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20/04/2006

Papado de Ratzinger: novos óculos de sol e velhas liturgias

Der Spiegel
Alexander Smoltczyk
O Vaticano está aparentemente pensando em transferir a Nunciatura Apostólica - na Igreja Católica, o equivalente a uma embaixada - de Taipei para Pequim antes das Olimpíadas de 2008. Da mesma forma, a Igreja continuará com a sua política de não designar bispos para esta nunciatura sem consultar antes os chineses. Pequim aceitou à elevação do bispo de Hong Kong, que é um crítico do regime chinês, ao posto de cardeal sem qualquer objeção séria.

Algumas pessoas duvidariam de que tudo isso estivesse de alguma forma refletido no brasão de Bento 16. Mas presságios e milagres fazem parte do cotidiano do universo católico. O dia 24 de março, data na qual o heraldista-chefe Andrea Cordero Lanza di Montezemolo foi promovido a cardeal por Ratzinger, que é um ex-membro da Juventude Hitlerista, foi também o aniversário de um massacre ocorrido nas Fossas Ardeatinas, no qual a SS (força policial dos nazistas) assassinou o pai de Corderos após dias de torturas terríveis. Uma coincidência? É improvável.


Chapéu de veludo e vaticanum

A Organização de Proteção da Natureza e dos Animais Europeus fez um protesto contra o papa pouco antes do Natal.

"O sangue de animais inocentes mancha a peça medieval que orna a cabeça de Bento 16", acusou o diretor alemão do grupo. Ele estava se referindo ao "camauro", um pequeno chapéu de veludo vermelho adornado com pele de arminho, que apareceu pela primeira vez nas pinturas renascentistas de Rafael.

Devido ao fato de sempre ter sofrido com o frio nas orelhas e não poder se dar ao luxo de pegar resfriados, o chefe da Igreja usou o chapéu ao falar para uma audiência em 21 de dezembro do ano passado. Mas a proteção contra o frio do inverno não foi o único motivo pelo qual ele usou o camauro. O chapéu funcionou também como um sinal, já que é uma referência ao Conselho Vaticano Segundo, ocorrido 40 anos antes. Foi um sinal de reverência ao pai do conselho, João 23, que reintroduziu o camauro no Vaticano e levou o chapéu consigo na sua sepultura envidraçada, que está em exibição em um canto da Basílica de São Pedro.

O Sacrosanctum Concilium, para alguns um tipo de "1968" do catolicismo, foi a experiência teológica fundamental de Ratzinger. Ele foi o único membro restante do conclave que desempenhou um papel fundamental no Conselho Vaticano Segundo. Como resultado, a eleição do papa foi também um referendo sobre a "interpretação fiel" das resoluções do conselho, quanto a questões críticas como: Até que ponto a Igreja pode se abrir para o presente? Será que ela já avançou suficientemente nesse processo de abertura?

Como cardeal, Ratzinger falou repetidamente sobre os "erros" do debate pós-conselho, dos exageros e das conclusões equivocadas, especialmente entre os seus colegas alemães.

Mas no sermão no qual ele usou o chapéu de veludo, e durante uma pregação de Natal pouco tempo depois, Ratzinger professou a sua fé no conselho, afirmando que uma interpretação incorreta foi a responsável pela comoção ocorrida na Igreja. Segundo ele, o conselho dizia respeito à "reforma", e não à "separação".

Ratzinger foi eleito devido à sua capacidade de colocar as coisas nos seus devidos lugares, e ele deve a sua eleição aos "principais eleitores" italianos associados ao cardeal Camillo Ruini. Eles acreditaram que só seria possível confiar em um professor da terra de Martinho Lutero para a tarefa de focar novamente as atenções sobre a Igreja em uma Europa de analfabetismo transcendental. Na Itália, Ratzinger liderou o diálogo com os intelectuais agnósticos durante 20 anos.

"Não era possível discutir nada com Wojtyla", disse um cardeal. "Em uma questão de minutos ele ascendia às alturas visionárias". Mas, em se tratando de Bento 16, a história é totalmente diferente. Ele compreende os incrédulos. Ao contrário do seu predecessor, a sua solução não é rogar a estes que se ajoelhem e rezem. Em vez disso, ele acredita que o Iluminismo necessita de alguma iluminação. Ele é um intelectual que, em vez de substituir o racional pelo místico, usa o racionalismo em serviço da fé.

Óculos escuros e iluminação

No verão passado, para surpresa de todos, Bento 16 circulou em Roma em um conversível. Durante o passeio ele usou óculos escuros da grife Serengeti, que, segundo o fabricante, filtram a radiação luminosa de ondas curtas, ajudando a prevenir o cansaço da vista. E isso é importante para Ratzinger - os seus olhos são vitais para a sua escrita.

O papa Bento 16 escreve, escreve e escreve. Cartas, sermões, discursos, circulares e livros. Ele já é o papa com o maior número de obras publicadas na história. O pastor supremo é até capaz de inserir um pensamento teológico fundamental no discurso de credenciamento do embaixador de Andorra. Para ele, a verdade pode ser encontrada na sua mesa de trabalho. Se João Paulo 2º era o papa das imagens, Bento 16 é o papa das palavras.

Ele próprio escreve os seus principais sermões, e reescreve completamente discursos pré-redigidos - nas suas pequenas letras manuscritas de estilo acadêmico -, apelidados de "livros de gravuras" pelos seus assessores imediatos.

O fato de ter sido nomeado o chefe da Igreja Católica não separou realmente Ratzinger do seu trabalho de toda uma vida. Ele continua a lutar com o seu conflito fundamental, contrastando a "verdade" com o "relativismo" da idade moderna. No centro da sua filosofia está o homem como criação divina, e não o homem como um substituto de Deus.

Um dos seus talentos é o de mudar o nível da conversa nos debates sobre questões mundanas. Em vez de falar sobre camisinhas, Benedito 16 condena a sexualidade sem amor. E em vez de se envolver na campanha de verão dos bispos italianos contra a inseminação artificial, ele falou sobre os fundadores da Igreja.

Embora continue a voltar a sua atenção para a fundação dogmática, ele também quer ser capaz de ter certeza de que não há um excesso de ações improvisadas por mudanças em outras partes do Vaticano. Isso explica a reforma da cúria e a remoção dos elementos desnecessários. "A luta pela obtenção de responsabilidades resultou em vários episódios de golpes pelas costas", disse uma fonte do Palácio Apostólico.

Semana da limpeza e semana sagrada

O diabo mora nos detalhes, nos semitons e nas nuances. Isso explica por que o diretor de música da Basílica de São Pedro foi substituído, supostamente por ordem do papa. O seu sucessor dirigirá o coro pela primeira vez na Sexta-Feira Santa, e ele saberá que Bento 16 não deixará de notar uma nota dissonante sequer.

Ratzinger observou as aparições dramáticas do seu predecessor - trabalhos teatrais de arte saturados de cores - com uma suspeita quase luterana. Afinal de contas, uma missa não é uma ópera; e, especialmente, não é uma ópera italiana. Esta é uma visão que vai completamente de encontro à crença do arcebispo Piero Marini, gerente de eventos do Vaticano, que diz: "No início do terceiro milênio, a Igreja precisa regozijar-se na beleza".

Ratzinger já ofereceu três dioceses a Marini, na tentativa de livrar-se dele, sem obter sucesso. Para Ratzinger, que desconfia da imagem, qualquer coisa que seja barroca é suspeita. O papa João Paulo 2º adorava missas em grande escala. O papa Bento 16 não.

Não é nenhum segredo o fato de Ratzinger lamentar o desaparecimento do latim da missa, e basta que pense em violões sendo tocados nas igrejas para que sinta comichões. Ele quer que o foco esteja na liturgia, e não em como a mensagem é veiculada. De fato, a estrutura da liturgia foi o principal tópico no primeiro sínodo liderado por Ratzinger em outubro do ano passado.

"Há evidências de uma discreta redução nas liturgias papais na Basílica de São Pedro", afirma o historiador da Igreja, monsenhor Walter Brandmüller. "Os elementos do folclore foram empurrados para o cenário de fundo, substituídos por mais elementos do ritual sagrado e por maior profundidade e tradição religiosas. É claro que o conselho quer a liturgia em latim, e que o celebrante se volte para o leste, em vez de para o povo. O único problema é que a prática real vem divergindo da política da cúpula no decorrer dos anos".

O papa e Beckenbauer

Tarcisio Cardinal Bertone, o arcebispo de Gênova, se sentou durante anos ao lado de Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé. Ele conhece o homem.

Eis o que ele tinha a dizer sobre Bento 16 em "Telepace", um programa transmitido pela televisão do Vaticano: "A igreja encontrou o seu Beckenbauer", em uma referência ao "imperador" do futebol alemão. "Ele nos empurra para frente com os seus passes. Sabe como utilizar da melhor maneira os talentos dos seus companheiros de equipe. Ratzinger é um diretor reservado e um jogador de meio-de-campo confiável".

Ao invés de viajar de continente a continente, de uma massa gigantesca para outra, este papa prefere zelar pelo jardim da Igreja. Ele quer deixar um Vaticano fortalecido sob os aspectos dogmático e organizacional para o seu sucessor, contanto que conte com tempo suficiente para atingir as suas metas. Em outras palavras, quem ainda estiver esperando por uma mudança na forma de pensar do papa com relação a questões como a contracepção, a ordenação de mulheres ou a concessão da Sagrada Comunhão àqueles que se casaram novamente terá que esperar pelos sucessores de Ratzinger. Danilo Fonseca

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