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19/07/2005

Documento revela que Alemanha poderia impedir os EUA de usar armas nucleares

Der Spiegel
Klaus Wiegrefe
Durante a Guerra Fria, a Alemanha Ocidental abrigou mais de 5 mil artefatos nucleares. Mas eles estavam sob controle americano. Mas agora, documentos confidenciais recém liberados indicam que em caso de uma guerra nuclear, o chanceler alemão teria poder de veto no uso da Alemanha Ocidental como plataforma de lançamento. Os mísseis americanos estavam dispostos por toda a Alemanha Ocidental durante a Guerra Fria.

Soa um pouco como um roteiro de filme de Chuck Norris do início dos anos 80: a União Soviética e outros países do bloco soviético estão em crise econômica. Parte de uma Iugoslávia em desintegração quer se juntar ao Ocidente e, para impedir a deserção, Moscou mobiliza suas forças militares.

A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) responde à provocação enviando tropas adicionais para a Europa. Os países do Pacto de Varsóvia atacam e, em conseqüência, nervosos oficiais militares da Otan (após consultar seu grande combatente, Norris, é claro) pedem ao presidente dos Estados Unidos que emita uma ordem para uso das armas nucleares dispostas na Alemanha.

Mas longe de ser apenas um enredo de filme "B", políticos e oficiais da Otan passaram décadas imaginando tais cenários, cientes de que poderiam algum dia se tornar uma terrível realidade. O que aconteceria exatamente neste tipo de situação foi um dos segredos mais bem guardados da Guerra Fria.

Sob que circunstâncias a Casa Branca autorizaria um inferno nuclear? Igualmente importante, quanta influência teria o chanceler alemão na decisão de lançamento de armas de destruição em massa a partir de solo alemão?

Agora, pela primeira vez, o Arquivo de Segurança Nacional, um arquivo independente de documentos confidenciais do governo liberados segundo a Lei de Liberdade de Informação, conseguiu fazer com que o governo americano liberasse documentos oficiais que lançaram uma luz sobre tais questões.

Segundo os documentos recém-liberados, o governo alemão em Bonn tinha direito de veto quando se tratava de uma parte significativa --talvez toda-- do arsenal nuclear disposto em solo alemão ocidental. A Alemanha Ocidental, em outras palavras, tinha mais soberania do que seus cidadãos acreditavam.

Um país coberto de armas nucleares

Os americanos trouxeram as primeiras armas nucleares para a Alemanha Ocidental --um país localizado estrategicamente na fronteira com o bloco oriental-- em março de 1955.

Ao longo dos anos, mais de 20 tipos diferentes de armas nucleares foram dispostas entre Flensburg, no extremo norte, e Berchtesgaden, à sombra dos Alpes no sul do país: bombas aéreas, minas terrestres, mísseis de 203 milímetros, ogivas.

Segundo estimativas internas americanas, a força explosiva combinada deste arsenal era de cerca de 5 mil vezes a da bomba lançada em Hiroshima.

A decisão de uso das armas cabia ao presidente dos Estados Unidos, mas em uma emergência, mesmo um comandante militar americano de menor escalão era autorizado a ordenar um inferno radioativo. Franz Josef Strauss, o ministro da Defesa da Alemanha entre 1956 e 1962, se queixou posteriormente de que "nem mesmo tinha acesso à lista de alvos nucleares".

Mas Washington mostrou a lista para um dos principais associados de Strauss. O homem ficou horrorizado. "Não restaria nada da Alemanha", disse ele. Alguns alvos estavam até mesmo selecionados para múltiplos ataques nucleares, uma prática conhecida em jargão militar como "afterburning".

Em 1962, os Estados Unidos finalmente concordaram em consultar seus aliados --"caso o tempo permita"-- se o uso de armas nucleares fosse iminente em qualquer parte do mundo. Pelo menos é o que dizem os documentos recém-liberados.

Mas isto não era suficiente para o governo do democrata-cristão Ludwig Erhard, um forte defensor da aliança transatlântica. Em 1965, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Dean Rusk, tentou mitigar os temores de Erhard lhe dizendo que "a Alemanha tem de fato o veto". Em caso de uma guerra, disse Rusk, o chanceler poderia declarar suas condições e o presidente "as levaria em consideração".

Vetando a catástrofe nuclear

Os alemães permaneceram cautelosos e pressionaram por um acordo formal.

Em 1967, Karl Carstens, o então ministro da Defesa e posteriormente presidente da Alemanha, exigiu que os alemães fossem informados ao mesmo tempo em que os altos comandantes da Otan pedissem ao presidente americano a permissão para lançar armas nucleares a partir do território alemão ocidental ou detonar tais armas em solo alemão, incluindo a Alemanha Oriental.

Carstens exigiu que a Alemanha recebesse poder de veto sempre que o uso de armas nucleares envolvesse a participação de unidades militares alemãs. Estima-se que esta cláusula se aplicava a cerca de um terço das mais de 5 mil ogivas nucleares dispostas na Alemanha Ocidental.

A partir do final dos anos 50, o arsenal militar alemão incluía as armas e as aeronaves necessárias para transportar tais ogivas. Apesar de as ogivas em si permanecerem sob custódia americana, as tropas alemãs guarneciam os silos e bombardeiros que lançariam e disparariam as ogivas.

Após poucos meses, o então presidente dos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson, finalmente concordou com as exigências da Alemanha. Em 9 de setembro de 1968, Johnson assinou uma carta ao chanceler alemão, Kurt Georg Kiesinger, na qual concedia a Kiesinger o veto requisitado e prometeu consultar o chanceler alemão antes de emitir uma ordem de lançamento de armas nucleares --uma promessa renovada sempre que um dos dois aliados passava por uma mudança em seus respectivos governos, e que pode ser válida ainda hoje.

Apenas no caso de um "lançamento geral" de todas as armas nucleares --após um ataque soviético ao território americano, por exemplo-- Washington se reservava o direito de atacar imediatamente.

Especialistas discordam sobre o valor dasd garantias

Rigorosamente, o veto se aplicava a apenas uma entre três ogivas. Mas o ex-inspetor geral das forças armadas alemãs, Wolfgang Altenburg, considera inconcebível que, caso Bonn fizesse objeção ao uso de ogivas nucleares com sistemas de entrega alemães, as tropas americanas ignorariam o veto e lançariam as armas nucleares a partir da Alemanha Ocidental de qualquer forma.

Esta posição é apoiada por uma declaração interna feita pelo então ministro da Defesa e subseqüente chanceler Helmut Schmidt, que disse que tal atitude por parte dos Estados Unidos provocaria uma crise na aliança. Também é difícil imaginar que as forças americanas conduziriam uma guerra na Europa Central sem os alemães.

A Casa Branca insistiu em manter o acordo em segredo de outros aliados. Segundo os documentos americanos liberados, nem todos os alemães respeitaram as exigências americanas sobre isto.

Em 1969, o então ministro da Defesa, Schmidt, mencionou o acordo ao seu par britânico e Washington foi informada prontamente. Schmidt, um social-democrata, logo recebeu uma visita do embaixador americano Kenneth Rush, que pediu que ele mantivesse mais discrição. Após a reunião, o diplomata notou que Schmidt "entendeu". Cerca de 5 mil ogivas estavam em território alemão na Guerra Fria George El Khouri Andolfato

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