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29/08/2006 - 00h39

A menina e a fera

Der Spiegel
Mathieu von Rohr
Na semana passada a adolescente austríaca Natascha Kampusch escapou de um porão onde foi mantida em cativeiro durante oito anos. No chamado de "o crime mais horrível" que o país já viu, hoje a polícia enfrenta perguntas difíceis.

Inge P., uma aposentada de 71 anos com cabelos vermelhos-vivos, estava na cozinha de sua casa de fim de semana em Strasshof, uma pequena cidade perto de Viena, no dia em que Natascha finalmente escapou de seu carrasco.

Era um dia comum, e ela não fazia idéia do que estava para acontecer. De repente escutou uma batida forte na janela e viu uma garota em pânico do lado de fora. "Estou sendo seguida! Chame a polícia!", gritou a garota, pálida. Ela usava um vestido vermelho de alças finas. "Um homem está me perseguindo", ela disse a Inge P.. "E nós duas vamos ter problemas se ele chegar aqui."

Às 2:03 da tarde, Inge P. ligou para a delegacia da cidade vizinha, Deutsch-Wagram. Seu telefonema foi um choque para as autoridades e para o público austríaco. Natascha Kampusch, que havia desaparecido a caminho da escola 3.096 dias antes, era dada como morta há muito tempo.
Com a ligação de Inge P., um dos casos criminais mais misteriosos da Áustria finalmente chegou ao fim.

Quando Natascha, aos 10 anos, não voltou da escola em 2 de março de 1998, a polícia montou a maior investigação da história do país desde a II Guerra.

Houve uma busca maciça pela garota em toda a Áustria, assim como nas vizinhas Hungria e República Checa. O caso foi divulgado pela televisão e em certo momento até a mãe de Natascha foi suspeita de estar
envolvida no desaparecimento.

Mas o que realmente aconteceu com a jovem beira o impensável. Durante oito longos anos o seqüestrador manteve Natascha prisioneira, vivendo essencialmente como sua escrava, em uma pequena cela de 5 metros quadrados, a apenas 17 quilômetros da casa dos pais dela. A ministra do Interior da Áustria, Liese Prokop, o chamou de "o crime mais horrível da história austríaca".

O país está novamente tão chocado pelo caso quanto oito anos atrás. A imprensa entrevista constantemente os pais chorosos de Natascha, enquanto os jornais imprimem imagens da garota trabalhadas em computador para lhe dar seu provável aspecto atual.

Psicólogos e outros especialistas tentam encontrar respostas para perguntas que ninguém pode responder. O que acontece com uma menina que é obrigada a crescer em uma cela subterrânea enquanto é atormentada por um criminoso demente? Segundo um psicólogo, o único caso comparável seriam os campos de concentração.

A nova vida de Natascha começou na delegacia de Deutsch-Wagram, perto de Viena. Hoje uma mulher de 18 anos, com apenas 1,60 metro de altura e pesando somente 42 quilos, ela foi entrevistada por uma jovem e atraente oficial de polícia, chamada Sabine Freudenberger. Natascha falava de maneira estranha e entrecortada, mas ainda era articulada.
Ela admirou o cabelo preto com mechas louras de Sabine, suas jóias e o pequeno coração que ela usava pendurado no pescoço. A policial lhe deu seu relógio e colocou sua jaqueta sobre os ombros da garota. Então Natascha contou sua história.

Ela disse que teve uma discussão com sua mãe antes de ir para a escola naquele dia, e que no caminho viu um homem na sua frente e pensou em atravessar para o outro lado da rua, mas infelizmente não o fez. O homem a puxou para dentro de seu furgão Mercedes branco, levou-a para sua casa e a trancou em uma cela que ele havia construído embaixo da garagem. Nos primeiros anos de cativeiro Natascha nem sabia o nome do homem, que insistia que ela o tratasse como "amo". A menina tinha de levantar cedo todos os dias, tomar o desjejum com seu "amo", passar o dia com ele e cuidar da casa.

A policial Freudenberger disse mais tarde que o seqüestrador tornou-se uma "figura paterna" para Natascha. Ele cuidava de sua higiene e lhe dava livros escolares. Também abusava dela sexualmente, mas, segundo a policial, "isso não está claro para ela, nem se tornará claro. Ela diz que fez tudo voluntariamente".

Enquanto era questionada, Natascha alternava entre chamar o homem de criminoso e dizer coisas como: "Wolfgang sempre foi bom para mim". Parece que ela chorou quando soube que ele cometeu suicídio.

Strasshof, uma cidade de 7 mil habitantes que se estende dos dois lados de uma rua principal, é uma parada na ferrovia a meio caminho entre Viena e a fronteira eslovaca. Natascha passou todos esses anos basicamente enterrada viva em uma casa no número 60 da Rua Heine.
Apesar de os tablóides austríacos a terem chamado de "casa do terror", não tem esse aspecto. É uma casa unifamiliar amarela com uma garagem, atrás de uma cerca-viva bem aparada, rodeada de casas de fim de semana e jardins. Era a residência de Wolfgang Priklopil, 44, que a transformou em seu campo de prisioneiro pessoal, um reino totalmente sob seu controle.

O carrasco

Em uma fotografia agora amplamente divulgada de Priklopil, ele usa camisa branca e seus olhos castanhos fixam timidamente a câmera, como se ele não fosse totalmente deste mundo. Usa um corte de cabelo no estilo anos 70 e sua boca está semi-aberta, sorrindo de maneira forçada, mais parecendo um esgar.

Seus vizinhos disseram que ele era estranho, mas não parecia ameaçador.
Priklopil era um homem comum, que trabalhava como técnico de telecomunicações e no tempo livre passeava em seu carro, um BMW 850 vermelho.

Ele era sempre amistoso, diz Christa Stefan, 61, que mora do outro lado da rua. Em duas ocasiões ela até viu Natascha ao lado dele, mas não pensou nada a respeito. "Ele acenou do carro e ela ficou sentada lá, parecendo normal.

Apenas me surpreendeu vê-lo com uma namorada tão jovem." Stefan lembra-se vagamente de que Priklopil reformou sua casa e retirou sacos de terra na caminhonete.

Josef Jantschek, um homem baixo de cabelos brancos, na casa dos 60 anos, mora atrás da casa onde Natascha foi mantida prisioneira. Ele diz que era o "conhecido mais próximo" do seqüestrador no bairro. Segundo Jantschek, Priklopil era reservado e sempre mantinha as cortinas fechadas. Gostava de trabalhar em casa e era um jardineiro dedicado, sempre ficava contente ao receber cumprimentos sobre seu jardim alpino, cuidadosamente planejado.

Jantschek também afirma que viu Natascha várias vezes, algumas delas até ajudando seu seqüestrador no jardim. Certa vez, ele disse, estava na garagem observando Priklopil trabalhar em seu carro quando a garota lhe trouxe algumas ferramentas. "Ele disse que a havia emprestado de seu sócio."

Nos últimos meses, o homem, que agora queria que sua prisioneira o chamasse de "Wolfgang" em vez de "amo", parecia sentir-se cada vez mais seguro. Ele mandava sua escrava trabalhar no jardim e a levava consigo para fazer compras. Na última quarta-feira, essa nova descontração foi o fim de Priklopil. Ele disse para Natascha passar o aspirador de pó no carro, na garagem, enquanto ele ia dar um telefonema. Quando entrou na casa para fazer a ligação, Natascha saiu correndo, pulou a cerca-viva e disparou para a liberdade.

Em vez de segui-la, o homem que havia sido o todo-poderoso durante oito longos anos, entrou em sua BMW e fugiu. Naquela noite ele se atirou sob um trem na estação ferroviária de Praterstern, no norte de Viena.

Priklopil havia sido um possível suspeito do seqüestro durante um breve período, oito anos atrás, quando alguém em seu bairro fez uma ligação anônima para a polícia e denunciou sua caminhonete branca. Quando a polícia interrogou Priklopil, ele disse que usava a perua para carregar entulho de construção. Os policiais vasculharam a perua e encontraram os materiais de construção, então foram embora e retiraram seu nome da investigação.

Falha da polícia?

Agora a fuga de Natascha provocou um novo debate na Áustria sobre possível ineficácia policial no caso. As autoridades austríacas estão tentando dar respostas para o público. Na sexta-feira, Erich Zwettler, do departamento federal de investigação criminal da Áustria, Nikolaus Koch, chefe da força-tarefa especial montada para encontrar Natascha, e a ministra do interior Prokop, do Partido do Povo, conservador, estavam numa sala de conferências no quartel-general do órgão em Viena. Alguns dias antes, Prokop - alvo de críticas por sua suposta participação em um escândalo de corrupção - havia dito que o seqüestrador poderia ficar nervoso porque a polícia havia recentemente retomado a investigação do caso. Para zombaria geral, ela afirmou que isso demonstrava que a polícia ajudou a solucionar o caso.

Durante a entrevista, Koch e Zwettler também se apressaram a minimizar possíveis falhas da polícia em relação ao incidente. Na época do seqüestro, eles disseram, as autoridades inspecionaram 700 furgões de entregas brancos, e Priklopil não apenas pareceu inocente como também não tinha registro criminal.

Max Edelbacher, 61, chefiou a investigação até 2002. Sentado em uma cadeira de couro preto, ele diz que estava jogando tênis quando ouviu a notícia de que Natascha Kampusch fora encontrada. Ele também insiste que sua consciência está limpa, que havia muitas pistas a seguir na época. Além disso, segundo Edelbacher, a amiga de Natascha que falou à polícia sobre a caminhonete na época do seqüestro era uma criança que, segundo os professores, gostava de contar histórias e inventar coisas, e não era verossímil. Um caso difícil de resolver, ele insiste.

Afinal, diz Edelbacher, ele está simplesmente feliz porque o crime foi solucionado. Além disso, seu sucessor foi tão incapaz de desvendá-lo quanto ele.

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