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10/09/2005 - 02h41

Katrina escancara o preconceito racial dos EUA

Der Spiegel
Marc Pitzke

Em Biloxi, Mississippi
A violência e a devastação do furacão Katrina superaram totalmente as agências federais de assistência. Agora, porém, muitos estão começando a dizer que o racismo também pode ter tido um papel na lentidão da resposta de emergência. Os negros pobres, no final, agüentaram o pior da ira do Katrina.

Aaron Hazebolton, queimado de sol, senta-se melancolicamente na frente de uma pilha de destroços em Beach Boulevard, Biloxi. O monte de aço e madeira é tudo que restou de sua casa. E como tem sido rara a presença da polícia desde o furacão, ele mesmo está vigiando os destroços --e procurando qualquer coisa de valor deixado pelo Katrina. Até agora, porém, só o que pôde encontrar foram algumas chaves de fenda velhas.

Ele perdeu tudo. Quanto a reconstruir --como muitos dos vizinhos planejam fazer-- ele diz: "Ainda não pensei muito nisso." Por enquanto, está tentando sobreviver. Mesmo assim, encontrou tempo para um pequeno ato de patriotismo; a bandeira americana flameja ao vento sobre a pilha de destroços.

É um gesto de orgulho --da bandeira e dos EUA. Isso atualmente não é garantido em Biloxi, nesses tempos difíceis depois de um dos desastres naturais mais devastadores da história do país. Os erros do governo federal durante as operações de evacuação, busca e resgate foram grandes demais para isso.

Só em Biloxi, centenas de famílias negras estão vivendo em meio a ruínas. No pôr-do-sol, eles se sentam na frente de suas casas semi-destruídas, em varandas emendadas ou em barracas sem água e sem energia elétrica.

Uma semana depois da tempestade, as ruas de Biloxi ainda estão bloqueadas por barcos lançados violentamente pelo Katrina. Na seção mais pobre da cidade, Division Street, a única indicação de que as autoridades passaram por ali são as cruzes vermelhas pintadas nas paredes das casas --marcas do coveiro.

Uma semana depois do Katrina, uma nova dimensão da catástrofe está sendo exposta. Junto com os alagamentos devastadores, o furacão também conseguiu expor a realidade social nua e crua de Nova Orleans, Mississippi e Alabama --uma realidade que agora foi transmitida por todo o planeta: a parte mais atingida foi a parte mais fraca da sociedade americana-- pobres, negros, velhos e doentes. Primeiro, veio o desastre natural; depois a resposta oficial desastrosa que foi de pouca ajuda, ou nenhuma.

É claro que as tempestades, não conhecem distinções de raça ou classe. O Katrina --que atingiu uma região que tem quase o tamanho do Reino Unido-- destruiu casebres nas favelas e caras mansões, inclusive a do senador republicano do Mississippi, Trent Lott. Muitos, porém, apontaram que alguns grupos na sociedade americana sofreram mais que outros. Críticas à lenta resposta federal antes e depois do furacão --e ao presidente George W. Bush-- não param.

À primeira vista, vê-se que as reclamações são justificadas. Em meio à destruição do Katrina, os lugares com maior número de mortos tendem a ser onde os residentes não puderam seguir a ordem de evacuação, que presumia mobilidade.

Esses moradores também tinham outra coisa em comum: a maior parte era negra. E agora, também está ficando claro que essas áreas são as últimas a receberem ajuda.

Em Motts Point, os estivadores, brancos e negros, subitamente desempregados, estão sentados há dias sem eletricidade, água, telefone ou combustível, em pequenas cabanas na estrada, esperando ajuda. Ao mesmo tempo, seus vizinhos de Pascagoula há muito pilotaram seus carros de luxo de volta para suas casas para inspecionar os danos e começar o processo de reconstrução.

Em Biloxi, os cassinos por enquanto estão usando seus próprios funcionários para limpar suas instalações duramente atingidas --ao mesmo tempo, famílias negras com fome estão implorando por empregos. Do lado de fora de casas duramente danificadas da vizinhança, lêem-se cartazes pintados com "queremos trabalho" e "trabalho por dinheiro".

É como se o Katrina tivesse ministrado uma violenta lição sobre a constituição social dos EUA. Muito do que aconteceu, diz o reverendo Calvin Butts, da Igreja Batista Abissínia no Harlem, tem a ver com raça e classe. Essa opinião também está sendo repetida por colunistas conservadores. "Os ricos escaparam, enquanto os pobres foram abandonados", escreveu David Brooks, do "New York Times".

Como isso pode ter acontecido, em uma democracia que se vê como modelo para o resto do mundo, e que agora se tornou assunto de um debate amargo?

No centro do redemoinho está um presidente que pareceu mostrar mais compaixão em seu discurso após a recente morte do presidente da Suprema Corte, William Rehnquist, do que durante sua visita à Costa do Golfo na semana passada.

Muitos, como os Eleitores Negros do Congresso, rapidamente acusaram-no de racismo. "George Bush não se preocupa com os negros", disse a estrela do rap Kanye West, em um show beneficente no final de semana. Bernadette Washington, que conseguiu escapar do inferno de Nova Orleans, disse: "É como se nós negros estivéssemos condenados."

Se Bush está na frigideira, Michael Brown, diretor da Fema, está no fogo. A ex-senadora Carol Moseley Braun criticou fortemente os esforços de assistência. Ela, como outros, observou que se as vítimas fossem primariamente brancas, a ajuda teria chegado muito mais rápido.

"Essa é uma ilustração bem gráfica de quem é deixado para trás nesta sociedade -literalmente", disse ao "New York Times" o sociólogo Christopher Jencks, de Harvard.

Talvez seja uma coincidência macabra que o Escritório do Censo tenha divulgado suas estatísticas mais recentes sobre a pobreza nos EUA um dia após o Katrina atingir a Costa do Golfo. O índice de pobreza cresceu de 12,5 % em 2003 para 12,7% em 2004. O número dos que vivem abaixo da linha de pobreza aumentou em 1,1 milhão, para um total de 37 milhões. Desses, um em cada quatro é negro e um em cada cinco é hispânico. Somente 8,6% são brancos.

O desastre meteorológico e humano criado pelo Katrina gerou um terremoto político em Washington, independentemente de quem levará a culpa no fim. "É tudo sobre aparências no momento", disse o ex-secretário do Trabalho, Alexis Herman --que no domingo ainda não sabia do paradeiro de 10 familiares em New Orleans.

"Os sobreviventes estão convencidos de que foi racismo". Se não, foi claramente um caso de severa incompetência. Lembra muito a resposta atrapalhada aos ataques de 11 de setembro: a reação tardia de Bush; o caos burocrático; a impressão de que o governo federal tinha pouca compaixão pelas vítimas. "Katrina é uma repetição com vingança", escreveu Frak Rich no "New York Times".

Os democratas, por enquanto, se mantiveram afastados do debate feroz. Primeiro porque, por enquanto, não parece haver necessidade de combustível partidarista para manter o fogo queimando. Segundo porque, para o partido, é uma situação que não tem vencedores. Definitivamente eles não querem ser vistos tirando vantagem política de uma tragédia nacional.

Até agora, somente a senadora Mary Landrieu --cujo pai foi prefeito de Nova Orleans-- entrou na ofensiva. Ela disse que "socaria" qualquer um "inclusive o presidente" que questionasse publicamente a resposta municipal à tragédia.

Os índices de aprovação de Bush já tinham atingido um ponto baixo antes da chegada do Katrina, e agora ele parece ter compreendido os problemas políticos que está enfrentando. Sua agenda foi completamente liberada e ele fez planos de visitar a região mais uma vez, na terça-feira --desta vez, presume-se, as piadas serão contidas. Mas não se pode evitar a impressão de que essa rápida mudança é menos para aliviar o sofrimento das vítimas do que para salvar a própria existência política de Bush ou pelo sucesso ou fracasso de sua agenda política.

De Louisiana até o Alabama, os últimos dias testemunharam milhares de cenas de solidariedade comoventes, entre pobres e ricos e entre brancos e negros. "Juntos Venceremos" está escrito em uma parede do centro devastado de Gulfport --o lema que também foi ouvido depois dos ataques de 11 de setembro.

Soldados da Guarda Nacional, recém chegados dos horrores do Iraque trabalham ao ponto da insolação para dar água e comida às vítimas negras. Policiais brancos tentam confortar refugiados negros. Linhas de cruzeiros tornaram os hotéis flutuantes de luxo em abrigos de emergência, e milionários estão enviando milhões para contas de organizações humanitárias.

Em Tillmans Corner, a Primeira Igreja Batista se reúne para a missa de domingo. Do lado de fora, as SUVs com Jesus nos vidros estão estacionadas. Dentro, os adoradores agradecem ao Senhor por sua sobrevivência. Então, o pastor Greg Pouncey sobe ao altar: "É quase como se nos sentíssemos culpados por termos sobrevivido intactos".

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