UOL Notícias Internacional
 

12/08/2006 - 01h10

Um jardim fálico na Terra do Amor coreana

Der Spiegel
Matthias Streitz
Existe um antigo preconceito contra os japoneses, coreanos e outros asiáticos de que eles são pudicos e reprimidos. Mas vá para a "Terra do Amor" na ilha de Cheju, na Coréia do Sul, e você começará a questionar esse clichê.

Ainda me lembro da sensação de surpresa quando virei a esquina em um bairro respeitável e abastado de Tóquio e me encontrei frente a frente com um cinema pornô. Não somente isso, mas na rua comercial próxima um cartaz anunciava com total explicitude a seleção de filmes obscenos do cinema. Um homem de ar respeitável, vestindo terno, estava parado na frente do cartaz em plena luz do dia, examinando as imagens como um verdadeiro conhecedor.

Quem disse que os japoneses são recatados? Para mim foi um desses momentos de surpresa que os turistas muitas vezes sentem no Extremo Oriente. Você pensa que toda a região é reprimida como um seminário de padres. Você só vê casais de adolescentes mais ousados beijando-se em público. E de repente encontra-se sentado ao lado de um funcionário de escritório no metrô e percebe que ele está folheando uma revista pornográfica. Ou descobre incríveis fetiches de fertilidade no templo local - como um badalo de sino em forma de pênis pendurado do teto.

Mas se você realmente quer aprender sobre a vida sexual asiática, a "Terra do Amor" na Coréia do Sul é o lugar certo para visitar. É um parque temático do tamanho de aproximadamente dois campos de futebol situado no norte da ilha de Cheju. Ele é repleto de objetos eróticos - estátuas, fotografias e esculturas que parecem uma versão pós-moderna dos falos daquele templo e uma instalação de Jeff Koons - só que mais brega, se isso é possível.

Disneylândia lasciva

Logo após a entrada da Terra do Amor, um conjunto acrobático fazendo sexo oral recebe os visitantes. Ele mostra um homem e duas mulheres - uma delas tem as pernas enroladas no pescoço do homem e parece que vai quebrar o próprio pescoço a qualquer minuto. O trio acrobático é iluminado à noite, assim como as outras peças exibidas aqui: a montanha-seio coroada com mamilos cor-de-rosa ou os pênis eretos que se erguem do lago de peixes dourados, como uma fonte. As esculturas são tão explícitas que você não pode evitar parar na frente delas com uma mistura de descrença e diversão - mesmo sendo um turista ocidental calejado.

Para que serve tudo isso? E por que essa Disneylândia lasciva está localizada aqui, dentre todos os lugares, entre as planícies vulcânicas da ilha de Cheju, cujas outras atrações são uma aldeia tradicional transformada em parque temático folclórico e um museu de ursos de brinquedo?

Mesmo as pessoas que não sabem quase nada sobre a ilha de Cheju sabem que ela também é conhecida como a "ilha da lua-de-mel" sul-coreana. A pequena ilha com seus 600 mil habitantes detém esse título honorário desde o fim da Guerra da Coréia, graças a uma dupla coincidência. De um lado, Cheju é a parte mais meridional e portanto mais quente da Coréia que foi adequadamente habitada. Do outro, a maioria dos sul-coreanos não podia viajar para o exterior até o início dos anos 90, por motivos financeiros e políticos.

A ilha de Cheju, com suas praias e o poderoso pico vulcânico, tornou-se o destino preferido dos que não queriam fazer caminhadas e visitas a templos no interior do país. Isso era principalmente válido para os recém-casados, que ainda hoje procuram a ilha.

A "ilha da educação sexual"

Nas últimas décadas, muitos desses casamentos foram arranjados pelos pais dos noivos. Os mais afortunados poderiam ter uma breve oportunidade de se conhecer - sob os olhares atentos dos parentes - antes de trocar os votos. E depois do casamento eles voavam imediatamente para o sul, para a ilha de Cheju. Enquanto se acostumavam com a idéia de estar unidos para o resto da vida eles passavam a noite de núpcias e os dias seguintes na ilha da lua-de-mel, que por isso também se tornou uma espécie de "ilha da educação sexual".

No final dos anos 80 o jornalista e escritor de turismo Simon Winchester relatou que alguns funcionários de hotéis da ilha atuavam como "quebra-gelos profissionais". À noite o hotel oferecia um programa de entretenimento com danças eróticas e outros destaques. Seu objetivo era ajudar os novatos intimidados a descontrair-se - e talvez lhes dar algumas idéias para mais tarde. Winchester comenta ironicamente que um dos "artistas" desses hotéis provavelmente deflorou mais mulheres do que qualquer outro homem na Ásia.

Por isso talvez não seja de admirar que a Terra do Amor coreana fosse construída aqui, a um pequeno percurso de táxi da Cidade de Cheju. Quem já passeou entre os gigantescos lábios vaginais de pedra e subiu no falo de mármore de 10 metros provavelmente se sente um pouco menos reprimido depois.

Mas nada disso é prova de uma atitude especialmente aberta ou descontraída em relação ao sexo. Na verdade ocorre o contrário. À parte algumas exceções totalmente controladas, as coisas mostradas e imaginadas na Terra do Amor são mantidas ocultas em outros lugares da Coréia do Sul. Nesse sentido, o parque temático não difere das revistas pornográficas ou dos ritos de fertilidade asiáticos: é uma pequena ilha de liberdade em um oceano de tabus.

Foto para o álbum

É claro que os coreanos recém-casados hoje têm outros destinos para onde podem viajar além da ilha de Cheju. A Coréia do Sul enriqueceu e os vôos para o exterior não são mais um problema político. Mas a ilha continua sendo um importante destino para jovens casais.

Além dos turistas em um passeio à tarde você verá muitos jovens casais tímidos, de 20 e poucos anos, passeando pelo parque do amor, espiando e rindo nervosamente. Eles se sentam lado a lado no banco dos falos, montam o tripé da câmera e usam o disparador automático para tirar uma foto para o álbum de família. Afinal, estamos na Coréia e uma viagem seria incompleta sem uma foto. Talvez eles até parem na loja da Terra do Amor e comprem algum souvenir para usar mais tarde. Isto é, se não ficarem envergonhados demais.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h19

    -0,52
    3,263
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h24

    1,50
    73.599,56
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host