UOL Notícias Internacional
 

18/08/2006

A digitalização do terror - execuções em alta resolução e DVDs sangrentos

Der Spiegel
Susanne Koelbl
O homem tem 38 anos e só uma perna - a guerra é sua vida. Seu nome é Mullah Dadullah e ele é considerado o segundo na linha de comando dos taliban no Afeganistão. É um homem brutalmente selvagem.

Suas vítimas estão deitadas no chão, com as mãos amarradas nas costas. O autodenominado guerreiro sagrado puxa um dos homens pelos cabelos e corta a garganta do "traidor". Ele faz o mesmo com o seguinte. E o seguinte. Seis vezes ao todo. Os homens assassinados são acusados de ter colaborado com os "infiéis". A morte é sua punição.

Isso não é uma execução. É uma chacina sangrenta. E a carnificina está disponível para o mundo assistir. O ato foi registrado com uma câmera digital e o DVD resultante é vendido em mercados do Paquistão e do Afeganistão e também está disponível na Internet. O objetivo? Incutir o terror no coração dos "cruzados" ocidentais e de seus colaboradores.

É um fenômeno que Markus Kaiser, um alto oficial do órgão de inteligência interna da Alemanha, conhece bem. Nos últimos sete anos ele vasculhou a Internet em busca de retórica de batalha islâmica e documentos terroristas.

Kaiser sugere que provavelmente não é coincidência que o vídeo mostrando o assassino Mullah Dadullah tenha sido lançado agora, quase ao mesmo tempo que a mobilização da nova força da Otan no sul do Afeganistão. Kaiser percebeu que o nível de brutalidade nesses filmes de propaganda está aumentando. "Eu nunca havia visto uma chacina tão horripilante", ele diz.

Não é novidade que a Internet se tornou uma plataforma de comunicação para terroristas - assim como para seus seguidores e seus adversários.

Hoje em dia, porém, uma monitorização cuidadosa da web revela a crescente brutalidade do movimento jihadista internacional. O isolamento e o desespero dos radicais é igualmente evidente. As imagens, porém, também documentam a vulnerabilidade dos exércitos ocidentais nas remotas regiões montanhosas do Afeganistão e do Irã, juntamente com os desafios que eles enfrentam para lidar com as realidades dos países em que operam.

Especialistas em terrorismo monitoram habitualmente cerca de 20 sites da web que são usados para divulgar vídeos e outros materiais de propaganda. Depois há diversos fóruns e blogs protegidos por senha. Mas apesar da constante vigilância sabe-se comparativamente menos sobre as pessoas que estão por trás desses sites.

Um deles até anuncia seus vídeos de terror como se fossem entretenimento. A Global Islamic Media Front apresenta "A câmera oculta do mujahedin - Comédia sangrenta". Nesse vídeo, os diplomatas russos seqüestrados no Iraque em 3 de junho suplicam por suas vidas. Mas seus apelos são inúteis.

Trinta segundos depois os homens são brutalmente decapitados. O filme continua, mostrando soldados americanos caindo no Iraque depois de ser mortalmente feridos por franco-atiradores, fuzileiros-navais sendo massacrados em Kunar, no leste do Afeganistão, e veículos militares explodindo. Nos créditos, lê-se: "Em nome do piedoso Alá, que os tiros atinjam seu alvo e reforcem nossos passos".

Em suas longas marchas pela paisagem árida do Hindukush, os taliban usam velhas sandálias e roupas simples tradicionais e carregam apenas armas leves. Suas bombas são feitas a mão e eles moram em casas de barro primitivas. No entanto, quando se trata de tecnologia, os taliban estão totalmente atualizados. Seus filmes curtos podem ser baixados em vários formatos de sites na web, até para telefones celulares. E a crônica do horror é constantemente atualizada, com material novo do Afeganistão, Iraque, Autoridade Palestina, Chechênia e Indonésia acrescentado diariamente.

Os serviços de inteligência acreditam que a cidade paquistanesa de Quetta abrigue o que é provavelmente a oficina mais profissional da mídia do terror. A cidade, no estado do Beluquistão, na região de fronteira de Pashtun, é considerada um enclave taliban. Ela abriga o quartel-general da propaganda da Al Qaeda, a "Fundação para Produção de Mídia Islâmica", ou Al-Sahab.

As declarações mais importantes feitas pelo chefão do terror Osama bin Laden, seu vice Ayman al-Zawahiri e por Abu Mussab al-Zarqawi, que chefiou a divisão da Al Qaeda no Iraque até sua morte em junho, foram editadas e processadas aqui. O que começou como uma operação amadora produzindo vídeos de baixa qualidade desde então se transformou em uma produtora altamente profissional.

A organização lançou seu vídeo mais bem-cuidado cerca de cinco semanas atrás, para coincidir com o aniversário dos atentados ao ônibus e ao metrô de Londres em 7 de julho de 2005, no qual 52 pessoas morreram e quase 800 ficaram feridas. Usando o formato de um noticiário de TV, a fita mostra o caos da operação de resgate e as reuniões de crise, interrompida por mensagens de Zawahiri e um clipe até então desconhecido apresentando o homem-bomba Shehzad Tanweer.

Ao analisar o filme, os especialistas prestam especial atenção num homem cujo rosto nunca havia sido mostrado: Azzam, o americano. O homem de 28 anos é considerado uma figura importante nas transmissões da Al Qaeda.

O nome verdadeiro de Azzam é Adam Gadahn, e ele nasceu na Califórnia. Filho de um criador de cabras, Gadahn se converteu ao islamismo e foi para o Paquistão em 1998, onde se casou com uma refugiada afegã.
Aparecendo em um vídeo transmitido pela ABC News em setembro passado, ele fez a seguinte ameaça a seus compatriotas americanos: "Ontem Londres e Madri, amanhã Los Angeles e Melbourne, se Alá quiser!" Ele usava o turbante preto que é marca registrada dos taliban e seu rosto estava coberto. Gadahn é procurado pelo FBI.

Como lidar com os vídeos de propaganda islâmica é uma questão sobre a qual a mídia ainda precisa chegar a um consenso. A discussão provocada pela transmissão de trechos mostrando a execução no Iraque, em abril de 2004, do empresário Nicholas E. Berg continua. A CNN hoje se recusa a transmitir as exigências de seqüestradores. O diretor do departamento de jornalismo de sua concorrente Al-Arabiya, por outro lado, disse que prefere decidir caso a caso o que é notícia e o que é propaganda.

Isso deixou a Internet como o meio mais confiável para os radicais islâmicos. O oficial de inteligência Markus Kaiser, cujo trabalho é assistir aos vídeos dos terroristas do começo ao fim, diz que a crescente qualidade do trabalho dos profissionais extremistas já está causando impacto. E mais aperfeiçoamentos podem estar a caminho, ele acredita. "Não vai demorar para que um desses homens de turbante do Hindukush esteja falando conosco em alemão", ele diz. Os terroristas estão ficando cada vez mais adeptos dos vídeos de alta qualidade. DVDs mostrando decapitações hoje estão disponíveis nos mercados do Paquistão e do Afeganistão, e também na web Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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