UOL Notícias Internacional
 

14/02/2006

Guerra das charges: os incitadores e os incitados

Der Spiegel
Bernhard Zand
Em Hamburgo
Jorgen Nielsen limpou rapidamente a sua mesa de trabalho e esvaziou o cofre. A seguir, ele trancou a porta pelo lado de fora e deixou o Instituto Cultural Dinamarquês, na parte velha de Damasco, entregue à própria sorte, passando por manifestantes e saqueadores enquanto saía do prédio. Enquanto isso, em outra parte da cidade, a embaixada do seu país já ardia em chamas. Pouco depois, sob a cobertura da escuridão, um grupo de diplomatas dinamarqueses saiu da cidade, seguindo para o oeste. Por volta de meia-noite, Nielsen estava no Líbano.

Reuters - 13.fev.2006 
Muçulmanos queimam a bandeira da Dinamarca em Bangaldesh, em protesto contra charges sobre o profeta Maomé
Na mesma noite, o xeque Omar al-Bakri estava sentado no seu luxuoso apartamento no sul de Beirute, colhendo os frutos do seu trabalho do dia. Ele enviou mais de seis milhões de e-mails em um período de 24 horas --pequenos sumários das opiniões legais muçulmanas sobre o caso de blasfêmia contra os islamitas, assim como conclamações por demonstrações e condenações contra o Ocidente.

Desde que o pregador jihadista deixou a Grã-Bretanha, após os ataques a bomba contra o metrô e um ônibus em Londres, a sua vida diária vinha sendo mais ou menos marcada pela rotina - até a controvérsia sobre as charges dinamarquesas. Mas agora havia protestos de Casablanca a Dubai, e se al-Bakri alcançasse o seu intento, Beirute explodiria em manifestações na manhã seguinte.

Nielsen, que passou anos trabalhando no seu doutorado no Líbano durante a guerra civil no país, conhece o Oriente Médio. Não há muita coisa que possa alarmá-lo. Mas quando viu a coluna de fumaça subindo do consulado dinamarquês em Beirute, um dia após ter escapado de Damasco, ele se sentiu desnorteado.

O conflito vinha se desenrolando durante meses, mas Nielsen ainda conseguia manter contato com os seus congêneres árabes. "Por que esta súbita erupção de cólera?", foi a pergunta que fez a si próprio.

O xeque al-Bakri estava no seu elemento quando ele e os seus seguidores chegaram ao Consulado Geral da Dinamarca em Beirute naquela mesma manhã. Milhares de pessoas compareceram, incluindo radicais muçulmanos como ele próprio, mas também moderados --mulheres de calças jeans, com ou sem lenços na cabeça, sunitas, xiitas, e até mesmo alguns cristãos e drusos.

O xeque, momentaneamente tocado por uma dialética divina, disse: "No início, sentimos apenas dor. Mas, depois, descobrimos qual o presente que os dinamarqueses de fato haviam nos dado. Eles acordaram um gigante adormecido --o gigante do islamismo. Vocês não fazem idéia de como ele é grande".

Pode ser que o xeique tenha de fato dito a verdade. Embora o foco dos protestos tenha se deslocado para o mundo islâmico oriental na semana passada, a tempestade continua a se abater sem dar sinais de enfraquecimento.

Em Teerã, manifestantes atacaram as embaixadas dinamarquesa e austríaca, e pelo menos onze pessoas foram mortas em atos violentos no Afeganistão. Protestos, alguns deles violentos, também irromperam na Somália, na Índia, em Bangladesh, na Tailândia e na Nova Zelândia.

Na última quinta-feira os protestos contra as charges de Maomé, realizados por 250 mil muçulmanos xiitas em Beirute após o festival da ashura foram pacíficos, quando comparados a outros. E embora uma procissão da ashura tenha sido atacada na cidade de Hangu, no noroeste do Paquistão, matando 20 pessoas, os atacantes tinham, aparentemente, motivações religiosas.

As notícias de que outras publicações ocidentais --incluindo "Charlie Hebdo", um jornal satírico de Paris - decidiram agora reproduzir as charges polêmicas não contribuíram exatamente para minimizar os temores quanto a novas manifestações.

O candidato presidencial libanês Shibli Mallat, que é cristão, francófono e, assim como muita gente em Beirute, um fã ávido das publicações intelectuais francesas, comentou: "É difícil se envolver com a política no Oriente Médio enquanto existir gente no Ocidente fazendo essas coisas e dizendo que está simplesmente expressando a sua liberdade de discurso, sem se importar que, como resultado, o mundo todo exploda".

O Ocidente tem enviado sinais políticos dúbios. O presidente francês Jacques Chirac condenou a recente reimpressão das charges. Enquanto isso, o governo Bush, que no princípio anunciou que compreendia os protestos muçulmanos, mudou o discurso e engrossou o tom de voz.

Após uma reunião com o rei da Jordânia, Abdullah 2º, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse que os norte-americanos "rejeitam a violência como forma de expressão de descontentamento com aquilo que possa ser publicado pela imprensa livre", e acrescentou que garantiu ao primeiro-ministro dinamarquês Anders Fogh Rasmussen que ele contaria com "o apoio e a solidariedade" dos Estados Unidos nesta controvérsia.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, no entanto, foi bem mais dura ao abordar o assunto, tendo dito: "O Irã e a Síria se dedicaram a inflamar sentimentos e a usar a controvérsia das charges para atingirem os seus próprios objetivos. E o mundo deve censurá-los por isto".

O chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, que conversou com vários líderes árabes desde o início da crise, também manifestou as suas suspeitas quanto ao ímpeto por detrás dos protestos no mundo árabe.

"É muito estranho que as manifestações no Irã, na Síria e na Faixa de Gaza tenham sido especialmente veementes. Os líderes árabes que prezam as boas relações com o Ocidente deveriam discutir de forma clara e inequívoca esta situação que se deteriora. Caso contrário, o islamismo moderado será o único perdedor", disse a porta-voz de Solana, Cristina Gallach.

Mas será que essas ameaças bastante veladas impressionam os líderes árabes? Ou estariam elas adicionando deliberadamente combustível ao conflito? A questão de quem se beneficiará mais com o atual conflito de culturas também é um tópico de acaloradas discussões no Oriente Médio, sendo uma discussão que não oferece conclusões uniformes.

Adil Hammuda, editor da revista semanal egípcia "Al Fagr", ficou perplexo quando a tempestade irrompeu em janeiro. Ele havia reproduzido as charges publicadas no jornal dinamarquês "Jyllands-Posten" no seu próprio jornal quatro meses antes, durante a primeira semana do mês muçulmano de jejum, o Ramadã --chegando até mesmo a publicar na primeira página a charge que mostra o profeta Maomé com uma bomba no turbante.

O "Al Fagr" é um jornal novo, mas proeminente, que conquistou fama durante a eleição presidencial egípcia em setembro do ano passado. Mas o fato de ele ter reproduzido as charges não atraiu muita atenção.

"Não pode ser uma coincidência o fato de essa história só explodir bem mais tarde", diz Hammuda. O governo egípcio desempenhou de fato um papel-chave para a erupção de indignação.

Uma delegação de muçulmanos dinamarqueses, frustrada com o fato de o governo em Copenhagen ter ignorado os seus protestos devido às charges, viajou para o Cairo no início de dezembro, e lá se reuniu com autoridades de alto escalão, incluindo o ministro egípcio das Relações Exteriores, Ahmed Abu al-Gheit, que concordou em examinar o assunto. Primeiro ele apresentou as charges aos participantes da reunião da Organização dos Estados Islâmicos, em Meca, em 7 de dezembro de 2005. Depois, instruiu o embaixador do Egito a obter o apoio dos outros governos árabes.

Esta tarefa se revelou fácil. Enquanto pedidos de boicotes apareciam na Internet, primeiramente ministros individuais, depois governos inteiros e, finalmente, todo o parlamento jordaniano condenaram as charges.

Os diplomatas dinamarqueses se prepararam para enfrentar a crescente onda de indignação no mundo árabe. "A fúria dos egípcios não é inteiramente sem fundamento", admite um diplomata dinamarquês. Copenhagen e o Cairo haviam acabado de chegar a um acordo quanto a um "fórum de diálogo" dinamarquês-egípcio em janeiro de 2005.

Mas quando o embaixador do Egito, falando em nome dos seus congêneres árabes, exigiu uma reunião com o primeiro-ministro Fogh Anders Rasmussen no início de outubro, este se recusou a recebê-lo. Rasmussen afirmou que as charges diziam respeito à livre imprensa, de forma que não haveria necessidade de um diálogo sobre a questão.

Nielsen, o embaixador cultural da Dinamarca para o mundo islâmico, que tentou acalmar os ânimos a partir do seu escritório em Damasco, relata que os diplomatas mantiveram a situação sob controle durante mais algumas semanas.

Mas, segundo ele, três acontecimentos contribuíram para precipitar a explosão de cólera: o sucesso da Irmandade Muçulmana nas eleições parlamentares egípcias em novembro, a reprodução das charges no jornal norueguês "Magazinet", em 10 de janeiro, e a vitória estrondosa do Hamas nas eleições palestinas. "Então, subitamente ficou claro que os regimes árabes estavam participando do jogo", conta Nielsen.

Segundo Rami Churi, editor do "Daily Star", um jornal de Beirute, os governos árabes estão "competindo por legitimidade". Um acentuado sentimento de fraqueza e vulnerabilidade, e até de subserviência ao imperialismo, tem pairado sobre o Oriente Médio árabe desde a guerra do Iraque, afirma Churi, acrescentando que ninguém entende tal sentimento melhor do que os islamitas.

As reações dos regimes árabes às charges variaram. As monarquias do Golfo Pérsico, por exemplo, tentaram enfraquecer o ímpeto dos extremistas com medidas relativamente brandas. A Arábia Saudita chamou de volta o seu embaixador na Dinamarca em 26 de janeiro.

A Câmara de Comércio de Catar cancelou convites feitos às delegações dinamarquesa e norueguesa. Os Emirados Árabes Unidos permitiram manifestações, algo que normalmente não ocorreria. "Não temos outra escolha", disse um funcionário do Ministério da Religião do país. "Quem não fala nada dá a impressão de que secretamente deseja ver o profeta ser insultado".

O resultado? Os Estados do Golfo têm boicotado, desde então, a manteiga escandinava. "Isto não durará muito. Nenhum xeque dispensará o seu novo aparelho estereofônico dinamarquês Bang & Olufsen", diz Churi.

Outros regimes deram um passo além. "Teria sido fácil bloquear toda a rua na qual se localiza a Embaixada da Dinamarca", diz Nielsen. Mas o governo em Damasco pensou de outra forma, e incitou a multidão a se rebelar. No dia seguinte, ônibus lotados de manifestantes do norte do Líbano chegaram ao consulado dinamarquês em Beirute. Como se constatou depois, 77 dos 192 indivíduos detidos eram sírios.

A mobilização de pessoa nas ruas árabes é um instrumento eficaz de pressão usado pelos governantes. Ela envia uma mensagem ao Ocidente: se vocês não contassem conosco para conter a multidão, teriam que lidar com ela.

A Síria, que tem sofrido pressões devido ao seu alegado envolvimento com o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, aplica essa lógica, diz Churi --assim como a Líbia e o Egito. "Mas o argumento está se tornando cada vez menos convincente. Afinal, o Ocidente já está cooperando com um governo de tonalidades islâmicas na Turquia, e o próprio governo norte-americano contribuiu para colocar os islamitas no poder no Iraque". Os ditadores não são mais necessários.

Um diplomata ocidental em Beirute aponta para um motivo similar. Ele diz que a vitória do Hamas nas urnas deixou os autocratas do mundo árabe mais preocupados do que qualquer ataque islamita com bombas. "Até então, os islamitas eram um risco à segurança, um problema especialmente para a polícia e as agências de inteligência. Agora eles são uma alternativa democrática". Baderneiros de rua são bem mais fáceis de se controlar do que os vencedores de uma eleição.

Nem todos os governos desfrutaram da mesma quantidade de capital político derivado da guerra das charges. O gabinete do Líbano foi pego completamente desprevenido pelas manifestações no país, o que fez com que pedisse desculpas à Dinamarca pela violência, e o ministro do Interior do país, Hassan Sabar, colocou o seu cargo à disposição.

Na Jordânia, um país ainda chocado com os ataques terroristas contra três hotéis ocidentais em Amã em novembro passado, a pressão dos islamitas continua relativamente branda. Como resultado, o rei Abdullah 2º foi capaz de fazer comentários relativamente moderados sobre a questão das charges durante a sua recente visita a Washington.

A forma como o governo iraquiano dominado pelos xiitas lidou com a crise das charges é também instrutiva. De fato, tal abordagem pode ter até contado com a aprovação tácita do Ocidente: o governo aproveitou a controvérsia para criar uma ponte para conversações com a frustrada minoria sunita.

Embora os xiitas geralmente evitem exibir figuras do profeta Maomé, a sua proibição de imagens está longe de ser tão rigorosa quanto aquela do islamismo sunita. Milhões de retratos de Ali e Hussein, os mais importantes mártires xiitas, estão em circulação no Iraque. Entretanto, o ministro iraquiano dos Transportes, Salam al-Malaki, anunciou em Bagdá que o Iraque congelará todos os acordos econômicos com a Dinamarca, e que não mais aceitará qualquer auxílio para reconstrução vindo da Dinamarca e da Noruega.

O grande-aiatolá Ali al-Sistani, o líder espiritual dos xiitas iraquianos, adotou uma abordagem inusual com relação à polêmica das charges. Embora ele condene a publicação das charges de Maomé como sendo um "ato asqueroso", al-Sistani também critica os extremistas muçulmanos, que segundo ele são parcialmente responsáveis pela má imagem do islamismo no Ocidente. "Frações desorientadas e opressivas da sociedade muçulmana contribuem para uma imagem distorcida do islamismo", acrescenta o grande-aiatolá.

Al-Sistani, persa de nascimento, estava provavelmente se referindo mais à liderança da rede terrorista Al Qaeda do que ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad --refletindo a emergente rivalidade do chefe de Estado iraniano com Osama Bin Laden sobre quem deveria estar modelando as opiniões dos extremistas muçulmanos.

Até o momento, o governo de Teerã, já emaranhado em uma crescente desavença com o Ocidente devido ao programa nuclear do Irã, tem alimentado com satisfação a guerra cultural. Embora o concurso para a escolha das 12 melhores charges sobre o holocausto, anunciado pelo jornal "Hamshahri" de Teerã na semana passada, tenha chocado o Ocidente, a iniciativa impressionou também homens como o fugitivo britânico, xeque Omar al-Bakri, um conhecido apoiador de Bin Laden.

"A retórica de Teerã impressiona bastante", disse o pregador do ódio, do seu exílio no Líbano. "Mas isso não passa de retórica. O que foi que Ahmadinejad fez até o momento contra os Estados Unidos?".

Al-Bakri espera que a Al Qaeda divulgue a qualquer momento um comunicado sobre a polêmica das charges --uma palavra de Osama Bin Laden sobre a "profanação do profeta". "Será nesse momento que a guerra cultural realmente começará. Aí vocês saberão qual é o som que se ouve quando um leão fala". Devido ao fato de vários regimes muçulmanos estarem competindo com os islamitas radicais pelo apoio popular, esses governos continuam incitando a indignação pública. Agora o temor na região é de que o líder terrorista Osama Bin Laden faça um apelo para que todos peguem em armas Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h49

    0,50
    3,145
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h54

    -0,69
    75.483,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host