, cerca de dois terços das paróquias, seja nos países de língua germânica ou nos outros, no mundo inteiro, não terão nenhum pastor ordenado, nem celebrações regulares da Eucaristia.

    E um desfalque grave que nem mesmo o fluxo em declínio de padres originários de outros paises (dos padres que vivem e exercem na Alemanha, 1.400 são oriundos da Polônia, da Índia e da África) consegue esconder, nem mesmo a junção de diferentes paróquias em "unidades de bem-estar espiritual", uma tendência altamente impopular entre os fiéis.

    O numero de novas ordenações de padres na Alemanha despencou de 366 em 1990 para 161 em 2003, e a média de idade dos padres em atividade atualmente já esta acima dos 60.

    O Movimento Ecumênico

    O papa gosta de ser visto como um porta-voz do movimento ecumênico. Ao mesmo tempo, contudo, ele interveio pesadamente nas relações do Vaticano com as Igrejas ortodoxas e protestantes, e recusou-se a reconhecer os seus ofícios eclesiásticos e os ritos que estas praticam em torno da Comunhão.

    O papa poderia ter levado em conta os conselhos de várias comissões de estudos sobre a questão do ecumenismo, e seguido a pratica de muitos párocos locais que reconhecem os ofícios religiosos e os serviços da Comunhão em Igrejas não-católicas e permitem a hospitalidade eucarística.

    Ele poderia também ter temperado um pouco as exigências de poder, excessivas e medievais, do Vaticano, em termos de doutrina e de liderança da Igreja católica, em relação às Igrejas dos paises do leste da Europa e as Igrejas protestantes, e ele poderia ter dado um fim à política do Vaticano que consiste em enviar bispos católicos romanos para regiões dominadas pela Igreja ortodoxa russa.

    O papa poderia ter feito tudo isso, mas João Paulo 2º não quis.

    Em vez disso, ele preferiu preservar e até mesmo expandir o sistema de poder da Igreja romana. Por esta razão, ele lançou mão de uma estratégia ambígua e piamente falsa: A política de poder e de prestígio seguida por Roma e dissimulada por trás de discursos ecumênicos inócuos e de gestos vazios.

  • As conseqüências:

    O entendimento e a reconciliação no plano ecumênico foram suspensos depois do Concílio, enquanto as relações com as Igrejas ortodoxas e protestantes foram seriamente prejudicadas, sofrendo um retrocesso considerável.

    Este pontificado, assim como alguns dos seus predecessores nos séculos 11 e 16, provou ser o obstáculo mais importante em relação à unidade entre as Igrejas cristãs, dentro de uma dimensão de liberdade e diversidade.

    Política de Recursos Humanos

    Como bispo sufragâneo e, mais tarde, como arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla participou do Segundo Concílio do Vaticano. Contudo, como papa, ele menosprezou a colegialidade que havia sido instituída naquela ocasião e, em vez disso, celebrou o triunfo do seu pontificado, à custa dos bispos.

    Na condução das suas "políticas internas", este papa traiu as decisões do Concílio em muitas oportunidades. Em vez de utilizar certas palavras que haviam sido definidas no programa do Concílio, tais como "Aggiornamento - Dialogo e Colegialidade - ecumênico", os termos que vigoram atualmente nos planos da doutrina e da pratica são "restauração, realização de conferencias, e romanização da Igreja".

    Os critérios que definem a admissão de um bispo nada têm a ver com o espírito do Evangelho nem com a abertura de espírito pastoral, e sim, muito mais com uma lealdade absoluta em relação à linha política seguida em Roma.

    Antes de eles serem confirmados na sua função, o conformismo fundamental dos candidatos a bispo é testado com base num questionário elaborado pela cúria, e o seu compromisso e ratificado e sacramentado por meio de um juramento pessoal de obediência ilimitada ao papa que, em muitos pontos, se parece com o juramento que os nazistas prestavam perante o seu "Füehrer"

    Entre os bispos de língua alemã que são amigos do papa, figuram o cardeal da cidade alemã de Colônia, Joachim Meisner, o bispo de Fulda, Johannes Dyba, que morreu em 2000, Hans Hermann Groer, que se demitiu do seu cargo de cardeal de Viena em 1995, quando foi acusado de ter abusado sexualmente de vários alunos, alguns anos antes, e o bispo de St. Poeltin, Kurt Krenn, que acaba de perder o seu cargo em conseqüência da descoberta pela imprensa de um caso de práticas sexuais pouco condizentes com a ética católica, por parte de padres e de seminaristas, e que se transformaram em mais um escândalo.

    Estes são apenas alguns exemplos mais espetaculares dos equívocos desta política de recursos humanos que se revelou devastadora em termos pastorais, e que fizeram com que os níveis pastoral, intelectual e moral do episcopado desabassem perigosamente.

  • As conseqüências:

    Este episcopado extremamente medíocre, ultra conservador e servil constitui provavelmente uma das heranças mais dramáticas e críticas deste pontificado excessivamente longo. As multidões de católicos fervorosos que comparecem às manifestações mais bem promovidas pelo Vaticano e mais bem encenadas pelo Papa não enganam a ninguém.

    Devem ser contados aos milhões aqueles que deram as costas para a Igreja durante este pontificado ou que se retiraram da vida religiosa para manifestar a sua oposição.

    O Clericalismo

    O papa polonês desponta como um representante profundamente religioso da Europa cristã, mas as suas aparições triunfantes e as suas políticas reacionárias despertam, com freqüência de maneira não-intencional, a hostilidade em relação à Igreja e até mesmo uma aversão para com o cristianismo.

    Na campanha de evangelização conduzida pelo papa, baseada numa moralidade sexual completamente fora de compasso em relação à época em que estamos vivendo, as mulheres, em particular, que não compartilham as posições do Vaticano em relação a várias questões controversas tais como o controle de natalidade, o aborto, o divórcio e a inseminação artificial, são desacreditadas, e acusadas de promoverem uma "cultura da morte".

    Como resultado dessas intervenções --na Alemanha, por exemplo, onde ela procura exercer uma influência sobre a classe política e o episcopado na disputa que cerca a questão do serviço de orientação sobre o aborto-- cúria romana transmite a impressão de que ela tem pouquíssimo respeito pela separação legal entre a Igreja e o Estado.

    Nesse sentido, o Vaticano (que, na esfera da União Européia, utiliza o Partido do Povo Europeu como intermediário e porta-voz) também está tentando exercer pressão --um lobby-- sobre o Parlamento Europeu promovendo a contratação de especialistas em questões relacionadas à legislação sobre o aborto, por exemplo, que sejam especialmente leais a Roma.

    Em vez de se integrar as principais correntes sociais presentes em todos os países, e de dar o seu apoio para soluções equilibradas, a cúria romana, por meio das suas proclamações, e recorrendo a movimentações secretas de bastidores (que passam pelas nunciaturas, pelas conferências episcopais e as intervenções de "amigos"), está de fato instigando a polarização entre os movimentos que "defendem a vida" e os que "defendem a liberdade de escolha", ou seja, entre moralistas e "devassos".

  • As conseqüências:

    A política clerical de Roma de nada serve, a não ser para fortalecer as posições dogmáticas dos ateus anti-clericais e fundamentalistas. Ela também provoca a suspeita entre os fiéis de que a religião poderia estar sendo manipulada para fins políticos.

    Sangue Novo na Igreja

    Como comunicador carismático e estrela dos meios de comunicação, este papa é especialmente eficiente para atrair a simpatia dos jovens, mesmo ao envelhecer. Mas ele obtém este resultado concentrando-se em grande parte nos seguidores dos "novos movimentos" conservadores de origem italiana, do movimento "Opus Dei", que teve origem na Espanha, e, de modo geral, num público leal ao papa e pouco inclinado a criticá-lo.

    Tudo isso é sintomático da estratégia do papa quando se trata de lidar com o publico leigo e da sua incapacidade de dialogar com os seus críticos.

    As mais importantes manifestações regionais e internacionais da juventude promovidas pelos novos movimentos laicos (Focolare, Comunione e Liberazione, St. Egidio, Regnum Christi) e supervisionados pela hierarquia da Igreja atraem centenas de milhares de jovens, muitos dos quais são bem-intencionados, porém gravemente desprovidos de senso critico.

    Numa época em que eles estão carentes de figuras de liderança convincentes, estes jovens estão, sobretudo, impressionados pelo fato de estarem participando de um "evento". Nisso, o magnetismo pessoal de "João Paulo Superstar" exerce geralmente um papel mais importante do que o conteúdo dos discursos que ele pronuncia, enquanto os seus efeitos sobre a vida paroquial são mínimos.

    Ao ater-se ao seu ideal de uma Igreja uniforme e obediente, o papa mostra que ele enxerga o futuro da Igreja católica quase que exclusivamente nas atividades desses movimentos laicos conservadores, facilmente controláveis.

    Essa tendência também induz o Vaticano a se distanciar da ordem jesuíta, a qual está orientada de acordo com os princípios que foram definidos pelo Concílio. Preferidos pelos papas precedentes, os jesuítas, por causa de suas qualidades intelectuais, de sua teologia critica e de suas opções teológicas liberais, são agora vistos como obstáculos nas atividades políticas de restauração dos valores conservadores promovidas pelo papa.

    No lugar dos jesuítas, Karol Wojtyla, ate mesmo quando ele exercia o cargo de arcebispo de Cracóvia, investiu a sua confiança plena e total na organização Opus Dei, um movimento financeiramente poderoso e influente, porem não-democrático e fechado.

    Esse grupo, que tivera vínculos com regimes fascistas no passado, hoje mostra ser particularmente ativo no mundo das finanças, na política e no jornalismo. De fato, ao oferecer a Opus Dei um status legal especial, o papa tornou esta organização ate mesmo isenta de qualquer supervisão ou controle por parte dos bispos da Igreja.

  • As conseqüências:

    Os jovens que participam de congregações e de grupos ligados à Igreja (com a exceção dos servidores mais exaltados), e especialmente os não-organizados "católicos comuns", costumam se manter afastados das mais importantes reuniões da juventude.

    As organizações da juventude católica que porventura se encontram em conflito com o Vaticano sofrem um processo disciplinar e são deixadas sem recursos a partir do momento em que os bispos locais, por ordem de Roma, seguram as suas subvenções.

    O papel cada vez mais importante do movimento arqui-conservador e não-transparente Opus Dei em muitas instituições tem instaurado um clima de incerteza e de suspeição. Os bispos que no passado haviam se mostrado críticos a seu respeito acabaram "fazendo as pazes" com a Opus Dei, enquanto as pessoas leigas que chegaram a se envolver com a Igreja acabam se retirando, resignadas.

    Pecados do Passado

    Apesar de ter sido obrigado, em 2000, a se submeter a uma confissão pública a respeito das transgressões históricas cometidas pela Igreja, João Paulo 2º não tirou quase nenhuma conseqüência pratica deste Mea Culpa.

    Esta confissão barroca e bombástica das transgressões da Igreja, que foi encenada perante cardeais na catedral São Pedro, se revelou imprecisa, não especifica e ambígua. O papa apenas pediu perdão pelas transgressões praticadas pelos "filhos e filhas" da Igreja, mas não por aquelas praticadas pelos "Santos Pais", nem aquelas cometidas por aqueles que fazem parte da "Igreja em si" e das hierarquias que estavam presentes naquele evento.

    O papa nunca emitiu qualquer comentário a respeito das negociações da cúria com a máfia, e na verdade contribuiu muito mais para encobrir do que para desvendar escândalos e comportamentos criminosos. O Vaticano também tem se mostrado extremamente lento em perseguir e reprimir os escândalos de pedofilia que vem envolvendo o clérigo católico.

  • As conseqüências:

    A confissão sem convicção do papa não resultou em quaisquer desdobramentos, e não produziu nenhuma reviravolta, nem qualquer tipo de ação, ficando apenas nas palavras.

    Para a Igreja católica, este pontificado, apesar dos seus aspectos positivos, caracterizou-se no seu conjunto como uma imensa decepção e, em última instancia, como um completo desastre.

    Em função das suas contradições, este papa polarizou profundamente a Igreja, alienou-a de um sem-número de pessoas e mergulhou-a numa crise muito grave --uma crise estrutural que, depois de um quarto de século, está agora revelando déficits fatais em termos de desenvolvimento, além de uma necessidade tremenda de reformas.

    Ao contrário de todas as intenções que haviam sido anunciadas durante o Segundo Concílio do Vaticano, o sistema medieval que caracteriza a Igreja católica romana, um aparato de poder dotado de características totalitárias, foi restaurado por obra de alguns dos seus membros, que são pessoas astuciosas e impiedosas, e por meio de políticas acadêmicas.

    Muitos bispos foram obrigados a se alinhar; muitos párocos ficaram sobrecarregados, muitos teólogos se viram forçados a se manter em silêncio, muitos laicos foram privados dos seus direitos, as mulheres sofreram uma discriminação ainda mais dura, os pedidos dos sínodos nacionais e dos católicos praticantes foram ignorados, assim como foram os escândalos sexuais, enquanto continuam sendo proibidas as discussões sobre os temas mais polêmicos.

    Além disso, continuam pesando sobre a vida da Igreja todas as proteções especiais envolvendo a liturgia, assim como a proibição de fazer sermões que foi imposta aos teólogos laicos, o incentivo à delação, e decisões que impedem certos fiéis de receberem a sagrada comunhão - "O mundo" dificilmente pode ser considerado como responsável por tudo isso!!.

    O principal resultado e que a Igreja católica perdeu completamente a enorme credibilidade de que ela desfrutara certa vez durante o pontificado de João 23 e na esteira do Segundo Concílio do Vaticano.

    Caso o próximo papa der continuidade às políticas seguidas por este pontificado, ele nada mais fará que consolidar um enorme acúmulo de problemas e transformará a atual crise estrutural da Igreja católica numa situação de impasse sem qualquer esperança.

    Ao contrario, o novo papa precisara tomar decisões que favoreçam mudanças profundas nos rumos a serem tomados, e inspirar a Igreja a seguir por novos caminhos --dentro do espírito apontado por João 23, e de maneira coerente com o anseio por reformas que foi demonstrado pelo Segundo Concilio do Vaticano.

    *Hans Kung e uma das principais lideranças, hoje, entre os teólogos católicos. Ao longo de décadas, Küng, um súdito suíço radicado na cidade de Tübingen, no sul da Alemanha, andou envolvido em querelas constantes com as autoridades da Igreja.

    Numa reação contra os seus questionamentos críticos do pontificado, o Vaticano retirou-lhe em 1979 o titulo episcopal que lhe permitia ser professor.

    Apesar de tudo, Küng, 75, ainda é padre e, até o seu afastamento da docência, em 1995, ele estava ensinando a teologia ecumênica na universidade de Tübingen. Como presidente da Fundação Ética Global, Küng e também consultor das Nações Unidas.
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