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28/02/2006

Um intervalo para discutir o Holocausto

Der Spiegel
Alexander Smoltczyk
Em Roma
O astro romano do futebol Paolo Di Canio adquiriu uma péssima reputação por fazer acenos com a saudação hitleriana junto aos torcedores de extrema-direita do seu time. O prefeito de Roma queria pôr fim a essa brincadeira. Para tanto, ele reuniu Di Canio e seus colegas jogadores do time da Lazio com três sobreviventes do Holocausto.

Uma fina garoa está caindo enquanto o ônibus segue caminho rumo ao Capitólio em Roma. Ele pára em frente à sede da prefeitura --um edifício que, no passado, abrigara o Senado do Império Romano-- e os passageiros, todos eles homens trajando vestuário na última e mais cara moda italiana, entram rapidamente por uma porta de entrada lateral.

Shlomo Venezia aproxima-se do prédio da prefeitura, vindo do lado oposto da cidade --a pé. Ele sobe os degraus da escada cerimonial que levam à Praça do Capitólio, projetada por Michelangelo (1475-1564) e dominada por uma estátua imponente do imperador Marco Aurélio (121-180). O homem de 82 anos traja um paletó comprido e um gorro de marinheiro para se proteger do tempo invernal.

Venezia, um sobrevivente do Holocausto, está vindo a convite do prefeito de Roma, Walter Veltroni. Na prefeitura, dois outros sobreviventes do Holocausto estão à sua espera. Eles responderam a um convite para conversar com os homens do ônibus --integrantes do time de futebol profissional da S.S. Lazio de Roma.

Na semana anterior, os jogadores de um outro time de Roma, a A.S. Roma, compareceram para uma visita similar. Os profissionais do futebol desta semana estão obedientemente sentados na Sala das Tapeçarias, onde eles exercem uma forte impressão sobre alunos de curso primário que estão visitando o local. De certa forma, para eles --e para ao menos um dos jogadores--, esta é uma espécie de detenção.

A saudação hitleriana de Paolo Di Canio

Paolo Di Canio, o capitão da Lazio, foi suspenso em duas oportunidades por ter acenado para os torcedores com o seu braço direito erguido para frente e para cima --um gesto conhecido como a "saudação de Hitler".

O aceno de Di Canio causou então forte impressão sobre os torcedores de extrema-direita da Lazio --os "Ultras"--, os quais passaram a celebrá-lo como o seu ídolo desde então.

"Ave Paolo" tornou-se o hino predileto da galera no estádio Olympia, a "casa" da Lazio. Neste dia, contudo, Di Canio permanece sentado e em silêncio na segunda fileira, ouvindo atentamente as explanações do prefeito, que lhes expõe as razões da sua presença no local.

São vários os incidentes que precisam ser comentados. Recentemente, durante uma partida contra o Livorno, uma bandeira com suástica (o símbolo nazista) e um retrato de Benito Mussolini --1883-1945, o dirigente fascista da Itália que tomou posse após a Primeira Guerra Mundial-- foram vistos expostos na arquibancada dos torcedores mais fanáticos da Lazio.

Pior ainda, alguns jovens torcedores desfraldaram uma extensa faixa de 30 metros de comprimento com versos de escárnio nos quais o nome da cidade de Livorno rimava com a palavra "forno" (numa alusão aos fornos dos campos de concentração nazistas). Vale lembrar que antes da Segunda Guerra Mundial, Livorno era o lar de uma importante comunidade judaica.

Se Di Canio não estivesse trajando seu elegante terno durante sua visita à prefeitura, seria possível avistar os chamados "fasces" (conjunto gráfico formado por um feixe de varas em torno de um machado, insígnia dos primeiros magistrados de Roma que acabou sendo recuperada pelos ideólogos do fascismo) que ele tatuou nas suas costas.

Este símbolo maior do fascismo havia sido utilizado por Mussolini como o seu emblema pessoal. No bíceps direito de Di Canio, pode-se ver uma outra tatuagem com a palavra "DUX" --ou seja, "líder" em latino.

Shlomo Venezia também tem uma tatuagem no seu antebraço esquerdo, com uma seqüência de números: 182727.

Venezia é um dos últimos sobreviventes ainda em vida do "Sonderkommando" de judeus em Auschwitz --cujos prisioneiros eram forçados a trabalhar nas câmaras de gás e nos fornos.

Shlomo Venezia diz que ele na sabe se existe uma outra vida depois desta, mas que ele sabe tudo sobre o inferno. Ele se levanta e começa a contar o que ele viu: como os prisioneiros --crianças, idosos, todos eles nus-- eram empurrados para dentro das câmaras de gás. Com freqüência, eles fitavam Venezia com olhares suplicantes, como se ele, na qualidade de membros do Sonderkommando, pudesse dar-lhes uma palavra de esperança.

Só os conhecimentos básicos sobre o Holocausto

Ele se limita a transmitir aos jogadores da Lazio os conhecimentos básicos. Ele não lhes conta tudo o que viu, como, por exemplo, aquele recém-nascido que eles encontraram certa vez numa das câmaras, milagrosamente ainda com vida, debaixo de uma pilha de cadáveres, mamando o peito de sua mãe morta. Ele tampouco lhes conta o que aconteceu então com o recém-nascido. Estas são histórias da sua vida --história que o assombram durante a noite.

Agora, ele está olhando para os jogadores da Lazio, sentados diante dele com os seus ternos listrados, seus calçados caríssimos e seus cabelos oxigenados para parecerem loiros. Reina o mais completo silêncio; ninguém ousa fazer qualquer pergunta.

O prefeito Veltroni explica que ele reuniu os jogadores com os sobreviventes do Holocausto no coração de Roma para demonstrar que a capital da Itália perdeu a paciência com os símbolos fascistas e as bandeiras nazistas. "Esses símbolos não pertencem a esta cidade", diz.

Uma hora e meia depois, os jogadores saem pela porta lateral da prefeitura e começam a checar as mensagens nos seus celulares. Eles parecem estar um pouco desnorteados. Ninguém diz uma palavra. Christian Manfredini (número 68; meio-campista) resolve fazer uma caminhada sozinho em volta da praça.

Então, o treinador Delio Rossi junta-se a eles. Ele lhes diz: "Quando vocês vêem uma suástica, ou uma bandeira vermelha com uma foice e um martelo, é importante que tenham a consciência de que eles representam o sofrimento humano. Então, acho que o certo talvez seja interromper [o jogo], ao menos por um minuto".

Auschwitz foi libertado pelo Exército Vermelho, que lutava em nome do símbolo da foice e do martelo. Como explicar tudo isso?

Uma promessa dos jogadores

O capitão do time, Di Canio, trajando manto e cachecol Burberry, é o último a chegar. Dois passantes chamam-no: "Paolo! Paolo!", e por um instante ele acena para eles com um sorriso, por trás dos seus grandes óculos escuros. Ele se atrasou porque ficou conversando com o prefeito.

As pessoas deveriam também falar sobre as vítimas dos militantes comunistas --"de maneira a praticar uma justiça de 360 graus". As "leis raciais" eram terríveis, disse ele mais tarde, mas ele não pretende mudar de forma alguma suas idéias.

Schlomo Venezia ainda está aguardando na plataforma. "Eles nos fizeram uma promessa", diz, colocando seu gorro de volta sobre a cabeça. Atrás dele estão as ruínas do Fórum.

"Da próxima vez que esses símbolos aparecerem, eles irão interromper a partida". Quem viver verá. Os únicos que sempre mantiveram sua palavra foram os nazistas alemães. Esta é a experiência que ele carrega com ele.

Não, diz Schlomo Venezia, ele não se interessa tanto assim por futebol. Em Roma, jogador de futebol fascista é colocado com o time frente a frente com 3 sobreviventes de Auschwitz pelo prefeito da cidade Jean-Yves de Neufville

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