UOL Notícias Internacional
 

27/12/2005

Uma nação-estado é capaz de salvar o mundo?

Der Spiegel
Alexander Jung
Em Hamburgo
Leia também:
  • Parte 1: O que uma nação pode fazer para domar a globalização
  • Parte 3: O papel das grandes empresas entre os países e o globo

    Köhler avalia as dificuldades para se domar esse monstro. Quando era jovem, ele foi presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma posição na qual travou várias batalhas com os norte-americanos. A intenção dos Estados Unidos é dominar o FMI, da mesma forma que procuram controlar a Organização Mundial de Comércio (OMC) e o Banco Mundial.

    Nada acontece nessas instituições sem a aprovação dos Estados Unidos. Esse é o motivo pelo qual, em última instância, se faz tão pouco progresso por meio desses órgãos. Os norte-americanos têm pouco interesse em novas regras. Até o momento, o poderoso lobby financeiro dos Estados Unidos também resistiu a quaisquer tentativas de conter os especulativos fundos multimercados (hedge funds).

    Esses leviatãs não atacam apenas companhias e países inteiros com os seus bilhões de dólares; o seu apetite pelo risco e pela falta de transparência ameaça a estabilidade da economia global. No seu desejo de maximizar os lucros, eles assumem riscos enormes, freqüentemente com o dinheiro dos outros.

    Pouco se pode fazer em nível nacional para disciplinar os fundos multimercados globais --um fato que ressalta a posição precária da política nesta era da globalização. Será que o Estado se tornou totalmente impotente? Estaria ele inequivocamente à mercê do capitalismo global?

    Berlim Central, o velho prédio do Conselho de Estado Alemão Oriental próximo ao Rio Spree: em setembro, tiveram início os cursos da nova Escola de Governança Hertie. Os 30 alunos da primeira turma da instituição esperam conseguir empregos de ponta em organizações globais, nas instituições da UE ou junto às autoridades federais e estaduais alemãs. O diretor Michael Zürn, 46, sustenta que essas instituições governamentais ainda contam com poder, mesmo na era da globalização. "A nação-estado ainda é capaz de promover intervenções", garante o professor.

    Ele reconhece que muitas responsabilidades foram delegadas a instâncias transnacionais. Cerca de 50% de todas as regulamentações econômicas são formuladas por instituições européias ou internacionais, sendo meramente implementadas pelos parlamentos nacionais. Mas as nações-estados não estão necessariamente indefesas face à globalização: "O desafio reside na adaptação inteligente".

    A redução dos custos trabalhistas gera empregos

    Zürn defende, especificamente, uma abordagem moderna da busca dos interesses nacionais. Quase todos os políticos concordam com isso, pelo menos tacitamente. Segundo esse sistema, o Estado financiaria cada vez mais os serviços sociais com impostos e contribuições privadas --e não com descontos nos contracheques.

    Na Alemanha, as contribuições individuais para aposentadoria, previdência social e serviços de saúde são comparáveis às contribuições empresariais. Há cerca de dois anos, o Instituto de Pesquisas Econômicas da Alemanha calculou os efeitos de tal modelo para a revista Der Spiegel. Ele descobriu que uma redução drástica dos custos trabalhistas não relativos aos salários poderia gerar milhões de novos empregos.

    É claro que essa fórmula não funcionaria para todos os setores. Aquela era na qual os vestuários básicos podiam ser fabricados de forma lucrativa na Alemanha provavelmente já terminou há muito tempo. Uma costureira alemã é simplesmente incapaz de competir com os salários pagos na Romênia.

    Mas isso poderia ser uma tábua da salvação para outras indústrias. No setor automotivo, por exemplo, os salários correspondem freqüentemente a apenas 15% dos custos totais. Nesse setor, alguns poucos centavos economizados por hora com custos não relativos a salários poderiam garantir o futuro de uma fábrica.

    Mas a adaptação inteligente exige também um sistema de arrecadação fiscal simplificado, com taxas reduzidas, uma ampla base tributária e poucas isenções fiscais. Os especialistas em finanças vêm recomendando algo assim há anos: isso significaria que os impostos sobre a renda seriam menores do que os que incidem sobre os gastos com bens de consumo.

    Modelos similares já são comuns em outros locais --em vários dos novos Estados membros da UE na Europa Oriental, por exemplo. "É lá que os jovens políticos estão implementando o tipo de políticas fiscais que aprenderam como alunos de faculdades européias ocidentais", afirma Franz Wagner, professor de legislação tributária na Universidade de Tübingen, na Alemanha.

    A Alemanha é certamente capaz de competir no mercado global. Afinal, o Reino Unido, a Irlanda, a Áustria, a Dinamarca e a Suécia - todos esses países expostos à globalização, e também sobrecarregados com economias problemáticas --conseguiram dar a volta por cima. Atualmente a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OECD, na sigla em inglês) se gaba dos seus índices de crescimento, dos baixos níveis de endividamento e da aplicação bem-sucedida das estratégias de mercado.

    A selva legal

    Em qualquer momento determinado, o parlamento alemão poderia penetrar com um facão na selva composta de 2.000 leis federais e 3.000 regulamentações, e que contém mais de 85 mil cláusulas individuais. Ele poderia acabar com duas velhas regulamentações para cada nova regulamentação que inserisse.

    E ninguém o está impedindo de reorganizar a estrutura federal, e de acabar com os impasses freqüentes entre as autoridades federais, estaduais e municipais. Ele poderia até mesmo substituir a representação proporcional por um sistema eleitoral de ganhadores únicos, segundo maiorias relativas - fortalecendo, assim, a influência política do governo.

    Em todo caso, a alegação de impotência frente ao mercado parece estranha, ao se considerar o fato de que o Estado alemão gera quase 50% do produto interno bruto do país. Mesmo na era da globalização, o governo alemão pode promover mudanças. Ele simplesmente não conta com a vontade para fazê-lo.

    "O capitalismo, em qualquer modalidade ou formato, não pode nos impedir de promover uma reforma ampla do nosso sistema de previdência social", afirma o especialista em economia Peter Bofinger.

    Mais do que qualquer outro país, a Alemanha --o maior exportador do mundo-- obtém lucros com o livre mercado, especialmente com as crescentes vendas para a Europa Central e Oriental. As exportações para esses países aumentaram 9% em 2004, enquanto as importações cresceram apenas 1%.

    Além disso, sem os componentes baratos fabricados em locais como Bratislava, Gliwice ou Temesvar, as corporações e companhias de porte médio alemãs teriam que lutar bastante para se manterem competitivas.

    Os defensores do fechamento das portas para os locais de produção a baixos custos na Europa Oriental poderão se deparar com uma desagradável surpresa: uma câmera digital que custa atualmente 200 euros poderá terminar custando o dobro. O preço de uma camisa de 40 euros poderá saltar para 100 euros. Os preços mais baixos se constituem --pura e simplesmente-- em um aumento indireto dos salários.

    De fato, existem várias evidências de que a competição salarial beneficiaria, e não prejudicaria, a economia da Alemanha. Por exemplo, nem todo mundo tem dinheiro para arcar com o preço de quase 50 euros por hora cobrado por um consertador de telhados alemão. Muitas residências recorrem a trabalhadores informais para a realização desse tipo de reparos. Trabalhadores mais baratos do leste aumentariam significativamente a demanda por empreiteiras registradas.

    Mas o que isso significaria para os pedreiros, mecânicos, construtores de telhados e outros trabalhadores alemães com baixa qualificação? Eles só seriam capazes de competir com os baixos salários europeus orientais caso o Estado subsidiasse os seus rendimentos por meio de um "crédito do cidadão" --uma espécie de imposto de renda negativo que há muito tempo é utilizado nos Estados Unidos. Como até mesmo Dirk Niebel, secretário-geral do Partido Liberal Democrata, simpático aos empresários, reconhece: "Não há outra forma de resolver este problema".

    "Não é um jogo de soma zero"

    Nos últimos 30 anos, o governo dos Estados Unidos tem subsidiado os rendimentos dos indivíduos que ganham salários baixos com um crédito fiscal. Uma família com dois filhos, por exemplo, cujo rendimento anual não seja maior que US$ 10.750, recebe do Estado até 40% sobre este rendimento. Isso representa US$ 4,204. Esse apoio diminui proporcionalmente, à medida que o rendimento cresce, e acaba quando se atinge o patamar de US$ 35 mil.

    Esse sistema não é barato. Os subsídios custam US$ 35 bilhões ao governo dos Estados Unidos. Mas é mais barato do que financiar o desemprego. O Departamento Federal do Trabalho da Alemanha tem um orçamento de 58 bilhões de euros, ou US$ 71 bilhões.

    O oferecimento de boas perspectivas aos trabalhadores qualificados e funcionários de classe média representa um desafio ainda maior. Muitos deles também acreditam ser vítimas da globalização, e, à primeira vista, isso pode parecer verdade. Mas a realidade não tem que ser essa.

    Quando um engenheiro é contratado em Bratislava, isso não significa automaticamente que um outro engenheiro de Ingolstadt não terá o que fazer. Um programador em Bangalore não tem que necessariamente retirar o seu colega de Walldorf do mercado.

    A Audi e a SAP aumentaram o seu quadro de funcionários tanto na Alemanha quanto no exterior. "A globalização não é um jogo de soma zero", frisa Jagdish Bhagwati, especialista em livre comércio de Nova York. Domando o monstro da globalização - Parte 2 Danilo Fonseca
  • Siga UOL Notícias

    Tempo

    No Brasil
    No exterior

    Trânsito

    Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host